Terça-feira, Setembro 30, 2003

Manual dos Vingadores


COMO SE VINGAR DOS NOIVOS DURANTE A CERIMÓNIA DO CASAMENTO

1. Percorrer os convidados um a um e dizer-lhes em voz baixa que a seguir ao copo-d’água é projectado um diaporama sobre a noiva, dos tempos em que era actriz porno.
2. Fazer constar que se é amigo da noiva "desde muito antes de ela ir ao Brasil mudar de sexo, quando ainda se chamava Armando. "
3. Dar publicamente ao noivo um pacote de Binaca, dizendo alto que anula o fedor das duas garrafas de vodka que ele bebe antes do pequeno-almoço.
4. Cumprimentar a mãe da noiva e acrescentar "espero que a sua filha tenha posto cuecas lavadas para logo à noite".
5. Ir ao quarto onde estão os presentes e colar etiquetas com preços irrisórios em todos eles.
6. Depois da noiva atirar o bouquet, gritar "agora o soutien! agora o soutien!"
7. Dizer às pessoas que o noivo não tem testículos desde que alguém lhe deu um pontapé no Ciclo Preparatório.
8. Na igreja, quando os noivos descem do altar, tomar o lugar do pianista e, em vez da marcha nupcial, tocar aquela música da Gabriela Shaff "Ai quem me dera ter um homem muito brasa."
9. Contar à noiva aquela noite que você e o noivo passaram no Algarve com duas holandesas peitudas.

COMO SE VINGAR DE UM CASAL CONHECIDO

1. Durante um jantar e como quem não quer a coisa, dizer ao marido "não imaginas como são engraçadas as alcunhas que a tua esposa dá ao meu pénis".
2. Aproveitar uma falsa visita e pendurar muitos preservativos no estendal das traseiras que dá para os prédios vizinhos.
3. Num momento em que o marido está em casa, mandar entregar um ramo de flores assinado com uma inicial qualquer e a dizer "Temos de fazer isto mais vezes quando o teu cornudo estiver fora."
4. Aniquilar os filhos deles, cortá-los aos pedaços e fazer pickles. Oferecer ao casal inimigo dizendo que se uma pessoa comer pickles consegue estabelecer contactos extraterrestres.

COMO SE VINGAR DAS CRIANÇAS

1. Ensinar-lhes que os traques são palavras sagradas vindas da alma e que devem ser declamadas em público.
2. Dizer-lhes que as manchas do daImata de estimação se podem tirar com ácido sulfúrico.
3. Raptar todos os seus gatos, cães, hamsters e tartarugas de estimação e organizar um barbecue exótico. No final, declarar: "Eu sei que eles eram óptimos companheiros mas achei que davam ainda melhores bifanas."
4. Convidá-los para a sua piscina e, estando todos lá dentro, pedir aos criados que atirem para a água torradeiras ligadas à corrente.
5. Prender ou colar britadeiras às suas lindas caras e utilizá-Ias em escavações na América Central para descobrir, por exemplo, valas comuns em El Salvador ou no Chile.

COMO SE VINGAR DO NAMORADO(A)

1. Depois de uma noite em que ele fez os impossíveis por ser bom na cama, dizer "não sabia que era a tua primeira vez".
2. Dizer-lhe descaradamente que é uma nulidade na cama; depois de ter resfolegado, suado e, finalmente, dar a coisa por terminada, dizer: "vá, podes começar".
3. Num jantar de amigos, propor um brinde à operação plástica que ela fez ao nariz.
4. Extrair-lhe o cérebro, colocá-lo no meio das páginas de um dicionário bem grosso durante dez anos e depois usá-Io, assim espalmadinho, como um crachat.
5. Recorrer às técnicas pictóricas cubista e impressionista: torcer-lhe um olho para a esquerda e outro para a direita, levantar as mãos para cima, os braços para cima, os braços para dentro, as pernas para trás, cortar-lhe uma orelha, partir-lhe o corpinho todo em quatro partes e começar a chamar-lhe Van Gogh em Guernica.

COMO SE VINGAR DE ALGUÉM CONHECIDO

1. Matar-lhe os periquitos, atirá-Ios ao rio e usar o gato como peso para eles não virem à superfície.
2. Num convívio, lançar para o meio de uma conversa: "Não estás a par do que se passou porque isso deu na RTP 2 e tu disseste que em Alcoentre não tinham antena do segundo canal."
3. No meio de um almoço com mais gente e logo que o tema das crianças venha à baila: "Ela quer adoptar um miúdo mas já disse às assistentes sociais que o garoto tem que ser bom na cama, senão nada feito."
4. Dizer aos amigos que, se o cachorro tem apenas uma atracção platónica pela perna direita dela, o mesmo não se passa com ela em relação ao pobre bicho.
5. Apresentar-se no seu local de trabalho como sendo familiar, depois despir-se à frente dos colegas e atirar-lhe com almôndegas.
6. Se essa pessoa que você conhece for violada, fazer-lhe uma visita e dizer-lhe: "Foi muita simpático da tua parte teres ajudado um homem solitário"

COMO SE VINGAR DOS PAIS E DESTRUIR A HARMONIA FAMILIAR

1. Numa revista feminina que a mãe leia regularmente, assinar com o nome do pai o seguinte anúncio:
"Troco o cadáver da minha esposa, com algumas cicatrizes e rabo roçado de tanto uso, mais o corpo dos meus filhos e ainda o pastor alemão com carraças, por uma senhorita de 25-30 anos. Fotografia facultativa que estou com pressa."
2. No jornal que o pai lê colocar a seguinte mensagem - assinada com o nome dela - no dia em que ela faz anos: "Maridinho, neste dia singular, quando acabarmos de festejar o meu aniversário, quando tu tiveres pago a conta e finalmente tivermos saído do Gambrinos pela porta das traseiras, espero apunhalar-te nas costas cinco vezes e depois mais umas 476 no peito."
3. Mandar fazer uma chave qualquer com a inscrição "Hotel Refastelanço", e colocar
no bolso das calças dele que a mãe costuma pôr para lavar.
4. Colocar no meio das facturas que ele atira displicentemente para cima da cómoda, um recibo de uma clínica privada em que se atesta ter uma tal Gorete Freitas feito um aborto. Mais do que matar um ser inofensivo, as esposas não podem suportar que os maridos gastem o orçamento familiar com os abortos das outras.
5. Pedir a um rapagão lá da escola com voz sexy que telefone lá para casa num momento em que só lá estiver o pai. O colega tem que dizer: "Posso falar com a minha cabrinha ladina", ou outra qualquer expressão íntima que só o pai deveria conhecer e que a mãe adora que lhe chamem.
6. Antes da mãe limpar o pó, colocar em cima da mesa-de-cabeceira do pai uma carteira de fósforos de um bar nocturno com números de telefone suspeitos e mais alguns nomes baratos à pressa, tipo
Ramona.
7. Pegar na trela do cão e chicotear-se violentamente. Mostrar ao pai as costas com as marcas e dizer que a mãe teve outra crise por causa da droga.

COMO SE VINGAR DO PATRÃO

1. Leva-Io à feira popular e embebedá-Io. Sentar o homem ao volante do seu Mercedes em pleno parque de estacionamento e dizer: "Vá, só mais uma voltinha nos carrinhos de choque."
2. No escritório, quando telefonarem para ele, responder: "Não pode vir agora que está a chicotear a telefonista."
3. Outra possibilidade: "Agora não que está sentado em cima dos pepinos."
4. Quando o patrão estiver a ter um ataque cardíaco, discar o 115 bem devagarinho enquanto se pede um aumento.
5. No jantar anual da empresa, em vez da banal garrafa de whisky dar-lhe uma variante do cheque-livro e do cheque-disco: um vale, com as três primeiras mensalidades pagas num centro para recuperação de toxicómanos.

COMO SE VINGAR DAS HOSPEDEIRAS

1. À entrada, quando ela disser "bem-vindo" responder "tenha um bom dia de escravatura".
2. À saída, quando ela se está a despedir maquinalmente - adeus, adeus, adeus, adeus, bom-dia, bom-dia, bom-dia, bom-dia - dar-lhe uma estalada.
3. Quando ela estiver a recolher as travessas, agradecer com ironia: "O bife era enorme, maior que aquela casa lá em baixo."
4. Depois dela ter andado imenso para distribuir aqueles pacotes de seis amendoins, dizer-lhe: "Estive a reparar na largura das suas ancas e ainda não percebi que tamanho de roupa usa: jumbo, vista panorâmica, ou meu-deus-aquilo-vem-na-nossa-direcção?"
5. Assustá-Ia dizendo: "Espero que tratem bem das bagagens porque o Sr. Mustafá Jihad, um líbio que conheci no aeroporto, me pediu que lhe transportasse uma mala e segundo pude ouvir está lá dentro um relógio."

COMO SABOTAR UM FUNERAL, INSULTAR A VIÚVA E VINGAR-SE DO MORTO

1. Apresentar as condolências à viúva e acrescentar: "Julguei que a senhora também já estava morta”
2. Dizer aos filhos "é um alívio pensar que, num mundo atacado pelo cancro e pela sida, ainda há cadáveres só com caspa".
3. Dizer ao coveiro para não deitar a terra enquanto você não encontrar as suas lentes de contacto.
4. Dar um murro no cadáver e alegar que foi ele quem começou.
5. Dizer aos filhos que o falecido pai manteve um affair gay consigo durante muito tempo.
6. Pedir a alguém que tire uma polaroid de despedidas, você a apertar a mão do morto.
7. No cemitério, fazer sapateado numa campa vizinha enquanto o sacristão canta;
8. Pôr uma almofada que faz "Iuuupi" na cadeira da viúva.
9. Organizar um concurso para saber quem desenha o melhor bigode na cara do falecido.
10. Dizer à viúva que o corpo mexeu. Dias depois, fazer com que ela receba um telegrama das Bahamas assinado com o nome do morto.

in K, nº2, Experiências, Manual dos Vingadores, Rui Henriques Coimbra, Novembro 1990

Editorial 1 - Desinformação



Não posso deixar de comentar este primeiro editorial da revista K, publicado na K nº 1 do mês de Outubro de 1990, exactamente há treze anos atrás, e de constatar que a dita sociedade da desinformação que então se falava, hoje é uma realidade, possivelmente elevada a um expoente que naquela altura era inimaginável. Não nos podemos esquecer que naquela altura os telemóveis pesavam cinco kilos, que apenas existiam dois canais televisivos e que a palavra internet era ficção científica.

Desinformação
Vivemos na idade da informação. Nunca foi tão fácil a tantas pessoas estarem tão bem informadas acerca de tantos assuntos. Óptimo. O pior é aceitarmos acriticamente que a informação é sempre boa, útil e formativa. A verdade é que nunca houve tantas bestas bem informadas. É muito mais fácil uma pessoa informar-se sobre um assunto do que pensar acerca dele. A partir de certa altura, um excesso de informação pode prejudicar a compreensão de dado acontecimento. Hoje, muitas pessoas informam-se em vez de tentar compreender.
É a mulher que sabe tudo acerca dos filmes em cartaz, mas não viu nenhum. É o homem que segue cada passo dos acontecimentos na Roménia sem parar para tentar compreender o que se passa. É o jurista que conhece toda a legislação mas é incapaz de ter uma discussão sobre conceitos de justiça.
A informação pode ser brutal ao ponto de prejudicar a comunicação. As notícias, em vez de serem pontos de partida, tornam-se em fins. As pessoas, em vez de discutirem eventos e significados, partilham conhecimentos. Em vez de produzirem argumentos, reproduzem factos. Através da mera partilha de informação cria-se assim uma comunidade artificial.

Não há expressão mais mentirosa do que "comunicação social". Que comunicação existe? Apenas se comunica a - não se comunica com. Isto é, não se comunica. Informa-se. O mal está no facto de não haver reciprocidade.

Claro que os chamados meios de comunicação social não ouvem o público a que se dirigem. O velho lugar-comum do "diálogo com o leitor" é uma treta em que ninguém acredita. O mal é que a indiferença com que se distingue quantidade e qualidade de informação torna cada vez mais difícil ao cidadão médio ter opiniões pessoais acerca do que o rodeia.

Há qualquer coisa de arrogante e insuportável no acto de "informar", tal qual ele se concebe modernamente, cheio de gráficos, sondagens, esquemas e painéis equilibrados. Há uma pretensão de definição e cobertura que, além de ridícula, parece violenta, por não admitir discussão. A discussão surge "já feita". O leitor limita-se a escolher uma das posições.

Esta revista vai ser mais comunicativa do que informativa. O nosso objectivo não é sermos respeitados, compreendidos, seguidos, ou representados ou definitivos - é sermos lidos.

in K, nº 1, Editorial, Outubro de 1990

Traduções Selvagens 1

Nom omnes arbusta iuvant humilesque myricœ Não há homens nos arbustos uivando humildemente, minha rica Sicanimus silvas, silvare sint consule dignare Se os cães assobiam, assobiam sem uma consolação digna VIRGÍLIO. Tantum aberant summo, quanto semel ire sagitta missa potest Somos tão aberrantes quanto semelhante ira se agita na missa de protesto flexere oculos, et mersa palude cetera prospicium Pisquemos os olhos e mergulhemos no paludismo, etcetera, prósperos Tantum sua tecta manere De tanta teta nas mãos OVIDIO. Vivamus, mea Lesbia, atque amemus Vivamos, minha Fufa, até que nos amemos Rumoresque senum severium Por muito severos que sejam os rumores omnes unius restimemus assis os homens unidos estimam-se sentados CATULO. Si qua recordanti benefacta priora voluptas est homini, cum se cogitat esse pium Se acaso te lembrares, do bem que faz antes de dar uma queca, és um homem em quem se pode pensar com piedade Nec santam violasse fidem, nec fœdere in ullo divom ad fallendos numine abusum homines Não violes nem te fies na santa, nem leves no cu porque enquanto falam, os homens, no mínimo abusam de ti CATULO (Mais uma vez). Nunc est bibendum, nunc pede libero pulsanda tellus; nunc Saliaribus Nunca estejas bêbado, nunca peças livros tem pulso em ti, nunca saias de autocarro HORÁCIO. O miseras hominus mentes, o pectora cœca! Mentes, ó homem miserável, ó peito careca! Qualibus in tenebris vitæ quantisque periclis degitur hoc œvi quodcumque est Qual autocarro a tenebrosa velocidade quantos perigos durante o tour, mas OK, cada um é como é LUCRÉCIO. Tu mihi sola places, nec iam te prœter in urbe Tu só mijas em praças, nem que te emprestem a cidade inteira Formosa est oculis ulla puella meis Que giros esses óculos, devias pô-los mais Atque utinam posses uni mihi bella videri Até que atines nos poços, vê-me bem onde mijas TIBULLUS. Hic primum vidit sine sensu vivere amantes Os primos acham que não faz sentido vivermos como amantes et levibus curis magna perire bona e o autocarro ligeiro corre mais ainda para ir a Bona Idem non frustra ventosas addidit alas Assim não gastamos as ventosas das Adidas, aliás PROPÉRCIO. Miseri, quibus intemptata nites! Uma miséria, este autocarro já tem tantos anitos! (mais uma vez) VIRGÍLIO. Filia, consuetis ut erat comitata puellis Filha com esse sweater tu eras comida por eles errabat nudo per sua prata pede enrabada nua pelo dinheiro que pedisses OVÍDIO.

in Revista K, nº 1, Traduções Selvagens, Outubro 1990

Sábado, Setembro 27, 2003

K



Este é o universo da saudosa revista K, possivelmente a melhor revista portuguesa de actualidades de sempre. Queremos dar espaço às diferentes opiniões e expressões nesta emulação da revista, desta vez, no espaço da blogosfera. Queremos também, contar com o seu apoio e tornar a qualidade dos textos o mais aproximada possível aos que eram publicados na K. Desta forma, solicitamos-lhe que nos envie textos sobre qualquer tema que ache pertinente. O direito à sua publicação é por nós reservado. Para nos enviar o seu texto clique aqui

Serão submtidos, numa base regular, alguns dos artigos mais interessantes, que figuraram nas revistas K, e claro, que teríamos todo o gosto em saber o que pensa de cada um deles.

Bem vindo ao universo K.