Quarta-feira, Outubro 29, 2003

Anedotas



Um preto entrou numa loja para comprar chocolate. O empregado perguntou: «Branco ou preto?» Então o preto tirou o cinto, desapertou a braguilha e disse: «Baixa as calcinhas».

Um branco entrou numa loja para comprar leite. O empregado perguntou: «Com ou sem café?» O branco respondeu: «Vai pró caralho».

Uma mulher foi ao hospital à procura do marido. O médico de serviço era preto e disse: «Dispa- -se», A mulher, sentindo-se insegura, respondeu: «Não.» Então o médico rapou da sarda e violou-a.

Um arquitecto homossexual quis comprar uma mobília de quarto. Meteu-se no carro para ir ao Vassoureiro mas perdeu-se e atropelou um cão. Quando a mulher lhe perguntou «Onde é que estiveste toda a tarde?» ele respondeu: «Fui comer um gelado ao Patchuka.»

Era uma Vez um papagaio com um pénis do tamanho de um Caran d’Ache. Um dia uma criança ofereceu-lhe uma Bélita e ele sofreu uma erecção massiva. «Olá», disse a criança. «Que é isso que tens entre as pernas?» E o papagaio ripostou: «Pouca conversa e baixa mas é as calcinhas,»

Um televisor sentia-se só. Vivia numa sala cheia de electrodomésticos que não falavam com ele. Um dia, apareceu em casa um leitor de cassetes. O televisor, que era do Porto, perguntou: «Oube lá - que idade tens tu?» E o leitor respondeu: «36. Agora baixa as calcinhas.»

Uma cassete virgem estava numa prateleira do Continente à espera de um comprador. O tempo passava mas as pessoas preferiam comprar as colegas. Quando eram já quase horas de fechar, o guarda veio e disse: «Deixa lá, filha, hoje não tiveste sorte, mas amanhã é outro dia.» Aí a cassete, indignada, disse: «Deixa-te de lérias. Baixa mas é os Abanderados.»

Mário Soares estava na casa de banho quando reparou que trazia as cuecas ao contrário. Um cotonete, que estava a ver, disse para o pente: «Foda-se, está um frio do caralho!» O pente, cheio de si, respondeu: «Olha, já que falas nisso, baixa mas é os slipes.»

Era uma vez um duende matreiro com um enorme parafuso entre as pernas. Certo dia, estando ele à janela a afagar a rosca, apareceu-lhe um tubo que disse: «Bela peça!» O duende fez-se rogado e morreu. O tubo foi-se embora, choroso. Apareceu um passarinho que, não sabendo que estava morto, começou a chilrear esta canção: «Baixa as calcinhas, baixa as calcinhas, tra Ia li Ia Ia...»

in K, nº 12, Anedotas, Setembro de 1991

Terça-feira, Outubro 28, 2003

Manual nazi para detectar taxas de risco. .

Antes de chegar a vias de facto com a jovem é possível, com diplomacia, avaliar os factores de risco dela ser seropositiva.

Em caso de resposta afirmativa a QUALQUER UMA DESTAS PERGUNTAS, afaste-se imediatamente da pessoa infectada e informe os seus amigos e a polícia. Ex:

1. «Não achas que cada um tem direito à sua sexualidade?»

2. Costumas ir ao Frágil?

3. Eras capaz de dar um beijo num preto?

4. Alguma vez levaste no c*?

5. Tens ido ao dentista ultimamente?

6. Ele é solteiro?

7. Emprestas-me a tua seringa?

8. Vais votar no PRD?

9. Foste à exposição do Mapplethorpe?

10. Gostas de Jean Genet?

11. Posso levar-te a casa?

Todo o cuidado é pouco! O seronegativismo Como estilo de vida. O SERONEGATIVISMO baseia-se nos mais modernos princípios médicos e éticos e foi desenvolvido nos anos 30 pelo Professor Ângelo Mengel nos laboratórios de Spandau Ballet.

SER SERONEGATIVO hoje é afirmar a masculinidade de uma forma equilibrada e saudável.

SE QUER REALMENTE EVITAR O MÍNIMO RISCO DE SIDA: Ao saudar um homossexual, prefira as formas verbais, evitando o aperto de mão. Há maneiras de fazê-lo sem ofender. Os homossexuais são frequentemente indivíduos sensíveis (artistas, estilistas, estrangeiros). Leve sempre consigo duas ou três listas telefónicas e explique: «Desculpa não te apertar a mão mas, como vês, tenho que levar estas listas telefónicas...»
Se o homossexual mesmo assim insiste em tocá-lo, atire-lhe as listas e fuja.

MUITAS VEZES OS HOMOSSEXUAIS telefonam sem avisar para as nossas casas. Não se deve entrar em pânico. Coloque um preservativo à volta do auscultador e seja breve.

Apesar dos riscos envolvidos os homossexuais insistem em mandar faxes para pessoas saudáveis. Como proceder?
Antes de mais NÃO LEIA A MENSAGEM, por muito interessante que possa parecer. Pode ser uma armadilha. Coloque 4 preservativos no polegar e indicador de cada mão e queime o fax imediatamente.

Boas razões para não usar preservativo

1. «Sei lá onde é que este preservativo andou!”»

2. «Porquê? Tens Sida?»

3. «Desculpa mas prefiro ir-te ao cu do que estar a usar isto.»

4. «O Papa não deixa».

5. «O meu pai também não».

6. «Vou dizer à tua mãe que andas com camisas-de-vénus na mala».

In K nº 14, Breve história nazi da Sida, Novembro 1991

Sábado, Outubro 25, 2003

FAMÍLIA-UTOPIA


Ilustração: José Fragateiro



Nos dias que correm, assiste-se a uma cada vez maior degradação do conceito de família e dos seus valores mais básicos. O texto que Miguel Esteves Cardoso escreve aqui, continua cada vez mais actual. Será este o modelo ideal de família?

“HÁ QUALQUER coisa de errado na família. A família não funciona. Sei que, como conservador, deveria defender a família. Mas não consigo. A família é indefensável. É um equívoco. É um efeito de economia. A família está a dar cabo das pessoas. E das famílias.

Porque é que as pessoas, só por serem consanguíneas umas das outras, hão-de viver juntas?

As crianças haviam de ser separadas dos pais desde a mais tenra idade. Os próprios pais haviam de ser separados um do outro desde a mínima ternura. Só assim é que o amor poderia crescer e a família continuar.

Há algo de promíscuo na maneira como as famílias vivem. As pessoas vivem umas em cima das outras. São obrigadas a ver o mesmo canal de televisão, a comer o mesmo arroz de polvo, a ouvir as mesmas discussões, a ver os mesmos roupões e até a cheirar o mesmo chulé dos mesmos chinelos anos 40 do avô.

É pouco saudável. Não admira que toda a gente queira bater a asa à primeira oportunidade. À ganância. Para cair noutro ninho, com outro marido e outros filhinhos, mas ainda pior. É por estas e por outras que as famílias se separam cada vez mais - porque não podem viver juntas.

Tenho para mim que o homem, como a mulher, não nasceu para viver em grupo. Uma casa de banho, por exemplo, jamais se deveria partilhar. Não dá jeito. É embaraçoso. Faz prisão de ventre. Defecar é um direito básico, a cujas sequelas atmosféricas ninguém deveria estar sujeito. Sobretudo em casas de banho interiores.

Se se quer conservar a família, é preciso mantê-Ia afastada. Mesmo contra a vontade. A separação cria saudade. A distância facilita o respeito. Marido e mulher deveriam ser obrigados a convidar-se diariamente para jantar. As refeições obrigatórias sabem sempre mal. O convívio forçado à mesa - "Passa a hortaliça, não tires macacos do nariz" - não é uma prova de amor, é um refeitório de penitenciários.

A partir dos 6 ou 7 anos, as crianças necessitam de uma casinha própria, onde o acesso de adultos esteja vedado, excepto em casos de incêndio, varíola, consumo comprovado de vodka, et caetera. Em suma, as crianças precisam de um apartamento separado, onde se possa escrever nas paredes, fazer barulho, torturar animais de estimação, disparar pressões de ar e tudo o mais. A família ideal é um complexo habitacional com, três chaves. Digamos um 2.º andar Esquerdo, Frente e Direito. No Esquerdo mora a Mãe. No Frente moram os filhos e a criada. No Direito mora o Pai. Para efeitos, de controlo, todos têm a chave uns dos outros, mas só para casos de emergência, porque são todos obrigados a tocar à campainha antes de entrar. Excepto, em casos urgentes de carência de carinho ("Ó Pai, está uma bruxa atrás das cortinas") ou de.ciúme ("Maria José, Maria José -com quem é que estás a falar?")

Cada apartamento pode ter, apenas uma assoalhada. Mais vale viver em três T1’s separados na Reboleira do que tudo a monte numa enorme casa de família no Estoril. As pessoas precisam de estar sozinhas, de curtirem e curarem as suas neuras na maior privacidade, de ouvir as músicas de que gostam sem chatear os outros, de se escaparem, de se fazerem caras e rogadas, de receber as pessoas de quem mais ninguém na família gosta.

Só separada é que a família pode sobreviver. Contígua mas não comunitária. Adjacente mas não a jazente. Se um casal for impelido, por razões habitacionais, a tocar à porta, a levar flores, a convidar para jantar, a fazer a corte para poderem dormir os dois juntos, o amor pode durar muitíssimo mais. Uma família que tenha três moradas é feliz. Pode escrever cartas, pode trocar postais.

O horror da família é a proximidade. É horrível quando os pais ouvem os filhos a fazer concursos de puns, quando os filhos ouvem os pais a gemer e o colchão a guinchar, os gritos de "Não! Não! Sim !" e depois o inevitável chapinhar do bidé. É indecente quando a mulher é obrigada a dormir ao lado de quem quis ainda há pouco esfaquear e que ainda por cima está a ressonar que nem um porco. Cada qual com a sua banda sonora - eis o lema familiar do futuro. O hino quotidiano das famílias portuguesas, que consiste na audição comunitária do barulho do autoclismo não é, nem nunca será, um cimento de solidariedade. Para uma família ser feliz, é necessário haver sedução. Os filhos têm de ser charmosos para encantar os pais, os pais têm de se esforçar para educarem convincentemente os filhos. E marido e mulher, caso queiram permanecer juntos, têm de passar a vida inteira a engatar-se. O mal da família é a facilidade. É pensar que aquele amor já é um assunto arrumado.


O segredo é conviver em vez de coabitar. A família feliz constitui-se por vizinhos apaixonados, por condóminos de sangue, por um poligrupo sentimental. As pessoas só estão juntas quando querem estar. Só partilham o que querem partilhar. Passam a vida a entreconvidar-se. Os pais aliciam o filho: "Ouve lá - se nós te comprarmos uma Harley Davidson, não queres vir até ao Jardim Zoológico connosco?" Os filhos dão a volta aos progenitores: "Ó Pai, o vídeo está avariado, conta-nos uma história." O marido alicia a mulher: "Vá lá, Maria José - fica comigo hoje à noite. Tenho caviar e champagne no frigorífico, comprei o compacto do primeiro LP dos Smiths e a empregada mudou hoje os lençóis... e juro que amanhã de manhã eu também me levanto cedo e vou contigo ao oftalmologista..."

Uma família que é obrigada a convencer-se, a seduzir-se, a respeitar-se mutuamente é uma família que pode durar para sempre. Família maçada acaba despedaçada. O mal da família é um problema de má-criação e de falta de respeito. Os familiares mostram-se incapazes de viver com civilidade, gritam, insultam-se, abusam do seu poder.

Se um miúdo, quando leva um estalo, puder fechar-se uma semana no seu apartamento a ouvir heavy metal a altos berros; se uma mulher, quando o marido a chatear, puder puxar da agenda de solteira e passar a resto do dia a fazer telefonemas a ex-namorados; se um marido, maltratado pela mulher, tiver uma sala onde possa receber os amigos, para jogar à lerpa, beber água-pé e visionar videocassetes da Cicciolina, o conflito desagudiza-se naturalmente.

É uma questão puramente arquitectónica. Mais tarde ou mais cedo, como é regra do amor, as saudades superam os ressentimentos e as campainhas recomeçam a tinir, e os "desculpa lá" recomeçam a ressoar. As pazes fazem-se de livre vontade. Os beijinhos dão-se de bom grado. A família reúne-se, no verdadeiro sentido da palavra. E reina a concórdia.

Na versão actual, exceptuando as famílias que vivem em grandes mansões com tantas alas e governantas que os membros só se vêem a hora de jantar, a família portuguesa é um convite à promiscuidade. Os pais reprimem os filhos, querem sempre ver o canal errado, insistem em comer carapaus grelhados, obcecam-se com a conta da luz, não adormecem até chegarem as crianças e por isso dormem pouco e por isso contraem doenças nervosas e por isso culpam os filhos. Os filhos, por sua vez, são indiferentes ao amor dos pais, ingratos, insolentes, intratáveis, gastadores inveterados e, ainda por cima, profundamente infelizes.

Nas situações mais extremas de proximidade familiar, ou seja nas barracas, os homens batem nas mulheres e acordam as crianças, os avós atam-se aos vãos das portas, os pais violam as filhas, os irmãos disparam caçadeiras contra os pais, os cunhados telefonam para O Crime. E tudo durante a novela, enquanto o cheiro dos rissóis se vai entranhando no terilene dos lençóis. A família é uma instituição demasiado preciosa para se deixar destruir pela coabitação obrigatória, pela prepotência paterna e pela falta quase absoluta de privacidade. O amor é demasiado raro e difícil para se estar a esbanjar na rotina quotidiana do concubinato. É preciso salvar a família da excessiva familiaridade. A familiaridade, dizem os ingleses, gera o desprezo. O desprezo é fatal. A ansiedade dos filhos por abandonar a tirania do lar paterno é tão grande que os atira para a miséria de constituir novas famílias em quase tudo semelhantes àquela que deixaram. É um círculo vicioso.

É um vício circular. Numa concepção anarco-conservadora, que visasse proteger a liberdade dos familiares com vista à perpetuação da família, a felicidade seria uma função simples de poder pagar três rendas de casa. Ou de transformar cada assoalhada num apartamento, ou de desdobrar cada T3 em 3 T1's cada um com a sua muralha; nem que fosse de contraplacado, cada um com a sua chave. Em última análise, quando não houvesse dinheiro para isso, seria preferível misturar famílias, trocando camas de casa para casa, de modo a separar os casais e os respectivos filhos, num regime de holiday home.

A família é uma instituição que corre perigo. Com razão. É uma instituição insuportável. É uma mini-Mafia, com abraços e facadas, lágrimas e jantaradas, com a desvantagem de ser não-lucrativa. É uma pandilha permanentemente com os azeites e os óleos de Fula. É um pandemónio fascistóide. É uma Cosa Nostra que preferíamos fosse Dotra pessoa qualquer.

É preciso avançar para a família do futuro: para as cooperativas sanguíneas, onde cada um tivesse o seu cantinho, onde as crianças se considerassem adultas aos 12 anos, os adultos recuperassem a irresponsabilidade da adolescência aos 35 anos e ninguém estivesse com ninguém sem que lhe apetecesse estar. É preciso reinventar a família como uma comunidade multi-etária de compinchas livres e respeitadores. De modo a mais ninguém poder sujeitar os parentes encarcerados à sua opinião sobre a recandidatura de Mário Soares, ou descascar uma só laranja em frente do televisor, ou despir uma só peúga que fosse, ou cortar as unhas dos pés na presença de menores, ou dar impunemente, em plena sala de estar, no seio da família, um único e preguiçoso pum. E, em vez de pedir desculpa, sorrir e pedir que alguém lhe passe a TV Guia.”

In K, nº 2, Arco da Velha:Uma família feliz, Miguel Esteves Cardoso, Novembro de 1990

Sexta-feira, Outubro 24, 2003

Delírios: Os melhores anos da nossa vida

O sonho realizado de qualquer homem seria:

. Louise Brooks, em 1920.
. Mae West, em 1931.
. Beatriz Costa, antes de fazer o Canção de Lisboa.
. Mata Hari, em 1914.
. Zita Seabra, em 1917.
. Frieda Kahlo, em 1937.
. Todos os modelos de Man Ray, em qualquer altura.
. Eva Braun, em 1943.
. Marlene Dietrich, até 1970.
. Veronica Lake, em 1947.
. Rita Hayworth, até conhecer Orson Welles.
. Ingrid Bergman, em 1951.
. Marilyn Monroe, em 1964.
. Debra Winger, até 2003.
. Michelle Pfeiffer, até 2010.
. Madre Teresa de Calcutá, em 1926.
. Margaret Thatcher, em 1926.
. Michelle Creton, em 1927.
. Grace Kelly, antes de ser nobre.
. Indira Ghandi, em Goa.
. Carolina do Mónaco, antes de ficar viúva.
. Teresa Patrício Gouveia, antes de ser secretária.
. Stéphanie, antes dos onze anos.
. Natália Correia, em 1953.
. A rainha má, antes de a Branca de Neve nascer.
. A Branca de Neve, antes de se meter com anões.
. A irmã Lúcia, quando Fátima era apenas um descampado.
. A mãe do nosso melhor amigo, em 1949.
. Catherine Deneuve, desde que nasceu.
. Jacqueline Kennedy em 21, 22, 23 de Novembro de 1963.
. Maria Madalena, a.C.
. Julia Roberts, já.

in K, nº 18, Delírios: Os melhores anos da nossa vida, Março de 1992

Actualização pela equipa redaccional do Blog K:

. Manuela Moura Guedes antes de cantar “Foram Cardos Foram Prosas”
. Elsa Raposo, no Sex Appeal
. Fernanda Serrano, antes de Pedro Miguel Ramos
. Bárbara Guimarães, depois de Pedro Miguel Ramos e antes de Carrilho
. Catarina Furtado, antes da Operação Triunfo
. Maria João, idem aspas

Quinta-feira, Outubro 23, 2003

Rua dos Cardais de Jesus


Pintura de Ilda David



ESTANDO nesta minha morada sazonal, num sábado lento, como são os da cidade, fui surpreendida pela harmónica do amola-tesouras e cujo emblema era um guarda-chuva desmantelado. Daí que o pusessem na lista dos maus presságios anunciador de borranca. E a verdade, é que ela chegava sempre. A nitidez com que soava a gaita de beiços era já prenúncio de ser coada pela humidade do ar. Lisboa é ainda um paraíso de usos e costumes. A par do grande mercado, abundante de queijos franceses e melões de Murcia, há ainda a venda miudinha de bairro que é tão central como o Patriarcado e aonde chegam de todos os clientes: meninos de escola que mascam pastilha elástica e velhas reformadas que discutem o drama dos Kurdos, entre um pacote de margarina e uma caixa de fósforo.

Lisboa tem tudo o que tinha há cem anos e algumas novidades de computador e electrodomésticos entre os quais reina o micro-ondas. O lixo é hoje mais sofisticado e não existe já o guarda-mor dos Lastros que proibia deitar imundícies no rio e entulhos fora do lugar próprio. Não cheira a lamas amontoadas na ribeira de Lisboa, mas as condições dela não é das melhores. Já não há cavalariças para limpar como no tempo do tirano Angias, sendo o Tejo o lava-pés da cidade e a praia de Remolares um escoadouro de bosta e palha traçada. Todavia havia espectáculos de que o lisboeta se aproveitava como de uma cartilha de maneiras. A chegada das noivas dos príncipes era um deles. Imitava-se o penteado de estrangeiras, como quando chegou Maria Pia e a sua cabeleira ruiva deslumbrou as mulheres. Ainda hoje se sente essa fina maneira de copiar o cone e os rapazinhos de dez anos são precavidos de réplicas e sentimentos áulicos. Isto faz de Lisboa um parador engastado no Tejo que parece ter inventado a cidade a partir da sua enseada.

Não sei se há lugar mais belo na face da Terra. Tem um ar descansado e um viver sem riscos que é civilidade sem compromissos. O que noutros lugares são vestígios de outras eras (como em Roma, aonde o monumento é uma forma de tratar a História por tu), aqui ninguém se humilha às suas riquezas. O valor das coisas está em elas serem estáveis e não surpreendentes. Diz-se mesmo que o Mago Ruffiamonte de que fala Hoffman, foi em Lisboa que se inspirou para produzir versos encantadores: «A cidade onde a livre fantasia se desprende como no pequeno mundo do teatro» e onde, como ele diz, «a humildade se transforma em nobreza». Bendito Hoffman, se alguma vez conheceste Lisboa, aí percebeste que aí existe um "EU" que faz nascer o seu duplo, e dividir o próprio coração mantendo, no entanto, a sua expansão própria.

Difícil é encontrar melhor acorde com o paraíso, onde todos os perfumes celestes seriam percebidos se não andasse no ar o cheiro dos escapes e do lixo que transborda dos baldes. Agora mesmo ouço um arrulhar de pombos, nascidos nas cornijas por Obra do Santo Espírito e que combinam com a distante música do amolador, que sobe a rua dos Cardais de Jesus.

Ah, esta linguagem, ó jovens dos quatro costados, é-nos dedicada. Duvidai da luz do Sol, e da luz das estrelas; podeis pensar se a verdade pode mentir. Mas não duvideis dos magos e do seu poder sobre a Tetra. Ou então, o cheiro que percebo daqui, das cozinhas da Misericórdia, é o do vosso coração temperado com pimenta negra, da que o diabo usa para lhe fazer brilhar os olhos. Parece-me a rua, onde soa a música do compõe - loiça - e - guarda-chuvas, uma rua onde apareciam fósseis do mar. Conchas e pedras onde ficou impresso o esqueleto de peixes pré-históricos. E um vento quente arrasta a capa do Marquês por cima dos telhados. Dizem que esteve aqui, na noite do terramoto. O Mago Ruffiamonte encontrou-o ao virar a esquina; e disse: «as cidades celestes conhecem-se porque têm amigos até no inferno».

in K, nº 10, Rua dos Cardais de Jesus, Agustina Bessa-Luís, Julho 1991

Quarta-feira, Outubro 22, 2003

Há gente para tudo: O Castigo


DIZ-SE que o castigo infligido às raparigas nasceu nos bordéis, consequência inevitável de um serviço não inteiramente satisfeito ou de algum capricho não realizado. Curiosamente, esta mesma versão responsabiliza não homens irascíveis mas as donas dos próprios bordéis. Uma delas até teve a ideia de fotografar o momento do castigo para mostrar aos seus clientes a disciplina que reinava na casa que dirigia. Teve o efeito inesperado de se converter em mais uma atracção. Outra versão sugere a origem de tão severa prática nos colégios internos de raparigas. Sendo tanto uma como outra explicações possíveis, e não contraditórias, as duas pecam por certo novecentismo excessivo.


Acredito que o castigo, como preliminar erótico, deve ter começado no momento em que uma mulher disse não, e se decidiu castigá-Ia não apenas com sofrimento, mas sobretudo com humilhação.

No limiar do sado-masoquismo, o castigo é prática erótica mais mística. A expiação antes de cometer o pecado assegura a inocência conservada. A licença que autoriza o deixar-se levar pelos caminhos do prazer.

Embora as formas de castigo possam ser tantas quanto a imaginação quiser criar, há uma parte do corpo da mulher que é a mais emblemática: as nádegas. De facto esta atractiva parte da anatomia feminina possui as condições perfeitas para que se exerça um castigo minimamente convincente com uma ausência quase total de consequências perigosas. Por razões óbvias e que por uma questão de bom-gosto não entrarei em pormenores, aquelas partes carnosas são as menos dignas de qualquer mamífero e não só.

O facto de que a essência do castigo não é a dor mas a humilhação, consagrou o traseiro como o sítio ideal. Seja com a mão, com pequenas e flexíveis varas, ou mesmo com um pingalim, só em casos de descontrolo absoluto esta prática pode provocar algum problema de saúde irreparável. Mesmo a posição de oferecer as bimbas já é em si mesma um símbolo de submissão muito mais forte do que o cristão dar a outra face ou o oriental baixar a cabeça.

Pode exercer-se o castigo com as bimbas cobertas ou não. Cada «disciplinador» tem o direito de escolher a forma com que as bimbas lhe são brindadas.

Claro está que há outros castigos que deixam as bimbas de fora. Nos colégios internos de raparigas, fazer a cruz com a língua no chão foi uma das mais populares até há muito pouco tempo. Aliás, esta prática, com alterações, foi adoptada nos bordéis com grande sucesso.

O castigo, além das virtudes acima referidas, contém um pormenor curioso: segundo as estatísticas, todas as raparigas que na sua adolescência foram castigadas com métodos similares aos aqui indicados, reconheceram ter sentido mais prazer do que dor. Na realidade, e como vimos a pregar desde o primeiro número, todas as práticas sensuais, desde que sejam feitas com cumplicidade, são exemplos maravilhosos da capacidade humana para chegar mais longe, mais rápido, mais alto.

in K, nº 20, Há gente para tudo – Hoje: O Castigo, A.J. Rafael, Maio de 1992

Terça-feira, Outubro 21, 2003

Fugir de Portugal - Parte 4 -A Coca


Fotografia: Pedro Cláudio



QUE IRONIA ESTA, que dentro da asfixia provocada por um país que consagra por indiferença, por ambição ou por ressentimento um sistema tecnocrático como o cavaquismo, a cocaína - a mais técnica de todas as drogas - possa ser uma maneira de escape.

Se se pudesse dar uma droga a cada cor política, a cocaína seria a droga do regime, como o charro é a dos desiludidos da esquerda, a heroína dos abstencionistas, a ecstasy dos CDU e liberais, etc. é evidente que a cocaína não é propriamente uma droga dos trabalhadores: pelo preço, à volta de doze contos a grama; pelo efeito - a coca é a droga da eficácia imediata, não da produção em série.

Cheira-se uma linha e tem-se a sensação de que se pode ser nomeado subsecretário de Estado sem necessidade de experiência alguma (pegue-se neste exemplo só como um exemplo, não como um boato). Ou que seremos irresistíveis em qualquer sítio e com qualquer pessoa, é um facto que devemos acreditar quase cegamente na experiência médica e nas autoridades sanitárias para nos podermos solidarizar com a perseguição implacável que se faz à venda legal deste produto.

O seu efeito energético parece tão perfeito que não se compreende onde está o mal. O certo é que a velha maneira de fugir enfrentando taurinamente as campinas encarnadas dos nossos desafios sem pensar duas vezes ainda funciona, e a coca está feita exactamente para isso.

O seu efeito é descritível. Ao cheirá-Ia, quando é mesmo boa, sentimos primeiro um frio anestésico nas narinas. Logo a seguir uma sensação speedygonzaliana tipo de gritar andale, andale. E pronto, estamos preparados, com coragem e decisão, para enfrentar as vicissitudes que a vida nos coloca.

Em termos estritamente económicos, feitas as contas, não é tão caro como tudo isso. Uma garrafa de whisky novo numa discoteca custa cerca de quinze contos.
O que dá, pouco mais ou menos, um conto por copo. Uma grama pode dar, dependendo da sua pureza, mais de doze linhas, o que a equipara ao preço do whisky - menos a ressaca, claro. A coca, quando não misturada, não dá ressaca.

O efeito gingão e grosseiro que o álcool provoca não se sente com a cocaína. Contudo, têm em comum uma verdadeira vocação social. A conversa fácil e uma certa diminuição da timidez são notáveis. A sensação da omnipotência dura pouco, e a repetição da dose é necessária. Com 1/3 de grama um cidadão bem nascido faz uma noite, o que dá quatro ou cinco contos. Estas previsões variam de acordo com a utilidade que se queira dar a este produto.

Se se trata de terminar um trabalho, a maior ou menor disposição para o dito pode sugerir uma necessidade também maior ou menor da quantidade a consumir.

Como todas as coisas, a assiduidade de consumo influencia também as quantidades necessárias. Claro que se pode falar de coca como a droga abrangente por excelência. Não nos desvia dos nossos objectivos nem distorce a realidade. Só as nossas potencialidades são artificialmente exageradas. Em qualquer situação em que nos encontremos parece que funciona em cheio. O incrível é que é verdade.

Não vamos falar aqui se com o tempo faz mal ou não, mas certamente aquele efeito eufórico faz muito bem. Não nos enganemos. O êxito da droga reside no seu efeito imediato. A longo prazo, tomado abusivamente ou sem períodos de recuperação, deve, provavelmente, fazer mal. Aliás, tudo faz mal nessas condições. Até a aspirina ou o camembert. Mas esse é outro problema.

COISAS QUE ESCAPAM

O Alentejo
A Obesidade
As Paciências
Chernobyl
O Passado
Os Naufrágios
O Terrorismo
Os Sonhos
A EN 1
Os Iates
As Pousadas
As Gripes
«A Bola»
O Mónaco
O Estrangeiro
A Arte em Geral
A Filosofia
A Prisão
As Motas
A Publicidade
A Sida
Alguns Portugueses
A punheta
Sintra
As Anedotas
A Idade
O fogo posto
Os pais
O PSR
O Saudosismo
O Benfica
As Directas
Os Correios
As Indirectas
A Sabedoria
As Brasileiras
O Edredon
A Puberdade
O Vinho
O Snooker
Bater com a porta
A Leitura
Os Palavrões
As Ordens Religiosas
Os Percebes
A Pornografia
Os Nossos amigos

in K, nº 15, Portugal como dar o salto: Cocaína / Coisas, Alberto Castro Nunes et alii, Dezembro 1991

Domingo, Outubro 19, 2003

Fugir de Portugal - Parte 3 - O Haxe


Fotografia: Pedro Cláudio



AS DROGAS NATURAIS estão a fazer um repentino comeback depois do último Verão, com o reflorescer de milhares de novas plantações domésticas em marquises disseminadas pelo País Real, em vasos de terraços e nos próprios canteiros da GNR de Vila Nova da Zambujeira. Não se trata de um renascimento neo-hippie, à semelhança do que se pode observar em Londres e noutras capitais europeias. Longe de qualquer onda saudosista, o renascer do consumo do haxe e da erva é apenas o grito de revolta dos mais desfavorecidos perante o insuportável tédio que impregna a vida quotidiana dos portugueses. É que nem todos podem esportular as maquias exigidas pelos produtores das pastilhinhas coloridas que se tornaram moda nos últimos tempos entre os escapistas ricos deste nosso País Real. Como alternativa às multinacionais do crack e da ecstasy, ao luxo da coca e do cavalo, resta-nos o retorno aos bons velhos produtos naturais, que entorpecem sem causar dano, que entontecem sem fazer cair, que adormecem sem fazer sono. Que dão muito pouca ou nenhuma ressaca.

Fumar uma passinha é um hábito inofensivo enraizado em muitos milhares de portugueses e que a negrura dos tempos que se avizinham irá provavelmente expandir a muitos outros, que não encontram melhor alternativa ao tédio quotidiano. Um charro começa por bater com uma tontura suave, depois uma sensação de «altura» e euforia controlada. Se o produto for de qualidade, pode passar a uma fase em que se perde a noção do tempo, a ponto de em dado momento e em relação a dado acontecimento não se saber se passou um minuto ou meia hora. Existem relatos de ocorrência de alucinações, mas atenção, que na maioria dos casos o abuso conduz ao enjoo e vómito subsequente. Com cuidado e moderação, um bom escapista pode atingir um estado de indiferença controlada em relação ao quotidiano, com o único senão de uma leve ressaca no dia seguinte.

Para os que já esqueceram, ou ainda não experimentaram, lembramos que a Cannabis Sativa se dá esplendidamente no nosso clima temperado. Embora os manuais rezem que as sementes degeneram ao fim de duas ou três gerações de cultivo fora dos trópicos, tal não se verifica se forem seguidas precauções mínimas, e de um modo geral, a produção doméstica e urbana portuguesa, cultivada em marquises soalheiras, é comparável, ao que de melhor se consegue em zonas tropicais.

Convém dispor as sementes em terra arejada, no princípio da Primavera, e fazer o transplante quando os rebentos atingirem 2 a 2,5 cm, para vasos de bom porte e terra barrenta, rica em argilas sílico aluminosas, onde as plantas jovens possam crescer sem entraves físicos, buscando a Iuz do sol, na vertical até ao terceiro mês. Quando, depois da inflorescência, a altura atingir os 2 a 3 metros, cortam-se e secam-se os pés com as cabeças para baixo, tendo o cuidado de aparar a seiva que eventualmente exsude das extremidades da planta, que produzirá um haxe de primeira qualidade. As flores e folhas secas serão trituradas e fumadas tal qual, em mortalhas de papel de arroz, sendo proverbiais os efeitos hilariantes da generalidade das ervas de fabrico nacional.

O haxe pode ser fumado em tabaco, em cachimbos, ou até ingerido em bolos. O que interessa é que esta droga é inofensiva, não vicia e já pouco interessa à Polícia.

Para os que não disponham de espaço para cultivo, lembramos que pode ser adquirida com facilidade nalguns dealers mais idosos da generalidade das Capitais de Distrito do Continente e Ilhas Adjacentes.

A cannabis e os seus derivados são de longe as melhores alternativas ao País Real que um português de posses limitadas pode encontrar. Sejam de produção própria ou de importação, estas drogas naturais estão em vias de reencontrar o lugar que lhes cabe no coração dos escapistas nacionais. Sobretudo entre os que rejeitam a produção intoxicante das drogas químicas produzidas pelas autênticas multinacionais, que hoje em dia inundam o mercado de alucinogéneos, entorpecentes ou euforizantes químicos de consequências sempre nefastas para a saúde dos consumidores. E se marimbam para o ultrapassado snobismo yuppie dos que se riem dos charros, só para snifarem drogas caríssimas e aldrabadas, que na maior parte das vezes só servem para anestesiar as gengivas do maxilar superior.

In K, nº15, Portugal: Como dar o salto – Haxe, Alberto Castro Nunes et alii, Dezembro de 1991

Sábado, Outubro 18, 2003

Faire-plaie



in K, nº20, Faire-plaie, Produções Jesus, Maio de 1992

Sexta-feira, Outubro 17, 2003

Fugir de Portugal - Parte 2 - O Ecstasy


Fotografia: Pedro Cláudio



MINUTO ZERO

É UM COMPRIMIDO cor-de-rosa, sabe a aspirina e deve engolir-se com água. Custa entre 5 e 10 contos, ninguém sabe onde se vende nem quem vende - mas que ele existe em Portugal, existe. Não nos perguntem mais nada.
Esta revista mostra mas não tem de ensinar.

MINUTO DEZ

NÃO SE PASSA NADA e achamos que fomos enganados. O mundo continua real e continua realmente triste. Os chatos insistem em aproximarem-se à velocidade da luz. Os bares já não dependem da música, nem das mulheres, nem do ambiente: dependem apenas do número de chatos por metro quadrado e das possibilidades práticas de podermos fugir a sete pés. Ao décimo minuto temos a sensação de que nada, realmente nada, nos pode fazer afastar da terra.

Começamos lentamente a pensar no momento em que, regressados a casa, teremos algum prazer em rasgar todas as revistas que descreveram, com rigor científico e em monumental delírio, os efeitos do comprimido que os holandeses decidiram criar para a nossa felicidade.

MINUTO VINTE

PRIMEIRO é uma estúpida tontura que nos obriga a parar, que nos faz pensar se não nos enganámos no comprimido, e qual é o caminho mais próximo entre o lugar onde estamos e o serviço de desintoxicação de um hospital qualquer. Essa tontura, parecida com o momento em que nos deitamos depois de um realíssimo abuso de álcool, dura exactamente dois minutos. E passa.

MINUTO 30

QUANDO a tontura desaparece, morre com ela o país real, os chatos, as distâncias, os medos, os desgostos. Morre tudo. Nasce por sua vez uma sensação de felicidade e bem-estar totais. O ar fica doce, a respiração é sempre funda e agradável, o mundo fica estúpido, como acontece com o álcool. Criam-se no nosso horizonte dois planos: num primeiro plano, existe a consciência do que fazemos, o lugar onde estamos, as pessoas com quem falamos e o que dizemos; num segundo plano, sobreposto e complementar, nasce uma estranha e oportuna capacidade de compreensão do outro, uma noção real de efemeridade da vida, e uma dose de sincera alegria. A palavra mais próxima deste efeito é mesmo essa: alegria.

Como nas canções das seitas religiosas, acreditamos nos outros homens, no amor, na capacidade de amar: temos vontade de ajudar, de falar sem medos nem remorsos nem vaidades. Dizemos tudo sem enrolar a língua - não andamos aos tombos nem ganhamos aquela estupidez própria do tradicional «charro». Pelo contrário, a lucidez é total, a paisagem ganha apenas brilho - e jamais contornos enevoados - e até Cavaco Silva, repentinamente, nos parece um homem bondoso e honesto. Acreditamos em tudo sem perder a noção de que tudo à nossa frente é mentira.

UMA HORA

APETECE dançar mais tempo do que podemos, e dançamos. A boca seca mais rapidamente do que é costume - porque falamos mais do que é costume. Aliás, tudo é geometricamente ampliado à nossa frente: os lugares crescem e a discoteca parece-nos absolutamente respirável. As pessoas ganham a importância que nunca tiveram e os problemas transformam-se em simpáticos exercícios mentais sobre «como convencer o parceiro de que este problema não existe?». O pior é que o parceiro acredita em nós.

DUAS HORAS

PARA NÓS, toda a gente à nossa volta está sob o mesmo efeito, todos tomaram aquele comprimido cor-de-rosa. Continuamos a respirar fundo, suamos mais do que é normal. Mas não interessa nada.

TRÊS HORAS

CONHECEMOS pelo menos uma pessoa por cada quarto de hora que passa. A consciência nunca se perde, o que permite conversar com os desconhecidos «certos» e perceber logo com quem não se deve falar - e descobrir que, afinal, as pessoas do Algueirão não são tão desinteressantes quanto julgávamos. O efeito do Ecstasy não abranda com o passar das horas, parece que se alimenta de si próprio.

QUATRO HORAS

NÃO INTERESSA para onde se vai, nem com quem se vai, nem o que se vai fazer. O efeito é o de uma festa de aniversário aos 12 anos: o momento é único e deve ser marcado pela liberdade total.

Desaparecem compromissos para o dia seguinte - achamos sempre que cumprimos tudo porque compreendemos tudo e todos nos compreendem - e o único compromisso que resta é com o bem-estar. Alinhamos na festa sabendo que este dia é uma excepção, sempre uma excepção, e não se vai repetir.

CINCO HORAS

LENTAMENTE, voltamos à terra. Não sobram dores de cabeça nem más disposições, apenas a vaga sensação de que a festa chegou ao fim e talvez tenha chegado a hora de dormir. Sabemos que devemos dormir profundamente, pelo menos oito horas, sob pena de acordarmos com uma ressaca que nos acompanhará durante 12 horas. Ao contrário do que escreveu o especialista do jornal Público, inspirado nos freaks da revista francesa Actuel, o comprimido não oferece orgasmos em pó nem constitui um afrodisíaco em potência: é apenas «3,4 metilenedioximetanfetamina». O que pode significar que a simpatia que repentinamente se ganha pelo mundo resulta, se for caso disso, numa madrugada melhor acompanhada. Mas essa é a parte menos interessante da história.

DIA SEGUINTE

ACORDA-SE e nada do que aconteceu na noite anterior é claro e transparente. Falta sempre um dado qualquer - e o dado que falta é justamente o da diferença entre o plano da realidade e o plano complementar do efeito do comprimido.

Resta uma dor de cabeça muito fininha e profunda, a noção de que Ecstasy não é uma droga repetitiva, pelo facto de constituir uma festa e, como todas as festas, não apetecer todos os dias. Não apetece fazer anos a toda a hora, não apetece fazer uma despedida de solteiros todas as noites, não apetece viajar eternamente.

O que sobra, no dia seguinte, é essa sensação adolescente de «ontem foi do caraças», sem nunca se perceber muito bem até onde fomos com o «caraças», nem que «caraças» se passou. Eficaz, a droga apaga-se sem deixar rasto. Como compete a uma droga que se preze.

in K, nº 15, Portugal: Como dar o salto; Ecstasy, Alberto Castro Nunes et alii, Dezembro de 1991

Quinta-feira, Outubro 16, 2003

Fugir de Portugal - Parte 1 - O Mezcal


Um interessante artigo sobre como "fugir" de Portugal, escrito por Alberto Castro Nunes, Carlos Quevedo, Nuno Miguel Guedes, Miguel Esteves Cardoso e Pedro Rolo Duarte. Imaginamos perfeitamente o gozo que deve ter dado escrevê-lo. O artigo vai ser dividido em quatro partes, sendo esta a primeira, e será publicado na sua totalidade ao longo desta semana.



"Felizmente o País Real não exige a comparência de todos os portugueses. Podemos não comparecer. Não ligar. Fugir: Não querer saber. Podemos emigrar. Podemos dedicar-nos ao trabalho. Podemos tentar a droga. Podemos enriquecer. Podemos pensar, mesmo erradamente, que a política não é muito importante. Podemos dedicar-nos à família, ao álcool, à vela. Com dinheiro e boa vontade, não é difícil fingir que Portugal é independente do PSD.

Nos países mais civilizados, as pessoas mais civilizadas conseguem comportar-se e divertir-se como se outras não existissem. A melhor fuga de todas é aquela que nem sequer admite que anda a fugir. Os mundos herméticos vão voltar. Vêm aí os casulos novos e novas borboletas. É no país real que as pessoas se lembram de criar as maiores irrealidades.

O MEZCAL

O MAIOR PROBLEMA é quando surgem as questões verdadeiramente importantes, os problemas que não têm (nem devem ter) solução. Qualquer português minimamente decente já se deve ter confrontado com as quatro perguntas irresolúveis, a saber:

1. Quem somos?

2. Para onde vamos?

3. Deus existe?

4. Em caso afirmativo, expliquem-nos Leiria.

Não é fácil, nem é possível. Sobretudo, a resposta à última. Tudo se complica, porque nos vem à memória o nosso primeiro-ministro, os cinquenta e tal por cento que nele votaram, o Dias loureiro, o dinheiro recente e a revista Sábado. Em resumo, Portugal. Por isso, fugir para outro país faz bem. E a melhor maneira de poder fugir sem mudar de sítio é beber álcool mexicano, talvez o melhor do mundo e sem dúvida o mais forte.

Não se trata de vício, mas de bom gosto. Não há nada no mundo que se compare a um bom mezcal anêjo (ou envelhecido). Natal é quando um homem quiser, e com três ou quatro tequilas blancas é todos os dias. E com o festivo levantamuertos - versão masculina (discutivelmente a bebida mais perfeita da galáxia), Cavaco Silva nunca existiu.

Que se lixem os Fernandos Páduas, desta vida, porque houve quem falasse mais e melhor. Sobre o mezcal, diziam os médicos espanhóis do século passado: «abre o apetite, favorece a digestão, acelera a cicatrização das feridas, acalma a dor, revigoriza, acalma a sede provocada pelas insolações, provoca alucinações agradáveis, faz desaparecer a fadiga, estimula a aviva a inteligência». Não é uma opinião embriagada, é uma certeza provocada por alguns séculos de ocupação.

Quem não acredite que consulte os canhanhos ou, melhor ainda, que experimente.
Um bocadinho de história mezcaliana, só para impressionar e convencer: tudo começou na era pré-colombista (bocejo). Os índios descobriram que pela fermentação da seiva do fruto de uma planta (ressonar) - o maguey, espécie de agave, seja lá isso o que for - podiam ter o paraíso num instantinho (pausa para digerir a metáfora). Chamaram-lhe metl ixcalli (maguey cozido, mais- ou menos).

No século XVII, os Espanhóis, entre uma chacina e um massacre, acharam por bem exportar a aguardente que se fabricava nas colónias, e começaram a destilá-la por alambique. Em 1785 a corte castelhana resolveu proibir a fabricação, para evitar que a bebida concorresse com os álcoois europeus. Foi tarde: toda a gente já se embebedava alegremente com o mezcal, como passou a ser conhecido.

O mezcal é uma bebida culta e de culto. É célebre a preferência de Malcolm Lowry por este LSD dos pobres. Tanto que muita coisa escreveu em solene homenagem. Por exemplo, e a propósito, o cônsul de «Debaixo do Vulcão» diz assim: «é a bebida que, mesmo quando a levo aos lábios, não consigo acreditar que seja real». Cavaco, quem és tu?

A fuga oferecida pelo mezcal é das mais saudáveis. Não dá ressaca; não dá remorsos; não dá hipóteses. Deverá ser servida em copo estreito e curto, acompanhado de pimenta e sal. Deverá ser bebido - como a tequila - de um só trago. A primeira sensação é de ausência qualquer, geralmente compensada por uma segunda dose. A segunda sensação é de uma presença qualquer, e nessa altura já deixámos Portugal.

Existem dois tipos de mezcal, o anêjo, envelhecido e sofisticado, e o jovén, novo e aventureiro, todos produzidos em Oaxaca, capital do estado onde nasceu Benito ]uarez, libertador do México. Recomenda-se o primeiro, pelo sabor e pelos efeitos.
Os Portugueses, entretanto, já não se podem queixar: as importações estão a caminho e nos círculos esclarecidos já se comparam as virtudes de um Montc Alban com as de um Ultramarinc (nome retirado de um livro de I.owry). Em Lisboa, os bares mexicanos estão a proliferar, mas consulte um especialista antes de cometer uma loucura: é que não há nada pior do que um mezcal adulterado.

Depois há a tequila, nome de bebida e cidade e nascida para o mundo por volta de 1920 no estado Jalisco. É uma parente pobre do mezcal - também é feita a partir do maguey, mas é fermentada por vaporização - mas o efeito base aproxima-se muito do familiar rico. A variedade blanca é a mais popular e, quando bebida pura, deverá ser convenientemente escoltada por sal e limão. A «tecas» - como é conhecida pelos iniciados - é mais lenta a actuar, mas não é menos infalível. O resultado será tanto melhor quanto maior o calor sentido no local onde é bebida. A ideia é viajar até Sierra Madre em 1940, com suor e barba por fazer. Deverá ser consumida exclusivamente entre homens, para se poder discutir o passado amoroso sem grandes inibições e chamar as coisas pelos nomes próprios. Um conselho: os adolescentes devem-se abster.

Outra grande vantagem é que permite apagar do estômago qualquer vestígio de uma refeição leve como o cozido à portuguesa ou arroz de cabidela. A «tecas» é a pastilha Rennie dos iluminados.

E agora, o levantamuertos. É uma bebida típica do Dia dos Mortos mexicano, que coincide mais ou menos com o nosso Dia de Finados. Segundo a tradição, é bebida em pleno cemitério, como celebração das almas que se passaram para o outro mundo e que um dia ressuscitarão. Tem uma versão masculina - amarelada e suave - e outra feminina - transparente e excessivamente doce.

A versão masculina é a melhor, tanto para rapazes como para raparigas. A composição permanece um mistério, mas sabe-se que uma gema de ovo é fundamental para um bom levantamuertos. É talvez a melhor e mais perigosa bebida à face da Terra, porque é fortíssima e tem um sabor divino. Aliás, os mais puritanos pediram já a sua classificação como «arma branca». O nome diz tudo. O efeito do levantamuertos é conhecido nos meios científicos como «efeito Yiihaa!», que se traduz basicamente por um trago e depois Yiihaa! (do mexicano «seja o que Deus quiser»). Tudo pode acontecer depois de alguns levantamuertos: insultos à paternidade dos melhores amigos, uma estadia nas Taipas, filhos, confissões de homossexualidade, condução de veículos tipo Poço da Morte ou pura e simplesmente uma alegria que dura semanas. É a fuga ideal da realidade Silva que temos que aturar todos os dias e recomenda-se a quem ainda não tenha ido (nem queira ir) ao «Preço Certo». E não há ressaca.

Que mais se pode pedir quando se quer escapar do Colditz - Cavaco, do sorriso do Joaquim Letria, da democracia de sucesso, da CEE, da Europália, do Henrique Diz, da estabilidade, das vivendas à beira da estrada, dos hipermercados Recheio, dos fatos de treino ao domingo, do recolher obrigatório das 4 da manhã, do totoloto na repartição, de Portugal? Viva Zapata!"

in K, nº 15, Portugal: Como dar o Salto, Alberto Castro Nunes et alii, Dezembro de 1991

Quarta-feira, Outubro 15, 2003

As Culturistas


HÁ UM GINÁSIO encantador na Praça das Amoreiras, o Ginásio Jardim, de ambiente familiar e soalhos luzidios. É lá que se juntam todos os dias alguns rapazes e uma mão-cheia de senhoras casadas com aquele ar eterno de quinze anos. O ginásio é um oásis de saúde, com a luz entrando a rodos e janelas abeirando-se das copas das árvores. Apesar de ser um local onde as pessoas devem exercitar os músculos e soar as estopinhas, o Ginásio Jardim é um repouso. A rotina de quem o frequenta inclui movimentos de aquecimento e, se houver energia, passagem pela sala das máquinas. A sala das máquinas é uma coisa intimidante, com pesos, bicicletas que não vão a lado nenhum e espaldares encostados às paredes. Há lá tudo para tornar as praticantes naqueles seres duros e musculados com braços do tamanho de pernas e pernas do tamanho de torsos. Mas o mais interessante é que nenhuma das senhoras pretende chegar a esse estado, porque, dizem, os músculos são pouco femininos.

Acrescentam que não é só a estética que não as atrai, é a forma musculada que as desencoraja, não se sentiriam bem dentro do seu próprio corpo. Pergunto-lhes que acham das mulheres culturistas e do sucesso que têm em certos círculos masculinos. Demitem a minha pergunta com um simples e sorridente «mulheres cheias de músculos são horríveis, não compreendo que possam ser atraentes». Quanto à atracção que por elas têm certos homens, dizem que o melhor é perguntar-lhes a eles. Mas há quem arrisque adiantar a seguinte ideia: os homens que gostam de mulheres culturistas devem ter tendências homossexuais. Deixei-as ocupadas no controlo da anca e do abdómen, no fortalecimento do corpo e firmeza da carne.

Mas se é verdade que a sabedoria comum exige da mulher mais curvas do que rectas enrijecidas., mais ombros amaciados do que coxas de ciclista, também é verdade que nem toda a gente pensa e age da mesma maneira. Há por esse mundo fora quem tenha opinião oposta, e actue em conformidade com ela. De facto, cada vez mais os ginásios estão a ser invadidos por uma horda de mulheres que não querem ter pezinhos de Ava Gardner, mas sim uma grande peitaça copiada do Schwarzenegger. Ou seja, não se conformam com as regras clássicas, segundo as quais a mulher terá obrigatoriamente de ser bem torneada se quiser atrair o homem dos seus desejos. O body-building feminino é um misto de vários contorcionismos psicológicos: narcisismo extremo, vontade de obter reconhecimento social, superação de fraquezas interiores pela exacerbação visual da superfície pessoal, recusa do comum e do mundo normal, busca da sensualidade feita de suor e castigo, obtenção do prazer através do cansaço repetido, um pouco como nas práticas sexuais sadomasoquistas, diga-se. Os detractores mais agressivos desta filosofia avançam mesmo com a ideia segundo a qual os culturistas dão corpo, através do exagero nos tendões, às suas motivações obscenas ligadas a frustrações mais profundas, que têm a ver com um gosto recalcado pela violência. Ou, como dizia Lisa Lyon, a primeira e mais importante mulher culturista da era moderna, o que se procura é a obtenção de um corpo «nem masculino, nem feminino, mas sim felino».

Para quem não está habituado à ideia de as ver todos os dias, sentadas na cadeira do cabeleireiro ou calcorreando os empedrados da baixa, a visão pode ser chocante: em vez de dedos há garras, no lugar dos pulsos há armadilhas, os braços são guindastes, o pescoço erguendo-se no meio dos ombros assemelha-se a uma versão ambulante da ponte sobre o Tejo, o peito é uma estante, o estômago um campo de minas e por aí abaixo passando pelos tornozelos, verdadeiras fundações de aço e betão enfiadas nuns sapatitos de salto alto. Ainda está para se saber o que pode ver de desejável numa senhora de pernil maciço e pescoço taurino. Para quem as namora e as massaja no calor dos lençóis, a resposta é bastante simples. A culturista encarna o que de mais desejável existe no universo selvagem das nossas fantasias: uma feminidade compacta e férrea que se recusa a ser dominada, um corpo elástico e animal que abraça sem piedade, uma capacidade de comando que obriga o companheiro a dirigir-se inexoravelmente para a zona labial inferior, essa sim, que nenhum exercício poderá jamais modificar.

As cavalgadas nocturnas passam então a ser mais intensas, porque em vez de um pólo energético sobrepondo-se a um outro passivo, há a explosão de uma anatomia original e andrógena, permanentemente dominadora, à maneira das antigas gladiadoras espartanas que semeavam temor e indizível desejo à sua passagem.

Talvez, quem sabe, acordando um dia cansados e doridos mas satisfeitos, esticaremos o braço para dar um mimo. Pensando ser a coxa, estaremos a acariciar o braço. Ela, para agradecer a festinha, pegar-nos-á na mão. Os nossos ossos estalarão, mas não faz mal. Como é bom sentirmo-nos amados.

in K, n.º 19, Há gente para tudo, Hoje: As culturistas, A. J. Rafael, Abril de 1992

Kane Pela Graça de Kane


SAIA um Kane à pressão para a mesa do kanto, pediu a Kapa pelo telefone. Alegadamente, a voz off era do Direktor. Não exagero ao pensar que milhares de direktores devem ter feito pedido semelhante a milhares de kriaturas como eu neste mês de Maio de 1991. Komemorar o 500 aniversário da estreia de Kane é koisa que não vai eskapar a muitos. Só mesmo, talvez, em 28 de Dezembro de 1995 - quando se comemorar o centenário das sessões dos Lumiere - tantos se vão lembrar ao mesmo tempo do mesmo. É justo? Godard rebola-se no túmulo e do fundo dele - há vinte e sete anos e pikos - responde ke sim: "Malditos sejamos todos se esquecermos, nem que seja por um segundo, que, além de Griffith, Welles foi o único - um para o mudo, outro para o sonoro - que fez avançar este maravilhoso comboiozinho eléctrico em que Lumiére não acreditava. Todos, sempre, lhe deveremos tudo."


Por uma vez não era polémiko nem excêntrico. O ke ele disse nos anos 60, mais palavra menos palavra, foi o ke toda a gente disse neste meio sékulo. Para ká dos anos 60 é a monotonia. Não há inkérito que se faça, neste ocidental hemisfério amerikano, em que Citizen Kane não apareça, invariavelmente, à kabeça da lista dos melhores filmes de todos os tempos. Antes deles, se não foi o primeiro, foi sempre dos primeiros. E Pauline Kael demonstrou, com argumentos dificilmente kontestáveis, que não passava de lenda a ideia feita de ke o filme fora maldito à sua époka. Não teve o best da Akademia? Não teve, é certo (foi, nesse ano, para How Green Was My Valley, de John Ford, de que ninguém se vai lembrar em 18 de Dezembro, quando fizer, ele também, 50 anos). Mas teve cinko nomeações e ganhou o oskar do melhor argumento (adaptação original) partilhado por Welles e por Herman J. Mankiewicz. E ganhou o New York Film Kritik's Award que nesses anos bem pensantes dava outro chik.

Se se pensar que quatro meses antes da estreia Nicholas Schenck, em nome de Louis B. Mayer e provavelmente de toda a indústria amerikana, prometera a George J. Schaefer, o patrão da RKO, uma oferta Kash de 842.000 dólares (686.033 tinha kustado o filme) em troka da destruição do negativo e de todas as kópias de Kane, essas nomeações e prémios ainda mais insólitos parecem. Foram um desafio inédito - sem antecedentes nem konsekuentes - às forças que estavam por trás de tal oferta, no fundo às forças que moviam Hollywood. Vencê-las e chegar às salas já era de si prodígio que no mesmo ano e no mês de Maio a propósito de outro Kasus belle, eventualmente menos agressivo (The Outlaw, com Jane Russel), nem todo o arkidinheiro do arkimilionário Howard Hughes conseguiu. Chegar às salas, rekuperar o dinheiro investido e andar ainda nos tops das listas dos krlticos e dos akadémicos é de estarrecer. Kuando Schaefer depôs armas - o que akonteceu em 1942 e levou o filme a desaparecer da cirkulação até ao fim dos anos 50 - já a vitória dele e de Kane eram tamanhas para ke a insistência fosse mais do ke insolência. Tinha-se provado que se podia bater o adversário aos pontos. Tentar o K.O. só por estupidez ou amadorismo. E ninguém andava ali - nem anda - para se divertir. Ou talvez Welles andasse. Mas se andava (não é tão certo komo isso) foi por isso mesmo ke foi só ele a pagar as favas. O wonder boy de 25 anos nunca mais fez um filme em paz. 45 anos expiaram o pekado de Kane, "o melhor filme de todos os tempos".

Mesmo nos anos 70, Spielberg ou Kopolla, podres de rikos e abajulá-Io sem cessar, eskeceram-se oportunamente de lhe dar 1% dos lukros do Padrinho ou do Tubarão para o ajudarem a voltar a filmar o ke keria e como keria. Para a remota hipótese de kem me lê ignorar a ke inimigos me refiro, rekordo ke Citizen Kane - ke komeçou por ter o título de rodagem de Amerikan, simplesmente Amerikan era o mal disfarçado retrato do Citizen Hearst, William Randolph Hearst de seu nome kompleto (1863-1951). Hearst, dono e senhor de 28 grandes jornais e 18 revistas (além das maiores emissoras de rádio) era o mais poderoso jornalista e editor do mundo. Ataká-Io era atakar the power of lhe press. A vitória de Kane independentemente de tudo o resto - foi a vitória de um filme sobre esse poder. Ou, para ser mais exacto e mais modesto, a vitória dos media não afectos a Hearst e contra Hearst. Porque Kane - e essa foi a aposta da RKO - nunka teria visto a luz do dia - e muito menos teria tido o sucesso ke teve - se todos os rivais de Hearst não tivessem percebido a machadada ke lhe podiam dar kom o filme do puto de 25 anos. Machadada ke vinha na altura certa.

A partir de 1937, havia infalíveis sinais de deklínio no império Hearst (nesse mesmo ano, teve ele de vender parte da sua fabulosa kolecção de arte). Em 1940, perdera o kontrolo do seu reino. Aos 77 anos, ke então contava, Hearst devia ser muito parecido com Charles Foster Kane no fim da sua vida. E talvez vagueasse por Sam Simeon, - o feudo de 97 mil hectares que komprara na Kalifórnia, mais o louco kastelo de 110 divisões e 55 kasas de banho - como Welles-Kane vagueia por Xanadu, no final do filme que estamos a komemorar.

Mas uma koisa pelo menos não se passou komo no filme. Ao lado de Hearst esteve até ao fim Marion Davies (1897-1961), que desde 1918 - tinha ela 20 anos, tinha Hearst 50 - viveu de kasa e pukarinho kom o magnate a kem a mulher nunka concedeu o divórcio. Durante 32 anos - de 1918 a 1951 - todos os dias todos os jornais da kadeia Hearst tiveram de falar de Marion Davies e durante 18 anos - de 1919 a 1937 - tiveram de proklamar ke Marion Never Looked Lovelier ou ke Marion Davies Soares to New Heights, enkuanto duraram os anos em ke Hearst tudo fez para transformar a konkista na maior de todas as stars de Hollywood. Como Kane Hearst kom Susan Alexander, a Kantora, nunka conseguiu com Marion Davies embora kuase toda a gente diga hoje ke ela estava longe de ser tão péssima kuanto a pintaram, o ke aliás se komprova revendo os filmes ke fez com King Vidor, Raoul Walsh ou Frank Borzage. Mas Hearst também arriscou menos kom ela do ke Kane kom Susan. Nunka admitiu publikamente a relação e guardou sempre as aparências kom Mrs. Hearst. Marion Davies teve mesmo de suportar uma humilhação póstuma. Kuatro meses depois da morte de Hearst - kuatro meses em que os jornais dakele nunca lhe eskreveram o nome - voltou às primeiras páginas kuando kasou com o industrial Horace G. Brown. Miss Davies First Wedding foi o titulo comum. As vinganças servem-se frias.

Tenho andado às voltas? Não tanto komo parece. Arkimito, Kane é também por isto tudo, ou seja porke rekapitula um imaginário e uma mitologia amerikana, úniko pano de fundo concebível para a emergência de um personagem como Kane e para ke este possa ser - komo é - o ekivalente rectórico e poétiko dos personagens shakespearianos, porventura, mesmo, o úniko personagem shakespeariano kriado no século XX e pela arte do século XX. Só no império do imaginário amerikano - seja o do imaginário de um efectivo kuarto poder que só na Amérika e apenas na Amérika existiu, seja o de um imaginário cinematográfiko que só em Hollywood e apenas em Hollywood teve dimensão imperial - a desmedida das paixões shakespearianas podia voltar a existir kom o mesmo som e a mesma fúria. Por isso mesmo, nem o Macbeth nem o Othello de Welles foram tão shakespearianos komo Kane o foi. Pelo kontrário, todos esses personagens – como Arkadin, como Amberson, ou como Quinlan - parecem, no imaginário cinematográfico, herdeiros de Kane, mais dependentes da polifonia radiofónica e narrativa deste filme do ke da koralidade trágika das peças e narrativas em ke se basearam.

Segundo Pauline Kael, Hearst não foi, inicialmente, o primeiro modelo proposto por Mankiewicz a Welles para a figura de Kane. Dillinger, o gangster, Aimee SempIe McPherson, a pregadora pentekostal ou Alexandre Dumas teriam sido outros modelos aventados. A todos Welles torceu o nariz. Se estivesse apenas a pensar na sua carreira de actor, o bandido fatalista, a evangelista teatral ou o "príncipe do romantismmo" podiam ter-Ihe servido para mais apaixonantes brilharetes. Mas Welles não keria um retrato, keria um mundo. E esse mundo ninguém como Hearst o podia representar tão paradigmaticamente. Por isso é ke Paulina Kael erra kuando atribui a hipokrisia ou inkonsciência de Welles às suas reiteradas declarações posteriores de ke Citizen Kane não se baseava na vida de Hearst ou de kualker outra pessoa. Welles - talvez ao contrário de Mankiewicz que tinha kontas pessoais a ajustar com Hearst - sabia que uma koisa era a vida e outra o mito. Por isso mesmo, foi o úniko ke não terá ingerido a frio esta vingança e por isso mesmo se identifikou tão globalmente com o mito do homem que para a geração dele - liberal e eskerdizante - prefigurara tudo kuanto havia para odiar. E é a essa luz que se devem entender as afirmações ke também fez após a denegação da transposição. "No entanto - akrescentou - se Mr. Hearst e outros '"tubarões" não tivessem vivido durante o período em causa, Citizen Kane nunca podia ter sido feito".

No trespassing. A famosa inskrição do filme deve entender-se em sentido literal e a suposta chave do rosebud é apenas mais um fake de Welles. A vida de um homem não se pode mesmo trespassar. A vida de um mito deve poder kaber numa palavra ou numa imagem. É entre a proibição e o símbolo (o rosebud) que o segredo de Kane - mito, homem e filme - jaz. De uma para outra, o úniko perkurso é o perkurso do puzzle esses intermináveis puzzles com que a segunda Mrs. Kane - a da Thaîs - tenta fugir à solidão do mausoléu de Xanadu. No inicio do filme, algumas peças desse puzzle já tinham sido vistas, em sobre-impressão, kom os mesmos motivos e os símbolos do "Yin" e do "Yang'; São elas o ke falta ou o que sobra? Ou o ke falta e o ke sobra é a história da rapariga do guarda-sol branco que Everett Sloane-Bemstein konta a William Alland- -Thompson? "A white dress she had on". Ele viu-a só um segundo e ela nem um segundo o viu. "But I'il bet a month hasn't gone by since that I haven't thought of that girl". Estão a perceber o ke kero dizer? Se não estão nem se lembram não faz mal. Muitas coisas fikaram por perceber com Kane. Talvez nem sejam para perceber. Kada homem e kada mulher há-de fikar a lembrar-se de koisas de ke nunca pensou ir lembrar-se tanto.

Pessoalmente, são estas várias e variegadas peças do puzzle o ke mais me fascina em Kane: o imaginário amerikano dos thirties (e, para mim, Kane encerra-o e cerra-o); os fantasmas de Hearst e Marion Davies; as memórias das festas em Sam Simeon; o fantasma de Welles, por inteiro e em premonição; a voz off e o ke em kualker narração off fica sempre.

Kuanto ao resto, dou razão a Borges kuando dizia que Kane não era um filme inteligente "mas um filme genial, no mais sombrio e mais germânico sentido da palavra”. Amerika's Kubla Khan - Charles Foster Kane. Nasceu e morreu há 50 anos e há 50 anos ke ressuscita. Ressuscitará por muito tempo. Tanto tempo kuanto as suas asas de gigante o impedirem de pousar.

In K, nº8, Kane pela graça de Kane, João Bénard da Costa, Maio de 1991

Segunda-feira, Outubro 13, 2003

Delírios...


FASCINADOS com o estilo que o nosso prezado colaborador António Cerveira Pinto imprime às suas conversas, decidimos tentar descobrir o segredo.


CONVERSA COM A.C.P.
- Isso está a funcionar?
- Espero que sim...
- Eu pus pilhas novas.
- São alcalinas?
- Não, são da Praça de Espanha.
- De qualquer modo, podemos começar.
- É melhor fazer o teste, porque há coisas que, apesar de tudo, gostava que ficassem ditas.
- Vamos lá: atenção, um, dois.
- Um, dois, três, quatro, experiência, já chega. Põe para trás.
- Já tinhas usado esta cassete antes?
- Não sei, vamos ouvir.
- Gravou tudo.
- Ainda bem, já viste o que era se não estivesse gravado... (risos).
- Este gravador é mesmo bom...
- Pois, é um sony.
- Olha que há sonys que...

Eis uma brevíssima selecção do saber reaccionário que tão injustamente é esquecido ou posto de lado pela arrogância inocente de um liberalismo que tantas frustrações causou às últimas gerações.

O MEU PAI TINHA RAZÃO (algumas verdades reaccionárias)

Para uma mulher, ter carro já nos diz alguma coisa. Quem não viu já, parada nos semáforos de uma grande cidade à noite, uma mulher sozinha ao volante, muitas vezes de saia curta.

As mulheres que fumam em público também não são de fiar. O vício, que no homem se aceita, torna-se grosseiro na mulher.

Quem não viu já uma mulher a fumar numa paragem de autocarro como se fosse a coisa mais natural deste mundo? Com que autoridade depois se quer castigar o negro atrevido que se mete com ela, pedindo lume e vai-se lá saber que mais? Não é assim que se consegue baixar a taxa de violações no nosso país.

A maquilhagem que, até certo ponto, é um ornamento agradável, pode induzir o transeunte em erro e ser um chamariz. Já diz o Nosso Povo que «Mulher que se arranja, não é para agradar ao marido». Dito em bom português, «Mulher que se pinta, se não é puta então é o quê?»

Há limites para tudo. Não nos esqueçamos que em muitas culturas as mulheres são circuncisadas à nascença e não são menos felizes nem menos femininas por isso muito pelo contrário. O mito do «orgasmo feminino», que tanta ansiedade provocou nos anos «the sixties», perdeu-se na bruma da droga e do comunismo. A mulher moderna já não exige do marido mais do que um pouco de moderação, carinho e respeito.

E o voto? Cala-te boca... Dizem-se democratas mas nós não podemos dizer o que pensamos. Criticam-se muito a Alemanha e a África do Sul. E não são só os Negros...

A virgindade é um tesouro. É a prova mais acabada da pureza de uma mulher. É, sem malícia, uma «iguaria» que apenas um cavalheiro sabe conquistar ou para sempre pôr de parte. Quantos homens não dão o devido valor a esta entrega, nem a recompensam como ela merece. Dizem que o casamento está outra vez na moda.

Ainda bem! Cuidado com:

Mulheres que não usam soutien-gorge.
Mulheres que usam soutiens-gorges coloridos ou negros.
Mulheres que fumam.
Mulheres loiras.
Mulheres de cabelo comprido.
Mulheres com olhos temos.
Mulheres estrangeiras.
Mulheres divorciadas.
Mulheres com cursos universitários.
Mulheres com livros de cheques.
Mulheres dos outros.
Mulheres casadas sem filhos.
Mulheres sozinhas com os filhos.
Mulheres que passeiam com um cão.
Mulheres que escrevem.
Mulheres protestantes.
Mulheres inteligentes.
Mulheres muito bonitas.
Mulheres que gostam de vinho.
Mulheres com amigos.
Mulheres que não gostam de cozinhar.

In K nº9, Delírios, Carlos Quevedo, Junho 1991

Domingo, Outubro 12, 2003

Colombo filho de Portugal


Será assim tão difícil mudar o que nos enraízaram desde pequenos na escola e nos filmes? A K tentou em 1991, tentamos mais uma vez em 2002:


"Augusto Mascarenhas Barreto estudou durante 20 anos a misteriosa assinatura de Cristóvão Colombo. Decifrando a cabala, confirmou a tese muitas vezes discutida: Colombo era Português.

A decifração sigla-cabalística atribui a Cristóvão Colombo o nome de Salvador Fernandes Zarco.

É a seguinte a mensagem explícita da cabala estudada por este investigador: "Fernandus Ensifer Copiae Pacis Juliae illaqueatus Isabella Sciarra Camara Mea Soboles Cubae."

A tradução: "Fernando, que detém a espada do poder, de Beja, enlançado com Isabel Sciarra Camara, são a minha geração de Cuba."

A assinatura: Salvador Fernandes Zarco


O PLANO DO REI D. JOÃO II
...Faltava um agente humano; alguém que reunisse condições excepcionais para convencer os Reis Católicos a abdicarem de uma competição com os portugueses no caminho da Índia; alguém que lhes apresentasse uma hipótese, logicamente convincente, para alcançar o Oriente pelo Ocidente, sem a necessidade de contornar-se o continente africano. Teria de ser alguém de categoria, muito culto e educado, capaz de contactar com reis e convencer almirantes, ousado e experiente na ciência náutica - com a perfeição que só a Escola de Sagres e o seus continuadores da Ordem de Cristo fruíam; um homem que soubesse línguas e bem conversar, que se sujeitasse, até à morte, ao imperativo do Sigilo.

E não deveria ser suposto português, para não despertar a desconfiança da nação rival; teria de possuir formação patriótica e fidelidade indefectível ao seu rei. (...) Finalmente, alguém que possuísse suficiente génio para defender-se perante o mais austero interrogatório das forças mentais castelhanas.

O ESPIÃO DO REI
(...) D. João II, teve de tomar uma resolução definitiva: a sua escolha recaiu sobre um mancebo, intimamente ligado à Ordem de Cristo e, presumivelmente, à família real; que já navegara da Mina e dos Açores para Ocidente, e comparticipara na expedição marítima luso-dinamarquesa; que tivera ligações directas com os banqueiros de Génova; que se insinuaria genovês, mas sempre ocultando o nome da terra onde nascera e o dos próprios pais; que, usando um símbolo cabalístico, se assinaria com o seu próprio nome, mas transformado em Cristóbal Colón...

(in O Português Cristóvão Colombo, Agente Secreto do Rei D. João II, Augusto Mascarenhas Barreto, 1988. Ed. Referendo.)

As considerações históricas que o autor da descoberta teceu acerca da identidade de Colombo são naturalmente demasiado complexas para se conterem na entrevista que se segue. Remetemos, pois, o leitor mais apaixonado para a leitura do livro de Mascarenhas Barreto e dos posteriores artigos que este sociólogo publicou.

O que queremos tornar conhecido é o sucesso editorial, absolutamente inédito, que o livro já alcançou. Em Portugal, este livro foi editado no ano de 1988 com uma tiragem de 5000 exemplares. Esgotou a primeira edição e a segunda de 3.000.

Os ingleses é que não perderam tempo. Nunca perdem. Mascarenhas Barreto assinou um contrato de distribuição mundial do seu livro que vale 250.000 contos de réis nos primeiros dois anos. A editora, que naturalmente confirmou a veracidade das suas conclusões, chama-se Macmillan, é inglesa e uma das maiores do mundo. A BBC comprou os direitos de adaptação desta obra para o cinema.

Em Portugal, a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos não reconhece o livro nem a tese da nacionalidade portuguesa de Colombo.
Em artigos publicados ao longo do ano de 1990, Mascarenhas Barreto apresentou de forma sucinta as provas da nacionalidade portuguesa de Colombo que foi reunindo ao longo da sua demorada investigação.

O autor protesta e a K faz ouvir a sua voz.


K: ...Quando eu lhe perguntava sobre a divulgação do seu livro, ao ser lançado por um editor internacional, pressupunha que o governo português estava entusiasmado em investigar e apoiar o sucesso do lançamento do seu livro, já para não falar da Comissão dos Descobrimentos...

MB: A Comissão está preocupadíssima com o facto de o meu livro poder perturbar as relações subservientes e de sujeição em relação aos interesses espanhóis, italianos e de toda a CEE. E com a característica que têm os portugueses de há uns anos para cá, de se agacharem sempre, sistematicamente, puseram-se de gatas perante os estrangeiros. Vêem que os estrangeiros estão a tornar-se donos do país, mas não se importam, porque têm também as suas Comissões, têm os seus interesses. E depois, o Portugal que fica é o dos outros, não lhes interessa nada. Este, é o problema. Sob o aspecto cultural, passa-se o mesmo.

Estão a fazer o jogo do estrangeiro, permitem ser insultados. Consentem que digam que nós não sabiamos navegar, que foram os espanhóis e os italianos que nos ensinaram a fazê-lo. Para eles está tudo bem; não lhes interessa que digam que o nosso rei D. João II era um ignorante e que deixou que Colombo fosse para ocidente, por não saber que a terra era redonda, quando o próprio emblema de D. João II é a esfera armilar (que está hoje adoptada pelos espanhóis como símbolo da Exposição Universal que eles vão ter em Sevilha). Os espanhóis é que ainda precisaram de sete anos para ver que o mundo era redondo... E como curiosidade, é bom saber que os desgraçados dos arquitectos do pavilhão português dessa Exposição Universal, consideraram "uma saloiice" a utilização dos símbolos portugueses, a esfera armilar e a cruz da Ordem de Cristo, no pavilhão de Portugal. São a degradação da arquitectura simbólica. Mas, evidentemente, essa gente está muito bem enquadrada na escumalha da Comissão dos Descobrimentos.

K: Mas, ao não apoiar o sucesso evidente do seu livro pensa que o governo português ou, de forma mais abstracta, "o aparelho de Estado" está a proceder conforme interesses que não são os nossos?

MB: Em relação aos nossos interesses culturais, o Governo não está a fazer absolutamente nada!

K: E o que é que nós podemos fazer para sensibilizar o Governo da República para as questões que o seu livro levanta?

MB: Temos apenas de rezar para que eles sejam honestos, porque o problema da história do Colombo é só um problema de verdade. Ora, estes homens agarraram-se a um dogma fraudulento, e batem-se por ele para manter apenas o "tacho", a posição que adquiriram. Deve ser mesmo o único país do mundo em que os serviços culturais responderam, por carta, ainda há pouco tempo, ao comandante José Martins (um oficial de Marinha que perguntou à SEC por que razão é que não tomavam uma posição em relação ao meu livro), que não tinham ninguém para bem avaliar o meu livro! E, mais, diziam que ficavam à espera que os estrangeiros se manifestassem sobre este assunto.

Tal é a Secretaria de Estado da Cultura deste país! Portanto, não há nada a fazer, Portugal é uma anedota, e uma anedota trágica, porque acabou. É um país em que se fazem todos os esforços para que um dia os nossos filhos e os nossos netos fiquem a engraxar as botas aos estrangeiros. Eis o programa aparentemente estabelecido.

A História, em Portugal, constitui a única coisa da qual os portugueses se podem orgulhar, e até isso estão a conspurcar... É o que me indigna.

K: Se me permite, eu acho que nos podemos orgulhar da História e também da vivência que nós temos dela, o que corresponde a um outro estado de espírito...

MB: Sim. Mas essa vivência que nós temos da História está a ser destruída diariamente...

K: Isso é impossível!

MB: Não é a nós, pessoalmente, meia dúzia de "eleitos"; temos de contar com doze milhões de habitantes... De maneira que quando me fala da vivência da História que temos, "temos" nós, meia dúzia? E os outros, os dez milhões de habitantes? - Esses serão os que engraxarão os sapatos aos estrangeiros... e tudo nos prepara para isso, estão a ensinar-nos a ser, apenas, os moços de fretes...

K: O seu livro sobre Colombo, trabalho que o mobilizou durante quase vinte anos, é a prova acabada de que a teimosia e a autoconfiança podem conduzir a resultados definitivos; não precisamos que o plebiscito da nação confirme a sua tese para que esta venha a ter evidentes repercussões no resto do mundo...

MB: A minha teimosia tem uma história. Eu acabei o livro e mostrei-o ao meu mestre, que venero, embora só se devam venerar os santos... Era o padre António Silva Rego, prof. catedrático de História, do Instituto em que eu andei a aprender umas coisas, apenas umas coisas... E ele apoiou o livro, disse que o livro estava bem feito, que eu apresentava imensas provas lógicas, mas que precisava de uma prova real. Era a sigla... A assinatura que durante 500 anos tinha permanecido indecifrável. Para ele, aquilo seria uma cabala hebraica e, com toda a certeza, sefirótica...

K: Qual é a diferença?

MB: É que há três sistemas de cabalas. Temúria, o Notarykon e a Guematria. São várias formas de se fazer criptografia, códigos, como nos serviços secretos. Para mim, a cabala era uma prática quase mágica, uma magia, ou então uma organização um pouco estranha, proibitiva. Estive quinze anos a estudar só a parte hebraica. E depois é que comecei a entrar por outros campos, a parte templária. Depois de quinze anos de frustração, insisti. Nunca renunciei. Achei que tinha chegado a altura de precisarmos, novamente, de um herói, de alguém que fizesse com que nos orgulhássemos de ser portugueses.

K: A iniciativa que tomou foi secreta, foi pessoal, pelo menos até dada altura... Depois, quando as suas conclusões começaram a vir a público, o que é que aconteceu?

MB: Foi pessoal e esgotou-me completamente todos os bens. O livro foi escrito e ilustrado tudo à minha custa, com centenas de contos despendidos, com dificuldades terríveis da minha vida particular... Isto é um país de bastardos. Está completamente abastardado o sentimento patriótico. Os homens não sabem o significado de uma bandeira, não sabem o significado de coisa nenhuma... Qualquer dia esquecem o significado da Cruz.

K: O que eu acho é que com um trabalho como o seu livro, não vale a pena lamentarmo-nos tanto... Assim que houve conhecimento da parte de alguém, sobre a verdade dos resultados a que chegou, que tipo de problemas é que passou a enfrentar?

MB : Apareceram uma série de intelectuais a apoiarem-me. Entre eles, o maior número e os melhores, apareceram generais, pessoas da velha guarda. Esses vieram todos a dizer que estava muito bem, que o livro estava muito bem feito. E eu fiquei satisfeito porque se tratava de generais e almirantes da velha guarda, inteligentes e cultos. Os outros, não se manifestaram.

Olhe, meu amigo: eu sou fundamentalmente um sabreur; comecei a fazer esgrima aos sete anos; aos quinze anos era campeão juvenil. Os meus adversários tinham vinte e tal. Sou um cavaleiro de formação profissional e quase mental. E sou patrão de costa, velejador. Mas acho que sou apenas um resto... Uma coisa que restou.

K: Ao esforço a que correspondeu este livro estão decerto associadas a fantasia e o devaneio, a premonição do que aconteceria com ele após o seu lançamento. Existe uma forma ideal do livro ser conhecido e divulgado e também uma expectativa da repercussão que podia ser sentida pelo seu único autor.

MB: Eu digo-lhe que a parte poética é um vício de formação, uma forma de prazer pessoal. A estrutura que o livro apresenta, do tipo policiário (eu não digo policial, digo policiário), foi intencional, para despertar o interesse.
O objectivo do meu livro é ver se algum de nós ainda tem alguma alma, é quase uma sondagem com a intenção de saber se existe ainda um pouco de alma portuguesa.

K: Mas como espera ver isso, que reacções é que espera e como é que as julgará?

MB: Eu espero ver as reacções daqueles que me davam apoio, saber se ficam satisfeitos, orgulhosos por aquilo que digo sobre o trabalho dos Portugueses, o esforço dos Portugueses no mundo, as suas próprias qualidades... E até pelo facto de esse herói, que é tão cobiçado por toda a gente, ser português.

K: Além da proposição "Colombo era português e não genovês", este livro contém um sentido ideal muito mais importante...

MB : A razão do livro não era apenas a disputa da nacionalidade de Colombo. Esse era o leitmotiv, um pretexto para eu falar de Portugal, dos portugueses, de tudo aquilo que nós fizemos. Ou melhor, é uma verdade dirigida a toda a canalha que hoje está na Comissão dos Descobrimentos.

A toda essa gente que nos denigre propositadamente porque mantém ligações corruptas com o estrangeiro, com os interesses alheios a Portugal. É isso que me magoa. Eu quis mostrar as coisas que nós temos e que, no fundo, são apenas demasiado importantes.

K: Ainda não estou satisfeito com a sua resposta. É verdade que a sua ambição e sentimento patriótico foram grandes...

MB: Trata-se de uma ambição cultural e não monetária. A monetária caiu do céu, como um maná sobre o deserto.

K: Bem sei, bem sei. Mas eu estou a falar de outro mundo. A questão principal, mais subtil e mais valiosa no que respeita à posição de Portugal no seio das outras nações, e mesmo em relação à ideia que os portugueses têm de Portugal, é que o facto de ser genovês também convém aos espanhóis... Se Colombo tivesse realmente sido um cardador de lãs genovês, os espanhóis ter-lhe-iam oferecido uma oportunidade... que os portugueses não souberam aproveitar...

MB: Claro que convém que seja genovês. Durante a vida de Colombo, os espanhóis acusaram-no de ser português e negaram os direitos aos filhos, por ser traidor e português! Agora convém-lhes dizer que é genovês e que os espanhóis é que eram os inteligentes, muito sabedores, conhecendo onde estava, do "outro-lado-de-lá" a Índia, e mandando-o a ele, porque o rei de Portugal era estúpido. Essa a posição da Espanha. Ora, não foi isso que aconteceu. Mas é isso também que defendem os tipos da Comissão dos Descobrimentos...

K: A médio prazo, outros temas do seu livro poder-se-ão também tornar importantes. Estou a pensar, por exemplo, no lugar que atribuiu ao refúgio dos "Cátaros" em Portugal. Estou também a pensar no pacífico entendimento em que viviam as comunidades árabe, judaica e cristã, nos primeiros séculos da nossa independência...

MB: Isso tem a maior importância. Tratava-se de uma nova maneira de ser, de uma diferente maneira de ser. A inquisição é-nos imposta. Há uma certa forma de liberalismo que é nossa. Antecipámo-nos aos ingleses. Somos os primeiros a chamar o povo para junto do rei, o que eu acho muito bem. O povo a ter direito a voto, representação e voz. A nossa monarquia inicial é o povo e o rei. E depois há o culto do Espírito Santo, muito importante também e que vai até ao fim do livro. O livro é sobre o Espírito Santo, eu cruzo-o de Espírito Santo. O livro, incide sobre o Evangelho de S. João. Estão lá S. Bernardo, e a missão templária. Evidentemente que isso se encontra disfarçado. Toco no assunto em todos os capítulos. Com ele começo e com ele acabo. Disfarcei porque sabia que esta escória ficava danada. E os gajos ficaram danados. Os socialistas e os comunistas ficaram danados. Eu estou-me nas tintas, não escrevi o livro para eles.

K: Na minha opinião, é muito pouco considerarmos só a reacção da esquerda. Numa situação como aquela que o seu livro criou, podemos ambicionar conceber outro tipo de respostas, talvez identificar um outro tipo de correntes de pensamento no nosso país...

MB: A malta "normal", está toda do meu lado. Eu fiz até agora cerca de quarenta e seis conferências em vários sítios, incluindo a Academia de Marinha e estabelecimentos de ensino. Tenho quatrocentas e tal cartas para responder. É uma reacção favorável. Mas temos o Estado. E o Estado é pró-marxista. Porque apesar de haver um Cavaco... Mesmo que o Cavaco apareça vestido de César, de Júlio César, está rodeado de Brutos que estão lá metidos e que ninguém arranca de lá. A maioria dos serviços estão recheados de marxistas-materialistas. Repare que o Luís de Albuquerque era comunista e o Vasco Graça Moura do MDP-CDE. Toda esta canalha que rodeia o Cavaco é do piorio. São todos anti-portugueses. O azar deles foi não terem mais hipóteses de haver Ceausescus, porque os Ceausescus acabaram. A grande ambição deles era que o primeiro-ministro português fosse um estalinezinho, à dimensão nacional. O que eles gostavam de ter era um Estaline da Malveira. O senhor julga que eu sou doido, mas eu não sou; sou um bocado, mas não totalmente.

É que eu digo todas estas coisas, mas digo-as em qualquer lado, digo-as numa conferência, estou-me absolutamente nas tintas. Porque me sinto acima desta canalha toda. Acima, moralmente. Não é por saber mais, porque até posso saber muito menos; nem é por ter mais poder, coitadinho de mim, que sou um mísero professor. Mas tenho a coragem moral de português, de poder ladrar. E ladro alto; e uivo e fico danado com estes gajos. Se eu os pudesse ter na frente da espada, limpava-Ihes o sebo.

K: o senhor é evidentemente um português. O português não tem tempo nem condições para saber muito seja do que for. Não podemos saber muito porque vivemos a lutar contra a miséria. Sobrevivemos...

MB : Não podemos saber muito, somos um bocadinho como o pato. Corre, mas corre mal. Voa, mas voa mal. Nada, mas nada mal. Canta... mas canta mal. Mas é pato... Não, eu sei umas coisinhas de algumas coisas; sei até algumas coisinhas de História e posso dizer-lhe que sei mais de Colombo que alguns professores catedráticos. Mas sei menos de Sociologia do que alguns professores vulgares de Sociologia.

Por exemplo, em relação à exposição das matérias no meu livro, se eu tivesse usado o tal método científico que eles me exigem, nem cem exemplares tinha vendido.

K: Disse-me que a razão principal que o levou a questionar a naturalidade italiana atribuída a Colombo era de natureza sociológica, relacionava-se com a origem social do navegador. Quer fazer algum comentário sobre isso?
MB: Tive a intuição de que ele não podia de maneira nenhuma ser genovês, era um disparate muito grande. A intuição foi-me dada pelo sentido dos estamentos da época.

No séc. XV, era impossível a um genovês chegar cá e casar logo com a filha de um Bartolomeu Perestrelo. No séc. XV, era impossível a um genovês, cardador de lã e taberneiro, chegar cá e o rei mandá-Io sentar na sua presença para conversarem, convidá-lo para a mesa. E escrever-lhe uma carta em tom de "nosso querido amigo Cristóvão Colombo, em Sevilha". Estamos no séc. XV, não estamos no séc. XX. E mesmo no séc. XX, se aparecer por cá um cardador de lã, genovês, nem sequer vai poder falar com o Mário Soares, nem sequer com o Cavaco...

Então um tipo sem eira nem beira chega cá e casa logo com a filha do Bartolomeu Perestrelo, assim sem mais nada? Ainda por cima, ela estava internada num convento como pensionista, não fez votos. Isso é uma questão que me deixou inquieto, ainda antes de escrever o livro. Sociologicamente, há qual- quer coisa que está errada.

Era também impossível que no séc. XV um taberneiro cardador de lãs, que até aos 24 anos só tinha problemas com os credores tivesse os seus conhecimentos de cosmografia, ciência náutica, teologia, línguas clássicas e até actuais. Depois havia uma data de discrepâncias, porque ele dizia que tinha andado com os portugueses no mar desde os catorze anos; não podia ser o mesmo. Além disso, "o outro" nasceu em 1451 e eu acabei por verificar pelas próprias declarações do Colombo que nasceu em 1448. Como é pouco natural que um homem nasça duas vezes, parti do princípio que estava errado.

Outra coisa ainda: os genoveses apresentam uma casa onde supostamente Colombo nasceu (já a devem ter mostrado ao Presidente Mário Soares, pois apresentam-na a todos os saloios). É uma casa que foi adquirida pelo pai do cardador de lãs cinco anos depois de este ter nascido e, mesmo assim, consegue nascer nessa casa, o que é difícil de aceitar mesmo para um analfabeto que não saiba matemática... Mesmo para quem não saiba aritmética é difícil. Havia qualquer coisa que estava errada. Comecei a estudar e acabei por descobrir quem eram todos os seus protectores: parentes. E foi assim. Um amigo meu conseguiu o acesso ao arquivo secreto espanhol e fotocopiou-me o processo contra a coroa. O processo de Diogo de Colón, que eles não deixam ver. E, meu caro amigo, tem tudo.

Colombo foi a dada altura votado ao ostracismo pelos reis espanhóis, não pode aparecer em lado nenhum porque é acusado de ser português e traidor à pátria. Porque não entregou a Índia à Espanha.

Entretanto, ele nunca foi para além de Cuba, nem sequer passou a ponta de lá de Cuba. E só vai à Venezuela em 1504, porque o rei D. João II disse que ali havia terra firme.

O rei D. João II dissera-lhe que havia terra firme na Venezuela e no Panamá antes do descobrimento da Índia! Não tem medo nenhum de o mandar lá. E ele só vai depois do descobrimento da Índia e do Brasil, que é oficialmente descoberto em 1500. Colombo só vai em 1504. Os espanhóis não descobriram a América antes de nós.

K: E aquilo que diz sobre o descobrimento do Brasil?

MB: O Brasil já estava mais do que descoberto em 1500, quando Pedro Álvares Cabral lá chegou. A carta do mestre João é formidável... O rei já tinha em Lisboa a carta com o mapa da costa do Brasil e os homens de Cabral, quando chegam ao Brasil, mandam-lhe uma nau a dizer... Se quiser ver aonde a gente está... Esse mapa do Pero Vaz Bizagudo só não tinha a indicação de que a terra era habitada, apresentaria apenas os contornos da costa. Mas a terra já estava descoberta; digo eu, está escrito!

Colombo nunca vai para ocidente com medo que existisse um canal do Panamá, uma passagem qualquer para ocidente. Ele só tinha encontrado ilhas e temia que houvesse uma passagem para o lado de lá. Mesmo que os portugueses já tivessem o Brasil e a Terra Nova, ele não queria que, depois disso, os espanhóis pudessem fazer concorrência aos portugueses no comércio da Índia e, por isso, nunca vai para ocidente, nunca passa a ponta de Cuba. Nem a contorna, nunca chega à América. É extraordinário. Nunca chega à Florida, mantém-se fiel a D. João lI, mesmo depois da morte do rei. O rei morre em 1495 e ele em 1506. A última viagem que faz é em 1504. E ele nunca vai, recusa-se. Portanto, acaba votado ao ostracismo. Morre e os filhos têm problemas de todo o tamanho. E só se reabilita o neto.

K: E os filhos estavam ao corrente da identidade do pai?

MB: Estavam. Fernando Colón faz um pedido à imperatriz Isabel, mulher de Carlos V, para ser indemnizado pelas perdas das suas avós portuguesas. Ora, o Fernando é filho bastardo, em princípio, de uma cordovesa e eu até pensei que as avós portuguesas eram pela parte do pai. Fiquei encantado. Mas não era assim, a mãe é que era portuguesa. A Beatriz Henriques, a mulher com que Colombo nunca casou mas com quem viveu em Córdova, era uma nobre portuguesa cuja mãe era herdeira de terrenos em Espanha que foram confiscados após a batalha de Toro. Tive de estudar estas coisas para provar a minha tese. Estou-me nas tintas para defender os interesses italianos e espanhóis.

K: O que me preocupa é o facto de estar muito próxima a exposição de Sevilha e perceber que o senhor não conta com o seu país para a defesa da sua causa.

MB: Ainda antes disso, antes de Abril de 92, este livro vai rebentar como uma bomba, explodir em todas as línguas, por todo o mundo. Um amigo meu convidou-me para seis conferências nos Estados Unidos, mas acrescentou: " - Não venhas ainda, porque eu ainda não arranjei a segurança. Por causa da Mafia. Os genoveses matam. Sabes o que é que fizeram? Ao pé de New Foundland, que foi descoberto pelos portugueses, erigiram uma estátua a Portugal, ao Infante D. Henrique. Foi dinamitada no dia seguinte, desapareceu. Os italianos rebentaram com ela."

O que eu disse ao meu amigo foi o seguinte: "- Olha, eu tenho 68 anos completados em Janeiro, não preciso de viver mais. Vou para lá; se os gajos me matarem, é uma coisa encantadora, fica o livro consagrado."

K: Não pode ser, o livro não pode precisar que o senhor morra para ser consagrado. É preciso acabar com essa coisa da consagração póstuma; é tarefa dos portugueses, acabar com esse valor da posteridade!

MB: Eu não me importo nada; estava a falar-lhe da esgrima e para mim é um toque. Leva-se um toque e acabou, não se pensa mais nisso. Paciência, acabou-se, morreu. Actualmente, estou desanuviado. Passei grandes dificuldades. Nunca mais andei de automóvel, passei a andar de autocarro. Deixei de tomar as minhas bicas, deixei de convidar os amigos lá para casa, para estarmos ali a conversar. Durante dezasseis anos. É uma espécie de regresso à miséria...

E foi isto que disse o homem que reclama a nacionalidade portuguesa para Cristóvão Colombo. E foi isto também que eu ouvi e para estas folhas transcrevi. E mais não digo."

In K, nº 5, O último descobrimento, Pedro Ayres de Magalhães, Fevereiro 1991

Sábado, Outubro 11, 2003

Ditados populares




QUEM CAGA PREGOS,
mija parafusos.

O INGLÊS FALA,
o francês escreve, o português pensa.

MOCHO NA AUTO-ESTRADA,
vem aí trovoada.

MERDA DE SAPO,
mulher no papo.

CÃO SEM UMA PERNA,
festa na taberna.

COBRA PIXOTUDA,
sai a taluda.

CAMISA ENGOMADA,
roupa lavada.

LOURO DE PESTANA,
só prá semana.

VESGA QUE PASSA,
mulher devassa.

NÃO PUXES O RABO AO GATO
que ele mija-te no X-Acto.

SE QUISERES QUE A TUA MULHER SEJA FIEL,
não lhe dês bolos de mel.

SE TENS TUSA E NÃO TENS MULHER,
esfrega-te no chão e seja o que Deus quiser.

QUEM MUITO BEBE,
muito se embebeda.

PRETAS A LAVAR,
elefantes no mar.

GÁS INTESTINAL,
chuva no nabal.

GASES NO RECTO,
peido de beto.

MULHERES SOZINHAS,
tanto tuas como minhas.

LADRÃO QUE ROUBA A LADRÃO
é um cabrão

HOMEM BOM,
c'est un con.

CERA DE ABELHA EM TESTA DE MORTO
só na Guarda ou no Porto.

CURSO DE MEDICINA,
dedo na vagina.

CURSO DE ENGENHARIA,
grande porcaria.

QUEM TEM CU
não sabe o que diz.

MULHER DE JORNALISTA,
canário, gaiola e alpista.

PEIXE DE RIO EM FOGO LENTO,
puta que o pariu e arrependimento.

RABO DE MULA EM DIA DE SOL
é fritá-lo em Óleo Fula e acompanhar com Sumol.

OBRA DE SIZA,
torre de Pisa.

CUECAS ROTAS E CALÇAS BOAS,
arruma as botas e vai pra Lisboa.

MÃE QUE TRABALHA A DIAS
e pai que leva no cu, é ver-se-te avias e quem se fode és tu.

MOÇO CANHOTO,
sorte no totoloto

CAGA NA PIA,
ganha a lotaria.

DIARREIA AO ACORDAR,
caganeira em Tomar.

DIARREIA ENQUANTO DORMES,
vinho verde de Tormes

DIARREIA DE DIA,
alegria.

DIARREIA DE NOITE,
quem tó cu foi-te?

DIARREIA SOLTA,
paneleiro de volta.

DIARREIA DURA,
regresso à fressura.

DIARREIA ESPORÁDICA,
cozinheira sádica.

DIARREIA PERMANENTE,
comensal doente.

PICHA AFUNILADA,
criança mimada

PICHA DISFORME,
criança que dorme

MAMA LEITEIRA,
mulher casadeira

MAMA BRANQUINHA,
canta a galinha.

PACHACHA PELUDA,
polícia na rua.

PACHACHA CARECA,
rata de biblioteca.

SOVACO COM CHEIRO,
coelhos no palheiro.

VIRILHA CANCEROSA,
Mário Vargas Llosa

UNHAS SUJAS E RABO ASSADO,
rapaz inteligente mas mal educado.

QUEM QUER DEITAR-SE COM A PATROA
ofereça-lhe a côdea e guarde a broa.

BOM HÁBITO,
mau hálito.

HOMEM ADULTO QUE SEJA ESCUTEIRO,
procura-lhe o cu, que é paneleiro.

RELÓGIO SEM HORA,
vamos embora.

RELÓGIO CERTO,
fica sempre perto.

CLITÓRIS DE MENINA,
Morris Marina.

CLITÓRIS DE BOM TOQUE,
Mini Moke.

CLITÓRIS SUPER,
Mini Cooper

CU APALPADO,
meio caminho andado.

PACHACHA LAMBIDA,
língua dorida.

MAMA CHUPADA,
teta mimada

PICHA GROSSA,
motivo de troça.

PICHA FINA,
ri-se a menina.

PICHA ALONGADA,
foi a criada.

PICHA PEQUENA
é uma pena.


In K, nº 13, Ditados Populares da Nossa Terra, Outubro de 1991

Sexta-feira, Outubro 10, 2003

Enfim, sogras...


As SOGRAS serão mesmo umas chatas inevitáveis, ou apenas vítimas de um dos maiores e mais injustos preconceitos da história da Humanidade? Devem os homens continuar a odiar estas criaturas só porque são mães das suas mulheres? E porque existe o costume ancestral de considerar a sogra uma indesejável? Não se pode gostar de uma sogra como de qualquer outra filha de Deus?

O problema começa na Fonética. À partida, não se pode esperar nada de bom de quem é designado por um termo como «sogra». Há poucos com um som tão desagradável, tão áspero e grosseiro, tão impróprio para designar uma senhora. Quando se diz «sogra» é quase como se estivesse já a insultar a pessoa, tão agreste é a pronúncia da palavra. Também a semântica não lhes foi favorável, às pobres senhoras. Uma «sogra» parece um gore feminino com um «se» no princípio, como um prefixo condicional, como se as «se-ogras» tivessem, quando muito, o benefício da dúvida de não serem uns tremendos gores.

A imagem gráfica das que, no fundo, são nossas segundas mães, também anda pelas ruas da amargura. O problema aqui reside em ter sido criada ao longo de algumas décadas de anedotas ilustradas, desde os tempos do Cara Alegre e que persistem na Gaiola Aberta. As anedotas não deixam à sogra outra hipótese senão a de ser uma matrona de peitaça avantajada e facies permanentemente irado, sempre pronta a explodir em fúrias para proteger a filhinha do patife do marido.

Como mais ou menos toda a gente hoje em dia, penso que é talvez com um melhor conhecimento do outro (neste caso das outras) que se consegue acabar com estas quezílias funestas que envenenam a existência de metade da humanidade. A minha experiência de sogras já é alguma e talvez um esboço de quadro tipológico permita aos genros descobrir qual o seu tipo de sogra e a melhor maneira de viver com ela e com a filha.

A sogra-mãe. É uma sogra com preocupações igualitárias, de um ponto de vista familiar, que se esforça sinceramente por tratar o genro como se fosse um filho. Os únicos casos graves são os de algumas que não tiveram crianças do sexo masculino, e vêem no genro o descendente varão que a Providência lhes negou. A única hipótese é cumprir o papel que é esperado com a calma possível, que tem de ser muita, mesmo tendo em conta que as intenções da neomãe são sempre as melhores. A sogra-mãe requer bastante atenção da parte do genro e é deveras possessiva. Não raro é preciso, a este, fingir que deixou de ter qualquer ligação com a família genética, e que a aceitou como mãe adoptiva. A interiorização continuada desta atitude leva os maridos a tratar as mulheres como irmãs, com as consequências que se prevêem.

A sogra boazinha. Cuidado com ela, porque ou é mesmo boazinha ou é uma grande sonsa, e se faz de tansa a ver se apanha o incauto a fazer das dele. Repare-se que o que caracteriza a sogra boazinha não é uma atitude afirmativa de bondade, mas antes o não intrometimento. Sogra que não se intromete ou é mesmo boa pessoa - o que é mais frequente do que se pensa - ou então apenas visa a eliminação do genro enquanto tal. Nestes últimos casos, raros mas de extrema perfídia, nada há, aliás, a fazer. Quando der por isso, o genro tem a vida feita num oito, as amantes descobertas, a liberdade cerceada, a careca à mostra, o divórcio à vista. A sogra discretamente afável, tão suave que não se dava por ela, era mais eficiente do que uma brigada de veteranos da Judite.

A sogra boazona. Este tipo de problema só atinge genros que se casam com mulheres muito mais novas. Não é raro as mães serem muito mais interessantes do que as filhas, serem mais cultas e melhores conversadoras, não darem erros de ortografia, etc. Quando a estes dotes de sogra se juntam os de uma maternidade precoce, e uma boa conjuntura física subsiste a par com alguma desvergonha, o genro pode vir a ser tentado como aquele santo cujo nome agora não ocorre. Mas cuidado que, muitas vezes, passa-se tudo na cabeça desregrada e incontinente dos homens. Um passo em falso pode ser uma catástrofe e uma vergonha sem nome.

A sogra queque. É um tipo de sogra que não traz problemas de maior, desde que se consiga tratá-Ia por «tia». Aliás, a designação por tia é a melhor para qualquer sogra, não porque seja isenta de ridículo, mas simplesmente porque é menos ridícula do que a de «mãe» (quando se sabe que só há uma), e mais delicada do que um áspero «olhe». Também se tem de aceitar ser chamado de «o menino». A sogra queque, como todas as mulheres do seu grupo sociológico, tem no entanto um problema grave que radica no esforço que faz para, a partir dos 50 anos, não ter idade. Mas cuidado. Não se trata de parecer mais nova, mas de não ter idade de qualquer espécie, mental, cronológica, nas pernas, no cabeleireiro, em lado nenhum. As tias a partir de certa altura têm o bom senso de não serem gaiteiras, mas querem sair do tempo, como os monumentos. Mirram, secam, e estabilizam numa espécie de 4ª dimensão a que só as classes superiores têm acesso.

Quem tiver uma sogra queque nunca poderá tratá-Ia como uma velhinha (como se deve fazer com sogras camponesas), nem como uma velhota (como se deve fazer com uma sogra oriunda do proletariado), muito menos como uma sogra-sogra (como as genuínas e boas sogras pequeno-burguesas). Tem de ter um tacto infinito para não dar a entender que sabe que a senhora tem uma idade, o que é mais ou menos tão difícil como falar com uma santa, pelas mesmas razões.

A sogra de esquerda. Esta é uma chatice e não por causa das desventuras que agora afectam este simpático quadrante ideológico, mas antes porque as mulheres de esquerda sempre foram muito chatas, com muito poucas honrosas excepções. A sogra de esquerda, regra geral, esforça-se por ser a não-sogra, mas não deixa de seringar o juízo à filhota para não se deixar levar pelo macho, para se libertar dos trabalhos domésticos obrigando-o a partilhá-los. Se encontra eco - o que é raro, porque as filhas das mulheres de esquerda raramente o são - a vida do genro está feita num Goulag.

In K, nº18, Enfim, sogras, António Campos, Março de 1992

Quinta-feira, Outubro 09, 2003

As Mil Marias de Maria de Medeiros



Fotografia: Inês Gonçalves



Palavras para quê? Certamente um dos melhores textos do MEC


"Finalmente, vê-se uma estrela. Uma estrela a sério. Sem ser em carne e osso. Maria de Medeiros, a noite está linda, o mundo é teu.

A Maria não tem cara. Tem mil. Não é bonita. Não é feia. É bonita quando quer. É feia quando é preciso. Feia ou bonita, está sempre a brilhar. Arde, de arder. Luz, de luzir. Maria de Medeiros é uma estrela verdadeira. Uma estrela não tem cara. Até as pernas parecem engordar e emagrecer conforme as exigências da representação. Em Zazou envelhece à frente dos nossos olhos. É menina. É velha. Cresce. Quando é pequenina, é a mais pequenina. Quando quer ser grande, é gigante.

A Maria é portuguesa? Cem por cento. Excepto quando é cem por cento francesa. Quando canta "Il n'y a pas d'amour heurex" diante de mil franceses comovidos é mais francesa que eles todos. Parece a Piaf. Parece um passarinho. Sozinha num palco enorme, a cantar pela vida. Podia ser um rouxinol. Podia ser chinesa. Quando é para ser Anais Nin, é Anais Nin. Maria de Medeiros é uma actriz absoluta. Faz teatro clássico e moderno, bom e mau, com o mesmo empenho e a mesma qualidade.

A Maria não escolhe. Não tem preferência. Maria faz tudo. Fez um filme de uma peça de Beckett. Em Budapeste comprou um violoncelo melhor. Tem pena de não ter continuado a pintar. Quer retomar os estudos de filosofia. Ela é o que quer. Ela consegue ser o que se quiser. Não tem vergonha. Tem o descaramento - o ser capaz de não ter cara - das grandes estrelas. Posa. É um modelo perfeito.

De um momento para outro, passa de Virgem Maria para Maria Madalena. É inocência e podridão. Século XIII e século XX. Miúda e mulher. Maria de Medeiros é a Maria em que se estiver a pensar.

A Maria fala com toda a gente. Dá entrevistas e autógrafos a quem os pedir. Aparece com agrado igual na Vanity Fair como na Nova Gente. Em Estocolmo dorme na suíte real do Grande Hotel. No Teatro Nacional de Chaillot tem um rato morto no camarim. Andou de limousine em Lisboa, rodeada pelos fotógrafos da Interview. Em Paris, anda de metro. Come em castelos. No Teatro Chaillot, como carne com massa no self-service. Está em Hollywood e é hollywoodesca. Está em Lisboa e é lisboeta. Em Nova Iorque, é capaz de jogar na Bolsa. Em Lisboa, joga matraquilhos. E esteja onde estiver, está sempre bem. É uma estrela. Uma estrela não é como as pessoas normais. Está sempre no elemento dela. O elemento dela é a electricidade.

A Maria é portuguesa? Cem por cento. Excepto quando é cem por cento francesa. Quando canta "11 n'y a pas d'amour heureux" diante de mil franceses comovidos é mais francesa que eles todos. Parece a Piaf. Parece um passarinho. Sozinha num palco enorme, a cantar pela vida. Podia Lisboa. É permanentemente uma estrangeira no estrangeiro. É uma estrela. É sempre exterior. Pertence-nos mas não está jamais entre nós. A Maria não esconde nada. Mostra tudo. O que faltar, inventa. Está sempre bem. Se é feliz ou infeliz, não faz sentido perguntar. Está sempre bem como está, onde estiver, e tudo o que faz, faz muito bem. Ela pertence ao público. O público é o dono dela. É por isso que ela é uma estrela. Não há outra Maria de Medeiros. Se calhar, como as grandes estrelas, não tem alma. Só um buraco negro. Onde cabem as almas de quem representa. Se calhar, como as grandes actrizes, não tem interior. Tem sempre a alma à .vista. Sente-se que não há nada que se meta entre ela e uma personagem. Ela é quem se vê. Não tem segredo. Não precisa de ter.

Maria é uma actriz absoluta e natural. Vive num mundo que é bom porque lhe pertence. Não tem medo de se tomar uma estrela do cinema americano. Se for preciso mudar-se para Los Angeles, muda-se. Mas do que ela gosta é o que ela está a fazer agora, que se resume em quatro palavras: tudo ao mesmo tempo. Gosta. de estar na mão e na contra-mão, no gosto do público e no goto da crítica, com os dois pés no centro do êxito e dois dedos na vanguarda. Esta confusão é a casa dela. É lá que ela se sente à vontade. Ela não é um camaleão. É outra criatura. É uma verdadeira actriz. Uma artista no sentido antigo e absoluto. Uma criatura divina. Maria de Medeiros é uma estrela em qualquer língua. Em qualquer arte. Em qualquer luz. Em qualquer parte. É a Maria."

in K nº3, As Mil Marias de Maria de Medeiros, Miguel Esteves Cardoso, Dezembro de 1990

Quarta-feira, Outubro 08, 2003

Traduções Selvagens 2




Políbio (200-120 a.C.)

Ab alio exspectes alteri quod feceris.
Ai de quem espera que se altere o que defecou.

Anus cum ludit morti delicias facit.
Um cu lúdico faz as delícias dum morto.

Bis fiel gratum quod opus est si ultro offeras.
Duas vezes te fiei de graça e quando me opus ficaste ultra-ofendido.

Beneficium dare qui nescit iniuste petit.
Fazes bem em dar aos que nascem injustamente pequenos.

Cai semper dederis ubi neges rapere imperes.
Com o dedo sempre no cu não julgues que vais conquistar impérios.

Homo ne sit sine dolore fortunam invenit.
Um gay não se senta sem doer a não ser com muita sorte.

lnopi beneficiam bis dat qui dat celeriter.
No ópio o benefício é o dobro dos speeds.

Lascivia et laus numquam habent cocordiam.
O Laos nunca concordou com a lascívia.

Longum est quodcumque flagitavit cupiditas.
Já lá vai o tempo em que alguém me flagelava com tesão.

Nom est beatas esse se qui nom palato
Não se é beata só por não ser puta.

Pars benefici est quod petitur si belle Reges.
Para o Benfica é um pequeno passeio por belas neves.

Quam miserum este bene quodfecerisfactum queri!
Até a miséria é boa quando a gente caga como quer.

Decima hora amicos piares quam prima invenit.
Às dez horas, amigos, pirem-se que a minha prima vem aqui.

in K nº 6, Traduções selvagens, Março 1991

Terça-feira, Outubro 07, 2003

Conversas de ir ao Bip - Os homens



Fotografia: Pedro Cláudio



Este é sem dúvida um artigo clássico que merece um destaque especial. O que terá mudado em dez anos? Seria interessante fazer uma mesma conversa nos dias de hoje... Um artigo semelhante a este será publicado brevemente com a perspectiva feminina.

"Os mulherengos não são uma raça extinta. Oiçam-lhes a verdade nua e crua. Sobretudo nua.


Não vale a pena estar com rodeios ou mentiras de ocasião: o que aqui se vai ler é absolutamente verdadeiro, retirado directamente das bocas de seis experientes exemplares do sexo masculino que discorreram livre, sincera e anonimamente - sobre todos os exemplares do sexo feminino. Se o resultado ofende sensibilidades ou choca moralidades, a culpa não é nossa: nada - mas mesmo nada - foi inventado. As mulheres podem ficar surpreendidas e escandalizadas por lerem pela primeira vez como eles falam delas: mas o homem que disser o mesmo mente, porque é impossível que ao menos uma vez na vida não tenha tido ou ouvido semelhantes conversas.

Os participantes desta animada tertúlia são todos senhores doutores, muito bem instalados na vida e com boas maneiras à mesa. Alguns chegam mesmo a ser casados. O que nos leva a constatar que nem os misóginos escapam.

Para evitar uma prematura saída de circulação desta edição e sobretudo porque ainda há gente que preza os seus empregos, decidimos substituir algumas expressões demasiado quotidianas. No seu lugar, irá aparecer um efeito sonoro de censura: o conhecido bip, acompanhado das suas declinações. Acreditamos que nem sequer os leitores mais atentos irão perceber pelo contexto o que se esconde (ou se põe à mostra) por detrás (salvo seja) de cada bip. ;

Sem se ter chegado a uma conclusão, foi possível verificar que as vidas dos homens são incrivelmente parecidas, e que as mulheres, meu Deus as mulheres são tão diferentes que apetece conhecê-Ias a todas. Prometemos entretanto que elas também terão direito a falar deles como quiserem. Garantimos o anonimato. Até lá, cuidadinho com homens educados, doutores e com boas maneiras à mesa. Alguns chegam mesmo a ser casados.

- A ideia é esta: as mulheres são objectos ou não? Isto é uma pergunta. Quando é que se pode bipar ou embipar uma gaja, quando é que uma pessoa tem confiança para... Depois, há diversos temas, doenças, o problema do adutor...
- Pois, problemas físicos...
- A higiene, a menstruação.
- E o trabalho que elas têm, aquela ficção das mulheres que têm trabalho e julgam que são...
- ...profissionais...
- ...engenheiras e que são...
- e que têm profissões; arquitectas, designers, antropólogas.
- O que é que as mulheres, no fundo, querem?
- As mono-orgásmicas, pluriorgásmicas as nada orgásmicas, mulheres com ejaculação precoce... agora há muitas coisas.
- Quando é que se desiste, quando é que é decente um gajo desistir? ...
- Desistir de quê?
- De fazê-Ia bipar-se.
- Qual é o limite do razoável? Outro tema: como deixar uma mulher? Como se faz para andar com várias. Distron.
- Essa do Distron...
- Nunca conheci uma que usasse.
- Sabe horrivelmente mal. Sabe dez mil vezes pior que o ácido úrico, amarga, arrepanha...
- Tipo amoníaco?
- Horrível! É o problema de ela pensar que vai entrar na vida artística contigo e "olha, vou só à casa de banho num instante" e lá vai ela fazer a sua higienezinha. Depois pensa que está asseada e só sabe a desinfectante.
- Sabe a piscina, a pirolito dentro da piscina.
- Eu prefiro o sabonete.
- Mas depois há segregações inerentes à própria...
- Sim, sim.
- O melhor é o sabão.
- É só enxaguar. Passar por água.
- É pena porque se perde aquele sabor metálico que às vezes é agradável... a aço...
- Isso é ácido úrico.
- Depende da personalidade de cada uma. E da cor do cabelo.
- As louras são piores. E as virgens piores ainda.
- Eu cá nunca bipei uma virgem.
- Eu só uma e ficou...
- Incompleto.
- Falta-te um diploma.
- Eu só duas.
- Eu só uma.
- Eu nunca e acho que não quero.
- Comigo foi engraçadíssimo porque eu não sabia. Foi há muitos anos. Dez anos.
- Já foste com algumas que fingem que são virgens?
- Não.
- Eu já.
- A melhor vez que fui, fui enganado. Foi uma que começou "Vamos bipar." Depois disse: "Isto afinal não é como dizem as minhas amigas. É uma grande merda."
- Virgens houve uma, minha namorada há dez anos, na altura em que era virgem. E outra há um ano. No último Outono. Estava no Kremlin com amigos, já meio grosso, e uma gaja novinha pôs-se na minha frente a rir-se muito. Fui buscar um copo e quando voltei ela continuava. Fiquei ao lado de já não sei quem, na conversa. Ela veio pôr-se ao meu lado. Fiquei lá na treta, na conversa com ela até às sete da manhã, até o Kremlin fechar. As amigas vieram perguntar se ela se ia embora e ela "Não, fico mais um bocado" e eu "Depois levo-te a casa." Aquela conversa.
- Conversa de ir ao bip.
- Sim, mas estávamos naquela de conversa decente. Podia ser minha namorada. Depois, já não sei como, ela foi parar a minha casa e estivemos na conversa no sofá. Pronto, vamos passar para a fase do quarto. Ela vira-se para mim e diz assim, com um sorriso de morrer: "Só há um problema, é que eu sou virgem." Eu não fazia a mínima ideia.
- O que é que fizeste?
- Bem, ela disse-me que tinha um problema.
- E resolveste?
- Ela nunca mais me largava...
- Estavas muito alcoolizado?
- A primeira vez não, mas não dava com aquilo. Deu trabalho, mas foi engraçado. No fim, compensa. E esse trabalho pedagógico de iniciação também é engraçado.
- Quando apanhas uma mulher na segunda bip é sempre melhor do que na primeira.
- Na primeira sofrem muito... ficam brancas.
- Será que as mulheres respeitam o homem que lhes tira os três?
- Respeitam? Veneram!
- Por isso é que elas não me têm respeito nenhum.
- Tenho medo. Já estive com uma virgem na cama e não a bipei.
- Quem é que as anda a bipar?
- Se calhar há um gajo que anda a bipá-las todas.
- São os primeiros namorados. Calha uma a cada um.
- Está certo.
- Mas eu não bipei a minha.
- Sim, mas eu já bipei duas.
- Dá conta certa.
- Novo tema: os adutores. Depois de um fim-de-semana muito sobrecarregado não ficas à rasca da perna?
- Isso afecta o pessoal mais gordo.
- Gostas mais de ser bipado ou de bipar?
- As duas coisas ao mesmo tempo. Quando estou mais bêbado gosto mais de ser bipado.
- Qual é a diferença?
- Uma mulher a bipar é muito mais sensual do que nós. Nós a bipar somos uns animais. Eu não tenho sensualidade nenhuma. Sou um javardo. Ou seja, nunca lhes pergunte "Sou muito sensual?”
- Odeio que me montem.
- Eu gosto das clitorianas.
- Eu estou-me nas tintas.
- Estás-te nas tintas?
- E o que é uma vaginal, afinal?
- São as que se bipam à bip.
- Por trás? E o ponto G?
- O ponto G não existe.
- Ande dias e dias à procura do ponto G e não encontrei. Tudo passado a pente fino.
- E as que se bipam por todo o lado?
- Tantas namoradas que eu já tive e que nunca se biparam...
- Nunca aconteceu dizerem-me isso.
- Se calhar têm vergonha.
- A maior parte das mulheres não finge.
- Há muitas que fingem.
- Não enganam ninguém.
- Não enganam? Nós é que não enganamos ninguém.
- Tive uma namorada com ejaculação precoce. Bipava-se logo.
- Isso é muito prático.
- Se gostas de bipas de meio minuto.
- E preciso saber aguentar.
- Isso é outro tema. Como se aguenta?
- Estou a chegar a uma idade em que consigo aguentar meia hora.
- Que idade é que tens, para eu saber quando é que vou conseguir lá chegar?
- É uma questão de disciplina.
- Meia hora? Então é porque estás velho. Eu só bebendo muito é que consigo.
- Não consigo controlar-me é se estiver com os copos.
- Há imensas coisas. A coisa pode ficar por ali imenso tempo. Converso.
- Pensas no cão?
- Eu penso em batatas podres, em lixo.
- Eu penso nos três anos de impostos por pagar, no IV A.
- Eu penso que estou a andar de bicicleta.
- Eu também!
- Este é o daquela frase "As mulheres são todas umas bip e é por isso que a gente gosta delas." É uma boa frase.
- Ainda por cima é verdade. Eu sou testemunha.
- Que é que fazes com uma gaja que está com o período?
- Faço a mesma coisa.
- Eu já fiz, mas já não faço.
- Eu fiz por engano.
- Não viste, estavas às escuras.
- Fui gozado por um amigo meu quando saí do quarto. O gajo disse que eu tinha sangue no nariz.
- Quando éramos putos, havia aquela coisa que era de homem um gajo não fazer bipadas. Aquele dizia "ninguém faz, ninguém faz, mas a verdade é que elas aparecem feitas".
- É verdade. Há 2 tipos de homens: os bipeiros e os mentirosos.
- Qual é a idade que acham melhor?
- Com as muito novas não se passa nada. Gostam de bipar mas não sabem.
- As melhores, as que eu gostei mais, foram as que já tinham sido casadas.
- Ora bem.
- De longe as melhores.
- As melhores são aquelas que um gajo ensina.
- Há uma coisa que hoje me cansa. A juventude. Vejo os putos passarem bêbados e lembro-me de quando tinha 18 anos. É uma altura que não tens...
- Isso é porque estás velho e a tentar justificar.
- Não, não estou velho.
- Desculpa. Um gajo aos 14 anos anda permanentemente...
- Mas dá menos...
- Dá muito mais. Nem tem comparação. Aos 18 anos, eram 11 e 12 por dia.
- Bipias?
- É triste mas é verdade.
- Não gostam nada.
- Não, eu acho que é preferível um gajo partir um armário.
- Isso é mais o estilo delas. Um gajo chatei-as e elas começam a partir as tuas coisas.
- Eu levo é muito estalo. Nunca dei, mas já levei uns valentes.
- Eu também. Já levei muitos.
- Até fiquei traumatizado.
- Que engraçado. Eu nunca levei.
- Eu também não.
- Eu já levei.
- Eu também.
- Devo ser um gajo porreiro. Nunca levei nos cornos.
- Um gajo quando bate é à bruta, não é?
- És obrigado. Dizes: "vai-me doer mais a mim do que a ti".
- Gostam de ser maltratadas na cama e bem cá fora. Essa é a combinação ideal.
- Como deixar uma mulher?
- Eu tenho lá uma em casa.
- Eu sou cobarde, quando quero deixar uma aproveito a primeira discussão para exagerar no tema de maneira a ser a última...
- Mas consegues que seja a última?
- Consigo...
- Eu já fiz isso mas sou muito efémero. Volto atrás.
- Eu sou totalmente cobarde... Se uma mulher me telefona e me pergunta "gostas de mim?” respondo “claro que gosto”.
- Eu faço com que sejam elas a deixar-me. Torno-me chato, tão chato, que são elas a deixar-me.
- A melhor maneira de deixar uma mulher é arranjar outra.
- Já repararam que numa relação prolongada com uma mulher, quando alguma coisa vai mal, a primeira coisa que ela faz é fechar as pernas?
- Nós podemos estar zangados, andar à porrada com elas, embebedar-nos, podem até pôr-nos os cornos - no dia seguinte, ou na hora seguinte, estamos em cima dela.
- Somos básicos.
- Ela, à primeira, arranja dores de barriga, de cabeça, problemas no trabalho...
- E a partir daí sabes quem controla? É ela.
- Um gajo quer sempre bipar. Um homem quando se zanga ou faz as pazes quer é bipar.
- As mulheres dizem que não. Que é violento. Querem ternura. A ternura é o cancro dos anos 90.
- Já fui gozado quando estava zangado. Um gajo fica mal visto e perde a posição moral.
- Eu entalo a bip no elástico das cuecas para não dar parte de fraco.
- Tu gostas mesmo de estar com elas.
- Gosto.
- Eu venero-as.
- Gosto muito da psicologia feminina.
- Psicologia feminina?
- Básica, previsível, violável.
- O que é que as mulheres realmente querem?
- Agarrar um gajo. Convencem-se a gostar de um gajo.
- Querem sempre casar-se. Mesmo quando dizem que são independentes.
- Querem estabilidade.
- Querem melhor.
- Depois de terem sido casadas pela primeira vez, de sentirem a dependência, querem é independência.
- Eu acho que somos todos cavalos. Elas apostam. A meio do percurso dizem: "Este cavalo não vai a lado nenhum". Divorciam-se e mudam de cavalo.
- Gosto da metáfora.
- Uma mulher bonita e inteligente arranja sempre quem a sustente.
- Porque é que um homem precisa de muitas e uma mulher precisa de um homem só?
- E porque é que elas não têm amigas?
- Odeiam amigas.
- Há uma coisa que me entristece imenso. É que a mulher é o único animal que quando está bem muda-se.
- São muito práticas.
- Acham que somos todos uns atrasados mentais e que nos divertimos com coisas superficiais.
- Têm ciúmes do convívio masculino.
- Divertimo-nos imenso. Somos capazes de rir com uma coisa completamente primária.
- Não sabem ser primárias como nós. Os nossos amigos são sempre os seus inimigos.
- Não acreditam que se esteja na conversa até às sete da manhã.
- Acham logo que um gajo esteve no engate.
- Outro tema. Fidelidade. Eu já fui.
- Eu também já fui. Mas por cobardia.
- Eu tenho ciclos.
- Toda a gente tem. Não se é fiel por princípio. Acontece.
- Nada entre um homem e uma mulher é uma questão de princípio.
- Fico chateado quando vejo as antigas namoradas com outros.
- Eu não porque elas estão sempre a olhar para mim.
- A propósito de fidelidade. Já fui fiel durante muito tempo e fazia ponto de honra em sê-Io.
- Eu sou fiel de coração. Gosto mais de bipar com uma gaja do que com as outras todas juntas.
- Os homens são fiéis com o coração, as mulheres com a bip.
- E porque é que as mulheres gostam de nós?
- Eu parto de um princípio de honestidade.
- Ele rasga-Ihes as cuecas. Tem mais graça do que "Eu parto de um princípio..."
- Porque é que elas gostam de mim? Não sou bonito, não sou bem parido, não sou nada. Tenho um certo charme...
- Gostas sinceramente delas.
- Esforço-me imenso. Sou um artista. Mando flores, etc.
- Gostam de mim como companhia, tipo companhia de circo.
- Eu faço-me de parvo.
- Acho que gostam de mim porque lhes desperto o instinto maternal.
- Eu também sou artista de circo. Só que faço de palhaço. Tenho sempre uma expressão muito triste. Enternece imenso. Apresento-me sempre como uma alma infeliz.
- Mas se um gajo as faz rir é meio caminho andado.
- Acho importante fazê-Ias sentir, logo ao princípio, que vão ser bipadas daí a algum tempo.
- Eu acho que gosto muito delas.
- E é por isso que elas gostam de ti.
- Eu venero.
- Eu acho que somos doentes.
- Este problema não tem saída.
- Penso sempre que uma mulher boa que não esteja nas minhas mãos é mal empregue. Dá-me angústia.
- Há uma solução. É ter um objectivo. Não é possível bipar todas as mulheres do mundo mas deve-se tentar.
- Sabemos que não conseguimos gostar de uma só.
- Quantas gajas é que cada um de nós já bipou ?
- Eu nunca consigo fazer uma lista.
- Haverá vida para além da mulher?"

in K, nº3, Conversas de ir ao Bip, Dezembro de 1990

Segunda-feira, Outubro 06, 2003

Há gente para tudo: O pé




Nunca se sabe onde é que as coisas podem ir parar, nunca digas desta água não beberei, nunca digas nunca, e por aí fora. Enfim, estas frases explicam, com a simplicidade insubstituível do saber popular, o objectivo destas páginas. Propomos revelar erotismos alternativos ou de apoio, para vossa informação ou, quem sabe, realização pessoal. Queremos que os nossos leitores saibam que há gente por este mundo fora que não consegue atingir os prazeres sublimes da carne de uma maneira clássica ou canina, como a maioria de vocês estão habituados. Há sempre uma outra maneira de o fazer que é desconhecida, seja por juventude, por ignorância, por falta de educação, por demasiada saúde ou doença até dizer chega.

Não acreditamos que dentro de nós exista «de tudo um pouco» mas sim que todos têm a sua perversãozinha favorita. Muitas vezes não passa de um sonho inocente nunca realizado mas sempre envergonhado.

Algumas das formas que vos apresentaremos talvez vos choquem, vos façam rir ou vos surpreendam por vê-las incluídas nestas páginas. Não importa. O nosso dever é não vos esconder nada e ajudar-vos nessa terrível batalha pela felicidade. E quem sabe, talvez, a partir destas páginas possam começar uma nova vida.

A OBSESSÃO com o pé duma mulher, como em todas as obsessões, não trata do que o pé pode fazer mas o que se pode fazer com ele. A resposta é sempre a mesma: tudo. A fixação numa parte da pessoa desejada faz com que toda ela seja essa parte. Os padrões de beleza ou de estímulo variam de acordo ao nível do sujeito. Muito provavelmente quanto mais civilizado seja o fetichista (há gente que os chama por esse nome) mais procurará uma beleza selvagem, um sabor sem tratamentos filtrantes, natural, mais ecológico. Outros, mais classe média, exigem no seu objecto de desejo elementos auxiliares como unhas pintadas, limpeza cuidada, Fuss-Frish, Dr. Schol, etc.

Da mesma maneira que não podemos dissociar os seios do decote, os sapatos fazem parte do universo erótico do pé.

Não sabemos quem inventou o salto alto. Não faz mal. É o que menos interessa neste momento, embora aqui rendamos homenagem ao seu génio. Haverá algo mais perfeito do que um pé num ângulo maior de 45°, como que a tentar levitar? Poder-se-ia descrever o perfeito equilíbrio de um pé dentro dum sapato de salto agulha?

Aliás, não é só o salto alto. São também as botinhas com os seus intermináveis cordéis, ou as botas de montar que apesar de masculinas e austeras, não nos conseguem enganar: sabemos que dentro delas estão uns pezinhos delicados e quentinhos à espera de outro conforto, talvez mais fresquinho, que só nós podemos oferecer.

As sandálias são o oposto às claustrofóbicas botas. Nelas podemos apreciar quase todo o esplendor dessas deliciosas extremidades. Elas são como esses decotes arrogantes que vivem no limite da sua própria existência. Não esqueçamos aqueles sapatinhos chamados «Sabrinas», que apenas cobrem a ponta dos pés e nos mostram com impudor o nascimento de cada um dos dedinhos, como que pedindo ajuda para sair...

Os pés de uma mulher não necessitam de nada mais do que alguém que aprecie a beleza intrínseca e prazer profundo que albergam.

As suas delicadas e firmes curvas, a sua harmoniosa distribuição de partes macias e ásperas, fazem deles uma fonte inesgotável de alegrias latentes, prontas a explodir.
Adoradores dos pés, tendes razão.

in K nº17, Há gente para tudo - Hoje: O pé, A. J. Rafael, Fevereiro de 1992

Quando ele tinha 12 anos


imagem: Teresa Ferrand



Um interessante artigo acerca das influências políticas de um dos membros mais influentes e polémicos do actual governo. Vale a pena recordar e comparar. Sugestão de publicação por Carlos C.C.C. do Contra a Corrente

“Lembro-me perfeitamente. Como se fosse hoje. Vasco Gonçalves apareceu na televisão mais despenteado do que nunca. Parecia sentado numa cadeira, mas na verdade deitava-se nela. Fazia gestos brutos e metralhava palavras de irritação geral com o mundo. Havia baba e raiva. Ele coçava-se e a câmara tremia. Punha e tirava os óculos ao compasso dos amores e dos ódios. Era uma cena de pura violência política no Estado à beira do colapso.

Eu tinha onze anos e espantei-me. Desde pequenino ouvia falar de política em casa, vagamente no colégio dos jesuítas, às vezes na missa. O meu pai achava que a vida faria sentido para mudar o mundo, a minha mãe suspeitava que a desordem do mundo podia dar cabo da nossa vida. Como é natural, eu não tinha opiniões, só impressões. Nem sabia de razões, só de emoções.

A aparição do companheiro Vasco teve o efeito de me decidir. A imagem dele faz parte da minha memória do mal. Porque há sempre um momento, sei que Vasco Gonçalves teve a maior importância na minha iniciação militante. Se a primeira vez é importante, ele foi a minha primeira vez em política. Podia tê-lo seguido e ficaria do lado de lá da barricada: talvez fosse hoje um desses homens de esquerda que todos os dias matam a sombra, apagam o lastro e gozam o sistema. Mas não. Devo a Vasco Gonçalves o facto de ser uma criatura irremediavelmente de direita.

Olhei para ele e fiquei contra-revolucionário. Daí para a frente, passei a desconfiar dos militares e a detestar o comunismo. Quanto aos militares, façam lá o que fizerem as fardas oficiais, quero-os longe. Quanto aos comunistas, levei tempo a digeri-los. Só agora consigo respeitar um camarada disposto a morrer camarada: é um facto mais digno e humanitário do que a massificação da dissidência. Não passou mais do que um mês. O Império desapareceu num ápice e Portugal tornou-se na pequena República de moda para fotógrafos, sociólogos e curiosos barbudos. O socialismo irreal nascia cá, por aqui se praticava o perfeito suicídio ocidental. Direita não havia: o último mito foi o monóculo de Spínola, homem que se celebrizou por ir à televisão anunciar que, estando o país a saque como estava, ia-se embora como foi.

A burguesia tratou de salvar os haveres mais secretos e partiu. No dia em que eu fiz doze anos ganhei um direito que já não se usa: podia filiar-me num partido. Fui a correr pedir uma ficha no grémio juvenil dos laranjinhas. Como se fosse um escuteiro de Sá Carneiro. Vi por lá uma fotografia de Marx e trouxe para casa um livrinho de Bernstein. Não gostei do que vi, nem entendi o que li.

Estranhei e por momentos hesitei. Mas não havia muitas opções. Atribuo a um conceito de educação nunca ter acreditado numa só palavra que Mário Soares dissesse. Enquanto as tias que sobravam iam de vison posto para os comícios dele – ‘se isto não é o povo, onde está o povo?’, perguntavam elas – eu achava-o leviano como não se pode ser e mentirolas como não se deve ser. Quanto a Freitas do Amaral, era difícil ouvi-lo nesse tempo. As vezes que o ouvi, parecia-me um bispo; e soava-me de menos, porque uma contra-revolução não se faz pedagogicamente.

Escolhi Sá Carneiro por uma irracionalidade lúcida; e por exclusão de partes. Devo a Sá Carneiro duas coisas: ser democrata e não gostar de política. Na idade que eu tinha e no estado em que o país estava, a tentação natural era tornar reaccionário. Mas Sá Carneiro, a quem segui sem me interrogar, jogava por fora do sistema e por dentro do regime. Marcou as fronteiras do que a direita portuguesa devia ser sempre e nunca mais foi: não há compromisso com a esquerda do sistema nem há compromisso à direita do regime. Era de uma solidão radical, facto dez vezes preferível ao consenso universal. Tinha sinais naturais de classe e por isso é que não parecia frequentável para a maioria dos amigos e inimigos. Conseguiu uma coligação raríssima: era um homem de dizer o que pensava e ao mesmo tempo era um político de pensar o que dizia. E coincidia. Morreu em campanha mas nunca se mortificou pelo Estado.

Nisso, era exemplar. O costume bem conservador e bem possidónio em Portugal é que a política se faz por sacrifício e com sofrimento. Sá Carneiro era um profissional, gostava de jogar e punha tudo em risco. Provou a toda a gente que a direita podia governar Portugal e provou a Portugal que a direita podia ser moderna.

Já passaram muitos anos e Sá Carneiro ainda é a última prova de ambas as teses. Pergunto-me se não foi uma ilusão. Como a águia real no país dos corvos.”

in Revista K, nº1, Quando eu tinha 12 anos, Paulo Portas, Outubro de 1990

À luz do Sul



Alguém bate insistentemente à porta de um dos quartos do Algonquin Hotel, em Nova Iorque. Não há resposta, só um silêncio absoluto. Nova insistência, novo silêncio. Alguém desce as escadas, precipitadamente, e chama o recepcionista do hotel. Os dois dirigem-se ao quarto, com a chave-mestra. Abrem a porta. As janelas estão abertas, e o vento gelado daquele Inverno percorre o quarto livremente. A cama não foi utilizada. Há um cheiro intenso, desagradável e indefinido. Parece uma mistura de suor e álcool estragado. Várias peças de roupa estão espalhadas nos sítios mais improváveis: um irrepreensível casaco de tweed no candeeiro de cabeceira, umas calças em cima de uma cómoda, uma camisa de linho creme em cima do riquíssimo tapete do quarto. Apenas se vislumbra um sapato, castanho escuro, atirado para um canto. Ao lado do aquecimento central está um homem deitado de bruços, vestido apenas com uns calções. Nas costas apresenta uma queimadura que parece ser grave. O homem não se mexe, mesmo quando o abanam e o procuram acordar. Não responde até ao som do seu nome. O maior escritor americano do seu tempo estava em coma alcoólico, outra vez.

Este episódio de 1937 não foi o único nem o primeiro na vida de William Faulkner. O prémio Nobel de 1948 só teve o azar de não poder ser um alcoólico anónimo, mas por outro lado, nem o quereria ser. «Civilization begins with destillation», gostava ele de se citar vezes sem conta. Na vida e na arte de Faulkner, o álcool teve um papel mais importante do que fornecer o pitoresco das histórias que dele se contavam: a pouco e pouco, destruiu-as a ambas.

Olhando para a infância do escritor e para a história da sua família, quase que se lhe poderia prever este destino. Faulkner nasceu Falkner, sem «U», no dia 25 de Setembro de 1897, na cidade de New Albany, Mississipi. Foi o filho primogénito de Maud e Murry Falkner. A sombra da história familiar - sobretudo a figura do bisavô William Clark Falkner, conhecido como «Old Colonel» - e a pressão social que era pertencer a uma família respeitável do Sul em plena crise de terceira geração vão marcar toda a personalidade do escritor, ao mesmo tempo que lhe dão a base de quase toda a sua obra.
O coronel William Clark Falkner foi um homem notável. Representou o homem do Sul característico, uma mistura de guerreiro, cavalheiro e aristocrata. Foi plantador, advogado, herói da Guerra da Sucessão, político, escritor, e um dos primeiros homens a desenvolver o caminho-de-ferro naquela zona do Mississipi. Aos poucos, as histórias que dele se contavam iam-se transformando em lenda, omitindo o feitio violento e até cruel que possuía. Alguns dos homens que com ele combateram na guerra civil trouxeram relatos de atrocidades cometidas em inimigos e subordinados. Mas os mitos são sempre perfeitos, e o Sul, depois de destroçado, precisava de mitos. A morte violenta do Old Colonel - assassinado a tiro na rua por um sócio de negócios - só serviu para confirmar a lenda e estabelecê-la como uma referência difícil de superar.

William Faulkner cresceu ainda sob a memória do velho coronel, e das histórias que dele se contavam. Viu o desespero de um pai impotente para estar à altura de tão ilustre antepassado, a vaguear de emprego para emprego com pouco mais do que um nome para sustentar a família. Murry Falkner sempre se sentiu um homem falhado, sobretudo depois da perda do emprego em Ripley. Quando se mudou para Oxford com a família, em 1902, era já visto pela população local como a ovelha negra dos Falkner de outrora. A medida que o tempo passava, Murry afundava-se cada vez mais num mundo só dele. Dizia apenas as palavras que tinha a dizer, e proibia terminantemente qualquer tipo de conversa durante as refeições. Os silêncios só eram cortados pelas críticas ásperas da sua esposa Maud, uma mulher ambiciosa, orgulhosa do nome de família do marido mas envergonhada pela sua incapacidade.

Maud queria futuros mais brilhantes, e dizia-o a um marido derrotado. Murry Falkner só estava feliz quando passeava pelas florestas do Mississipi, que conhecia como a palma das mãos, e quando bebia. O jovem Bill e os seus irmãos conheceram desde muito cedo as peregrinações à chamada Keeley Cure; viram, vezes sem conta, o seu pai ser levado em braços, inconsciente depois de uma bebedeira. Era um ritual que a mãe os obrigava a assistir, como aviso futuro para os filhos e uma humilhação mais para o marido. A Keeley Cure não era novidade para a família Falkner, porque já o pai de Murry a tinha conhecido: era um método arcaico de cura para o alcoolismo, consistindo basicamente na injecção de uma substância que produzia repugnância ao álcool. Como é previsível, este tipo de terapia tem resultados muito limitados, já que uma vez passado o efeito da droga, o alcoólico recomeça a beber. A sua única e pequena vantagem era a de que permitia a sobriedade completa e quase imediata.

Vivendo no meio de um pai falhado e de uma mãe ambiciosa, começa a crescer em William Faulkner uma tendência para o silêncio e a autopunição. A bebida chegava a seguir.

A cultura sulista encarava o álcool como parte integrante do ser homem; daí que ninguém estranhou que aos dez anos o jovem Faulkner aparecesse, por mais de uma vez, completamente embriagado. Toda a gente via isso quase como um ritual de iniciação para um rapaz do Sul, e tinham razão; havia a tradição dos heeltaps, os restos de bebidas servidas nas ocasiões sociais, que eram dadas às crianças; e também as caçadas ao veado, onde o bourbon circulava livremente entre homens de todas as idades. Só que o hábito de beber ia ficando cada vez mais forte em Faulkner, enquanto que a sua resistência ao álcool aumentava dramaticamente. Eram os primeiros sinais de alcoolismo.

Para além da bebida, Bill procurava refúgio e afeição nas histórias que lhe contava Mammy Callie, uma velha negra que tinha sido escrava. Faulkner começou a ouvir as primeiras descrições das paisagens e das almas a que iria dedicar o melhor da sua obra. Outro dos seus momentos favoritos era quando estava com a avó materna, senhora de alguma cultura, que o ensinou a desenhar e lhe deu a conhecer alguns escritores. Entretanto, as suas relações com os pais degradavam-se, sobretudo com o pobre Murry, que Faulkner secretamente culpava de ausência e falta de amor. Não havia confrontação directa, porque a personalidade do escritor era mais dada a silêncios e omissões. E Faulkner via-se cada vez mais atraído pelo fantasma do bisavô. Na escola já respondia que queria ser escritor «like my great granddaddy»; recomeçou a fumar o cachimbo do Old Colonel; e resolveu definitivamente ser o descendente digno do seu antepassado ilustre. Tudo isto só o distanciava do pai, e esta relação irá mantê-la até à morte de Murry.

A autopunição foi uma constante na infância e adolescência de Faulkner. Com a sua vontade desesperada de imitar o bisavô, o escritor via-se subitamente consciente das suas limitações físicas. Para começar, era baixo, em contraste com o gigante que tinha sido o seu antecessor; depois, as suas feições eram parecidas com as da mãe, coisa que para um varão sulista o deixava um bocadinho menos bem cotado. A sua resposta foi característica do seu estado de espírito: para reforçar a sua pequena estatura, passou a vestir roupas muito apertadas; e mesmo quando a mãe o obrigou a vestir, todos os dias, um colete de tela que lhe endireitava as costas e supostamente lhe concedia um andar mais digno, Faulkner não emitiu uma única queixa - apesar das dores tenebrosas que sentia.

«Tenho pouca paciência para factos.» Ao mesmo tempo que formava a atitude que haveria de manter para sempre com desconhecidos - reserva ostensiva, misturada com uma educação do Sul -, Faulkner começa também a dar os seus primeiros passos na sua formação literária. Os seus primeiros fascínios são poetas decadentes de fim de século, como Swinburne e Baudelaire. São eles que lhe dão o estímulo para escrever poesia e o desejo definitivo de ser poeta. Para além disso, fornecem-lhe a justificação cultural para o seu hábito alcoólico que aumenta a olhos vistos: Faulkner vê-se como mais um seguidor da tradição dionisíaca dos artistas, em que as substâncias tóxicas apenas servem para aumentar a percepção do criador, dando-lhe a descobrir novos mundos que o consciente não pode atingir. «Embriagai-vos! De vinho, de virtude, de poesia - à vossa escolha!", escreveu Baudelaire. Faulkner escolheu o primeiro e o último.

É um período de grande esteticismo, em que o jovem William segue a imagem dos seus ídolos literários até no modo de vestir - Faulkner torna-se um dandy, um personagem que toda Oxford conhece.

A par com esta sofisticação nos modos e na aparência, Faulkner convive com os bêbados da cidade, ouvindo-lhes as histórias e criando ele próprio as suas. Sempre foi e irá ser um contador de histórias, e não havia nada que lhe desse mais prazer. Este hábito manteve até ao fim, sendo por isso muito difícil ainda hoje, passados 30 anos da sua morte, perceber se alguns episódios da sua vida são verdadeiros ou não.

Uma coisa é certa: os episódios heróicos da sua estadia na British Canadian Air Force fazem parte das grandes invenções do homem que disse um dia que tinha «muito pouca paciência para os factos». Tudo se deve ao tal desejo de ser um gigante. Quando os Estados Unidos entram na I Grande Guerra, Faulkner dirige-se imediatamente ao centro de recrutamento mais próximo. Mas a sua pequena estatura, os seus hábitos alcoólicos e a sua compleição fraca não o qualificam para ser soldado. É rejeitado. Foi um golpe muito duro para quem sonhava com feitos épicos. Faulkner vê-se de repente só: sem família, sem amor - a namorada e finalmente futura esposa, Estelle Oldham, ia casar-se com outro - e com pouquíssimos amigos para além do seu tutor e defensor Phíl Stone, Wílliam Faulkner resolve por fim abandonar o passado - carrega o apelido com um «u» e adquire um sotaque inglês.

Nesta figura, parte para Nova Iorque com documentos falsos e dirige-se a um departamento de recrutamento da RAF. Provavelmente devido à falta de voluntários, é aceite e destacado para a base de Toronto. Quando a guerra termina, o cadete Faulkner ainda lá estava. Nunca chegou a voar.

Isso não o impede de voltar a Oxford, Mississipi usando a farda de gala da RAF e coxeando de uma perna. Quando lhe perguntam o que lhe aconteceu, descreve um estonteante combate aéreo que nunca teve lugar. Irá arrastar esta versão e a falsa perna aleijada até 1924.

Descobertas. Finalmente é publicado The Marble Faun, a primeira obra de Wílliam Faulkner, ainda decidido a ser poeta. É mais uma colecção de citações literárias do que um poema, mas reflecte todo o processo «educativo» a que Faulkner esteve sujeito: Keats, Swinburne, Eliot, Houseman, Verlaine e Mallarmè. Felizmente, o escritor descobre que não é essa a sua vocação. E em 1927, faz a grande descoberta da sua vida: a sua arte está em contar como ninguém o seu «little postage stamp of native soil». Nasce aqui o demiurgo do Mississipi, o homem que modela como ninguém «a agonia e o suor do espírito humano». Daquelas florestas, daqueles pântanos, Faulkner cria a sua galeria de pais ausentes, mães autoritárias e cavaleiros falhados como o Quentin Compson de The Sound and the Fury. É um mundo de escape, de dor e redenção pela morte ou pela memória. São forças que vêm de dentro a chocarem contra as pressões sociais e externas. Faulkner é enfim o provinciano universal, «a taler and a teller» que escreve obras-primas como The Sound And The Fury, Sanctury ou Absalom! Absalom!.

Mas o talento não resiste ao álcool. A partir de 1940, tudo o que Faulkner produz está abaixo do seu nível - exceptuando os argumentos de À Beira do Abismo e Ter e Não Ter. Bebe cada vez mais e não faz segredo disso. O seu grande amigo Howard Hawks leva-o mais de uma vez para casa nos braços, em segredo para que o escritor não perdesse o seu emprego em Hollywood.

Em 1937 já começou a necessitar de uma infusão diária de álcool: agora, as idas e vindas da desintoxicação vão-se tornando corriqueiras. A filha Jill, numa tentativa desesperada de não o deixar beber num dos seus aniversários, implora-lhe para não tocar no bourbon nesse dia. Faulkner responde, seca e educadamente: «Minha querida, ninguém se lembra da filha de Shakespeare».

Apesar das alucinações e dos ataques de histerismo serem frequentes - com o escritor aos gritos e com medo da «aviação alemã» -, Faulkner não se separa do seu copo de whisky com água, que mantém ao lado da máquina de escrever. Depois de uma grande bebedeira, toma sempre duas ou três «recovery drinks» que o devolvem a um estado de semi-embriaguez.
Episódios como os do Algonquin Hotel tornam-se comuns. A saúde fica cada vez mais debilitada, como o seu casamento com Estelle Oldham, outra alcoólica. As amantes que mantém apenas servem para lhe escutar as récitas de The Phoenix and The Turtle, de Shakespeare - um momento clássico das suas bebedeiras. Mas ainda diz a Lauren Bacall: «When I have a Martini I feel bigger, wiser, taller; when I have two, I feel superlative; when I have more, there's no stopping me».

Era tarde de mais para o parar. A criatividade tinha secado e aquilo que ele julgava ser o seu «big book» - A Fable, uma história que conta o regresso de Jesus e os doze apóstolos como soldados da I Guerra Mundial - é mal recebida. Hemingway diz: «His last book a Fable isn't pure shit. It is impure dilluted shit».

Faulkner já não se preocupava. Desde os anos 50 que se via como um proprietário e não como um escritor. Encontrava alegria nas caçadas à raposa, que insistia em participar apesar de estar constantemente bêbedo.

No dia 7 de Julho de 1962, depois de outro tratamento de desintoxicação, morre o maior escritor americano do seu tempo. William Cuthbert Faulkner morreu no dia do aniversário do seu bisavô.

in K, nº20, Ídolos, À luz do Sul, Nuno Miguel Guedes, Maio 1992

Choramos que nem umas Madalenas e esta é a razão

Sent: sáb 04-10-2003 20:27

subject: Almost better than the real thing!

Está quase melhor do que a própria revista!
um abraço e obrigado ao(s) autores do blogue, ligeiramente emocionado.

Nuno Miguel Guedes

Sábado, Outubro 04, 2003

Os homens que vivem dos mortos



Fotografia: Inês Gonçalves

Um homem com 60 anos de idade está sentado numa agência funerária à espera de ser atendido. Tem o boné ao colo. Parece mais desconfortável que triste. Vem um homem de fato cinzento, senta-se à frente dele. O velho explica que lhe morreu a filha. Em pouco menos de 5 minutos fica tudo tratado. A conversa oscila entre duas grandes questões: os desejos da falecida e os custos. «A minha filha disse que gostava de ir para o gavetão», diz o velho. «Bem», diz o agente, medindo cada palavra, «na medida do possível, procuramos sempre ir de encontro aos desejos do ente querido.

Posso dar-lhe uma ideia dos custos envolvidos...» O velho encoraja-o a continuar. O que ele quer é saber quanto é que lhe vai custar respeitar os desejos da filha. Sabe que não tem a mínima intenção de contrariá-los.
«Claro que, se fosse para sepultura térrea». diz o agente, «baixava umas largas dezenas de contos, de 160 para 120...» Está a fazer de advogado do diabo, tentando o velho a poupar 40 contos. O agente sabe de antemão que o velho não vai trair a memória da filha. Mas sacrifica-se a ser testemunha da lealdade dele. Como em muitos outros casos, o agente funerário lembra a crueza dos factos e dos números, para que os familiares possam reconhecer sentimentos superiores em si próprios. Assim, é com satisfação que o velho se decide pelo gavetão. Mais tarde, poderá contar que o quiseram aliciar a fazer um enterro mais barato, mas que não cedeu.

Toda a conversa gira à volta de números. O agente informa que, caso queira um embalsamamento, terá de ser efectuado por um médico e o custo roçará os 160 contos. Os embalsamamentos são raros entre nós, mas são obrigatoriamente referidos, para efeitos de descrição. É como se os agentes funerários, para se defenderem da desconfiança dos clientes, fossem propositadamente minuciosos na descrição de cada parcela. Os clientes receiam serem desagradavelmente surpreendidos pela factura final, cujo montante seria encoberto pelo pudor que rodeia a morte.

Um pouco antes, por exemplo, o agente refere o custo do zinco com que as urnas são seladas, mas não deixa de justificar que, naquelas condições, é o material «a que a lei nos obriga», como quem diz que não é aqui que se poderá reduzir o custo do enterro. O preço do chumbo também é revelado. Quando se apresentam as tabelas, elas são extraordinariamente pormenorizadas. Tal como as urnas, cujo preço está mais claramente indicado do que numa loja de mobiliário. Uma urna de pinho, simples e digna, custa na Agência Barata, em Lisboa, 24.500$00.

Ao longo da conversa, o agente funerário, longe de evitar as questões, enfrenta-as com eficácia. Pergunta «Quando é que o corpo está disponível?» O velho diz que vai haver uma autópsia no dia seguinte e que quer estar presente enquanto decorre. O agente, sabendo que se trata de uma experiência terrível, faz tudo ao seu alcance para o dissuadir. Finalmente, alegando que pode ter de esperar o dia inteiro, consegue. «Do que precisamos», termina, «é da roupa da falecida.»

O problema das agências funerárias portuguesas é o mesmo da morte em si - é um problema de dignidade. A morte não é um acontecimento bonito, ou feliz, ou simples. É muitas vezes feio, complicado, trágico. Em Portugal, os agentes funerários são mal vistos e maltratados. Reduzidos a cumprir as tarefas que mais ninguém quer fazer - desde o preenchimento da Declaração de Óbito à barba do falecido - as leis portuguesas impedem-nos de melhorar os serviços.

As agências maiores e mais tradicionais vêem frustrados os desejos de se desenvolverem e de se aproximarem dos padrões estrangeiros, não conseguindo distanciar-se das centenas de pequenas agências que proliferam em Lisboa.

Se as grandes agências nem sequer câmaras frigoríficas têm para conservar os corpos que esperam transporte para o estrangeiro, guardando-os nas garagens, em simples sacos de plástico que têm o nome pseudo-religioso de «sudários», imaginem-se as condições das pequenas agências dentro e fora das grandes cidades.

Dentro de uma destas garagens, estavam vários cadáveres altamente infecciosos, cobertos de avisos de contágio, que aguardavam transporte para outros países. Num dos casos, os próprios empregados duma agência, perante o perigo, recusaram-se a tratar do corpo. A recusa foi aceite pela gerência. Os agentes funerários não têm qualquer formação médica que lhes permita precaverem-se dos perigos envolvidos, nem dispõem do equipamento técnico necessário. Quando são chamados para acorrer ao rebentamento de uma urna, ou são atingidos por líquidos projectados por um cadáver, ou têm de tratar um corpo cuja morte foi encoberta, arriscam a saúde, sem saber até que ponto.

Não existe, em Portugal, uma única escola de formação. O único manual é tão antiquado que é inútil. O agente funerário é obrigado a fazer, no fim do século XX, com toda a variedade de situações que surgiu, o mesmo trabalho que fazia há cem anos. Em casos excepcionais, como a desfiguração do corpo de uma grande figura pública, ou a trucidação de uma criança, em que se exige um mínimo de preparação cosmética, os agentes portugueses nada podem fazer. Só podem lavar, pentear, barbear e vestir o corpo. Se lhes é pedido um simples embalsamamento, têm de recorrer aos serviços de um médico-legista. É uma profissão humilhada. Sê-lo-á enquanto continuar reduzida às funções mais básicas, aberta a todos os que queiram trabalhar nela.

O agente funerário em Portugal é motivo de desconfiança e de desprezo. Quem «ganha a vida com a morte» terá sempre esse estigma. Porém, vê-se impedido de desenvolver os seus serviços. Num país civilizado, um agente funerário é um indivíduo que minimiza as consequências psicológicas, médicas e burocráticas da morte. É uma presença, senão desejada, útil. Aqui, é um abutre. No caso dos «agentes», mal apetrechados, tanto técnica como moralmente, que funcionam às portas dos hospitais ou estão em casa à espera dos telefonemas das enfermarias, e que aparecem vestidos de blusão de ganga e calças de bombazine, esses são autênticos vampiros.

O agente é muitas vezes recebido ao pontapé. A lei responsabiliza-o pelo preenchimento de um extenso documento chamado Declaração de Óbito, em que se contêm perguntas que facilmente irritam ou hostilizam o familiar de um falecido, tal como «Deixou herdeiros menores, ou sujeitos a inventário obrigatório ou providência tutelar, quantos?» e «Deixou bens?».

A reacção típica é a desconfiança. «Muitas pessoas recusam-se a responder às perguntas todas», diz um agente de Lisboa, «mas o pior é quando desconfiam que é o agente que está a querer saber a situação financeira da família do falecido, com intuito de melhor a poder explorar... Houve uma senhora que me acusou de estar a fazer contas de cabeça... Geralmente irritam-se, dizem que não sabem. Muitos acusam-me de bisbilhotice, de querer saber a vida toda eles... como se fosse eu que estivesse a fazer as perguntas!»

«É preciso ver», continua, «que somos indesejados. Quando aparecemos, por termos sido chamados, é como se fôssemos nós os anjos da morte. Em geral, os portugueses encaram o agente funerário como um estranho. Quantas vezes ficamos à porta de casa, à espera de sermos chamados para transladar o corpo. O pior é que nos habituamos a esse papel... Quando eles nos recebem mal, sentimos menos obrigação de ajudá-las...»

«Agarram-me os colarinhos e põem-me fora de casa», conta outro agente de ar...resignado, com quem falei. «As vezes agarram-se às urnas e gritam “Seus ladrões! Seus ladrões!“»

Em vez de serem acompanhantes, pessoas habituadas ao caminho que vai da morte à última missa, os agentes funerários são vistos como meros camionistas de corpos. «Somos postos de parte desde o início», conta um «moço» que começou a trabalhar há dois anos. «Há famílias que dizem que dá azar falar connosco. Como é que podem levar a mal o facto de não sermos afectados pela morte dum familiar, se nem sequer o conhecíamos? Mas levam.

Se, por acaso, temos um gesto de mais à vontade, ou se falamos baixinho, saltam logo para cima de nós. O drama é o agente funerário ser encarado como alguém que vem tratar do morto e não como um profissional incumbido de assistir os familiares...»

O gerente de uma das grandes agências de Lisboa contou-me vários casos em que foi repreendido, não por falta de cerimónia para com o falecido, mas por excesso. «Hoje em dia», diz amargamente, «a morte é encarada com maior frieza. Por um lado, é bom, porque as pessoas sofrem menos, ou perdem os complexos - nem queira saber a quantidade de senhores e senhoras de idade que aqui entram à procura de informações! Muitos deles querem tratar da própria cremação. Há uns 10 anos seria impossível...» Para um agente funerário português, a dignidade de um funeral exige um elevado grau de empenho sentimental. Uma cerimónia fria e formal arrepia-o. Porquê? «É uma questão de educação. Aqui há uma tradição de mostrar o sofrimento, mesmo quando é forçado, ou fingido...» Pergunto-lhe se está a falar das carpideiras, ou de coisas desse género. Não está. Mas mostra-se relutante em continuar. Explica-se: «Não é a mim que me cabe criticar os sentimentos das pessoas...» Incito-o a desabafar, mas ele, em vez de falar, cala-se, dizendo apenas «Desculpe, fui pouco profissional...» Quando volto a colocar a questão a outro profissional, noto a mesma renitência. Mas este é mais explícito: «As pessoas estão mais indiferentes à morte. Nem há o choque que havia. Hoje em dia, com as progressos da medicina. já sabem quem vai morrer e até quando...» Quis saber se achava que tinha havido uma mudança cultural. «Não é isso», responde. E é então que confessa: «Ultimamente, tenho encontrado casos que me deixam muito triste... Noutro dia, um familiar dirigiu-se a mim e perguntou-me se, para fazer um funeral, era preciso tanta porcaria...»

Todos os agentes contam histórias e funerais em que os familiares, por razões de heranças, mal conseguem esconder o contentamento. Na gíria da profissão, são as «festas de gravata preta», tipificadas pelo sobrinho a quem um tio desconhecido deixou uma fortuna. Mas esse é um fenómeno antigo. «Essas festas têm um lado humano», diz ele, «que não se pode esquecer. De vez em quando morre alguém que, em vida, fez mal a muita gente... São funerais muito concorridos. Custa ver os familiares a assistir àquela gente que vai lá só para ver... Um colega meu viu uma vez chegar-se uma senhora bem vestida de uma urna, olhar para o corpo e dizer, enquanto se afastava, para quem quisesse ouvir; “Está morto, graças a Deus!”». É quando perguntamos aos agentes funerários quais são as cerimónias mais dignas que eles revelam o que entendem ser a expressão mais correcta do sofrimento. São unânimes em escolher os funerais de frades e freiras. Os adjectivos recorrentes são «bonito» e «comovente». Um deles afirma: «É tudo cantado, cheio de gente... é das coisas mais bonitas que já vi.» Não deixa de ser sinal de sinceridade o facto dos agentes profissionais escolherem como mais bonitos os funerais em que têm menor intervenção.

Surge depois uma inquietação: há outros funerais bonitos? Respondem-me: «Bem, quando é uma criança que morre e sempre multo comovente.» Compreende-se então que, não só existe um investimento emocional e religioso por parte dos agentes funerários, como uma estranha identificação entre a beleza de uma cerimónia fúnebre e a carga sentimental da morte em causa. Quando se diz que é «bonito» o enterro de uma criança, diz-se que são bonitos os sentimentos que nele se exprimem. Mas não haverá algo de mórbido também?

Pode ser que sim. Vários agentes falaram dos casos de crianças que morrem trucidadas. Como não podem preparar o corpo, limitam-se a recomendar aos pais que não o vejam. Mas é raro o caso em que este conselho, obviamente sábio, seja seguido. Por muito traumatizante que seja a experiência de ver o corpo, para mais quando está irreconhecível, as mães insistem.
«Qual é a mãe», pergunta-me um veterano, «que é capaz de enterrar um filho sem lhe dar um último beijo?» Fica-se com a ideia que, no íntimo, os agentes funerários portugueses considerá-la-iam uma má mãe. O mesmo profissional disse-me ter recebido, na ocasião do falecimento de um velhinho, «a maior lição de amor que tive na minha vida». Ao ver como a viúva continuava a conversar com o corpo do marido, como se nada se tivesse passado, desatou a chorar. É um agente com anos de serviço habituado ao sofrimento, mas não se conteve. Foi quando a senhora o viu chorar que compreendeu o que tinha acontecido. Ela virou-se para ele e pediu-lhe que não a deixasse sozinha. Acabou por ir buscar uns vizinhos para cuidar dela para poder tratar o que tinha a tratar.

Foi essa a «maior lição de amor da minha vida». Percebe-se assim que, para ele, como para os agentes funerários dignos desse nome, a morte é um instante, por onde espreita a verdade que pode haver numa vida. O que comove não é a morte nem a ausência de quem morre - é a incapacidade de aceitá-la (ou acreditar nela) de quem fica.

Compreende-se assim que, para os nossos agentes funerários, a dignidade não é apenas uma questão de meios. É também, na cultura portuguesa, uma questão religiosa e sentimental. Noutras culturas, o agente funerário chega a acumular as funções de mediador religioso. Em Portugal essa ambição não existe. As práticas espectaculares dos profissionais dos EUA não são nem conhecidas nem respeitadas, como empresas comerciais respeitáveis, as agências funerárias portuguesas apenas procuram formar, com a Igreja e a família, uma humilde colaboração. Como profissionais da morte, são os que melhor conhecem as indignidades que sofrem os nossos mortos, nos vários lugares por onde passam. «A bandalheira está a aumentar», disse-me um agente, com quem falei no início de Novembro, alegando que no Hospital de Santa Maria as câmaras frigoríficas dos cadáveres estavam avariadas há mais de quatro meses.

Mas começam a estar cansados de protestar. Segundo dizem, «a própria terra está cansada». Nos cemitérios de Lisboa é quase impossível encontrar um bom talhão, onde um corpo possa ser saudavelmente consumido. Voltar a ser pó tornou-se um processo difícil e vagaroso. Antes de baixar à terra, o coveiro corta o zinco para acelerar o processo natural de decomposição, que idealmente demoraria cerca de 5 anos. Hoje a terra, na linguagem dos coveiros, «não trabalha bem» e leva mais 5 a 10 anos do que antigamente. Os agentes funerários, habituados a receber e a tratar os corpos em locais inapropriados e em péssimas condições, têm razão para desesperar. Hoje nem a própria terra onde nascemos sabe receber condignamente um morto.

Como disse o agente com quem falava, «É por ser tão fácil faltar ao respeito aos mortos que é preciso respeitá-los mais» Regressavam sempre à mesma preocupação profunda. Não era a falta de meios, ou a falta de dignificação profissional, ou a falta de simpatia por pane do público, que os preocupava mais. Era a frieza e a indiferença perante a morte que eles, como profissionais. começam a pressentir nos portugueses.

«Qualquer dia», disse-me um deles. «a morte é mais uma coisa que acontece à gente». Como profissionais da morte, nada os ameaça mais que a sua banalização. Se as pessoas se mentalizarem que um dia vão morrer os familiares. preparando-se lentamente para o luto, estão a diluir os desgostos no dia-a-dia. Quando alguém morrer não serão apanhados de surpresa. Estão preparadas. Não sentirão o susto de ter perdido alguém para sempre. Não haverá luto verdadeiro, saudade ou aflição.

Pode fazer-se um funeral digno sem ter meios. Mas não se pode fazer sem sofrimento, sem respeito, sem revolta, sem solidão. É por estas razões que os enterros mais bonitos e comoventes são, para os agentes funerários, os das freiras e das crianças. É porque neles a morte é mais evidente. Mais evidente para os homens. E mais evidente para Deus. É quase como uma prova de vida.

in K nº16, Os homens que vivem dos mortos, Miguel Esteves Cardoso, Janeiro 1992

Quinta-feira, Outubro 02, 2003

Palavras que nos faltam

A língua portuguesa é uma das línguas mais complexas que existe. Temos expressões e palavras para situações únicas, situações essas que outras línguas simplesmente aplicam a situações distintas umas das outras, apenas perceptíveis pelo contexto. Mas, às vezes, até nós Potugueses necessitamos de inventar novas palavras de modo a que certas situações sejam perfeitamente compreedidas. Aqui fica o primeiro de um manual de sobrevivência na sociedade contemporânea.


DESLIVO - Resto de uísque, gelo e água que fica no fundo do copo.
Ex. Não sejas forreta. Pede outra bebida. Andas há meia hora a bebericar o deslivo.»

ESCORRELA – Um muco nasal em fase de consolidação prematuramente retirado.
Ex. Os macacos. atiro-os pela janela do carro, mas as escorrelas, para não estragar os estofos. ponho-as nos bolsos.»

FECHA - Ruga que prolonga a costura dos testículos até ao ânus.
Ex. Andar de bicicleta macera-me a fechã.»

FRANÇO - Diz-se do mamilo que não se distende quando estimulado.
Ex. A Patrícia é boa na cama. Tem umas maminhas muito bonitas. mas não te aflijas que o mamilo esquerdo é franço.»

GUÓ - Transpiração peri-vaginal causada por colante.
Ex. Tens as virilhas assadas - é do guó.»

LANTEJA - Mulher com a qual só se convive em estado de avançada embriaguez.
Ex. Diz mal da Lucinda diz... Bebe mais quatro uísques e vais ver a lanteja que ela não é...»

LÍZlA (ou ALIZIA) - Diz-se da defecção que não deixa resíduos no ânus.
Ex. Como é que tu queres dar uma lízia se andas sempre no restaurante indiano?»

MIXÁLIA - Mistura erótica de saliva com exsudação vaginal.
Ex. Que bom! Os lençóis ficaram encharcados de mixália.»

PÂNZIO - Impureza sólida em forma de noz ou amendoim que surge nas fezes.
Ex. Já reparaste que os cães comem os pânzios uns dos. Outros?»

PÁRIMA - Gota pré-seminal que se forma na glande do marsúrio.
Ex. Desculpa lá. mas tens a tola do marsúrio toda parimada »

PRECOÇO - Ligeiro entumescimento do pénis sem aproveitamento prático.
Ex. O gato sentou-se no meu colo e, não sei se foi do calor, deu-me um certo precoço.»

RAVEJEIRA - Homossexual encoberto com mulher e filhos.
Ex. Porra, pá! Tens 58 anos, 3 filhos já crescidos, e ainda andas aí na ravejeirice!»

RELÚZlO - Rubor pós-orgásmico nas mulheres, geralmente no peito e pescoço
Ex. A mim não me enganas! Sem relúzio, não me convences.»

RÊPA - Pêlo púbico que se aloja na faringe ou entre os dentes.
Ex. Há quanto tempo estás com essa rêpa na garganta? Come um bocado de pão senão não consigo dormir.»

RETANCHADA - Coito violento mutuamente aceite.
Ex. Há quanto tempo não me dás uma retanchada?»

SURÚPIO - Barulho provocado expulsão de ar pela vagina.
Ex. Não me encanzines que eu não gosto de dar surúpios».

TARÚMBIAS - Seios inesperadamente volumosos e impantes.
Ex. Cuidado com as mulheres vestidas de preto. Geralmente ocultam grandes tarúmbias.»

TRAVENÉLIO - Impotência passageira facilmente resolúvel.
Ex. Não há travenélio que não passe com um bom bico.»

XALANDRA - O resto de um pacote de açúcar.
Ex. O empregado esqueceu-se do meu açúcar. Dás-me a tua: xalandra?»

in Kapa, nº12, Delírios, Palavras que nos faltam, Setembro de 1991

Quarta-feira, Outubro 01, 2003

Sexo e Sentimento



Masturba-se desde os onze anos? Tem uma "ligação" com a sua melhor amiga? Desconfia que a sua paixão tem Sida? A K responde. Escreva para Sexo e Sentimento - e espere que Vasco Pulido Valente o/a acorde...


Sr. Dr.: Aos 11 anos ganhei o hábito - que para certas pessoas é um vicio - de me masturbar. Sempre achei que era uma maneira não só de me satisfazer mas também de me manter activo sexualmente Penso que nunca perturbou a minha vida afectiva. Desde os 16 anos que, antes dum encontro com uma rapariga, eu me masturbo religiosamente. Para mim, é uma maneira de me preparar para o encontro. Assim, elimino qualquer urgência fisiológica e controlo a ansiedade que provoca todo o encontro que promete um desenlace feliz. Contudo, vou casar-me e tenho algumas dúvidas. Obviamente não necessitarei mais de me preparar, como antes. A minha pergunta é: Acha que poderei prescindir dum hábito que me acompanha há já 14 anos? Obrigado.
R. de Odivelas.

1. Sei lá "se poderá prescindir de um hábito que o acompanha há 14 anos"! Custa-lhe muito? Deixou de fumar? Que tal é a venturosa menina? Faltam-me factos. Existe aliás, uma diferença entre poder e dever; e uma segunda diferença entre dever e precisar. Quanto ao dever, se for membro de qualquer seita religiosa, consulte as autoridades. Por mim, não me oponho. Quanto a precisar, não precisa: a masturbação é cómoda, gratuita e relativamente rápida. Praticada em recato, não maça ninguém.
A ideia da masturbação como preparativo erótico tem os seus méritos e de facto, o casamento, tendendo a "eliminar a urgência", não promete com certeza um "desenlace feliz". Aliviado da "urgência" e da antecipação de felicidades, nada o impede de parar. Excepto, bem entendido, a falta de urgência e a antecipação de infelicidades. Torne a escrever daqui a seis meses.

Estou apaixonado por uma rapariga. Ela é a mulher da minha vida. Eu sei. O meu problema é que a vida que ela levou antes de me conhecer tem muito que se lhe diga (não, ela não era puta, se é isso que os srs. pensam. Em todo o caso, não o era duma maneira profissional). Simplesmente ela foi sempre livre, gosta de sexo e nunca diz que não. Agora é diferente Ela ama-me e eu estou seguro disso. O meu medo é que ela tenha Sida. Mas não tenho coragem de lhe pedir que faça um teste. Como a posso levar a fazer o teste sem a ferir?
L.F.C., Saldanha

2. Proponha-lhe fazerem o teste os dois.

Cara revista K: Moro em Almada e considero-me uma rapariga normal. Tenho vinte e quatro anos e sou casada, desde os vinte e um, com um rapaz trabalhador e muito meu amigo. (...) A única sombra que existe no nosso casamento vem de uma ligação que eu mantenho desde os doze anos com uma amiga de infância. Tudo começou por "brincadeiras" que fazíamos com inocência, mas enquanto que eu comecei a relacionar-me normalmente com rapazes e acabei por me casar, ela teve um ou dois namoros mas parecia sempre mais interessada em mim do que nos namorados. Nunca consegui acabar com esta ligação, que para mim é não só amizade mas também um prazer físico diferente daquele que tenho com o meu marido. E não consigo passar sem as carícias dela.
(...) Há dois meses contei tudo ao meu marido. Primeiro, ficou furioso, mas depois quis que eu trouxesse a minha amiga lá a casa para fazermos amor os três. Consegui convencê-la, mas quando tentámos ela não queria que ele lhe tocasse, só me queria a mim. Ele quis entrar nela à força e acabámos todos zangados. Agora não sei o que hei-de fazer, porque não quero perdê-lo a ele, mas também gosto muito dela. Passei a vê-la às escondidas do meu marido.
Carla Santos (pseudónimo)

3. Convença o seu marido a experimentar a persuasão. Explique ao seu marido os prazeres da contemplação. Demonstre ao seu marido as possibilidades da combinação. Se tudo isto falhar, mude de namorada ou de marido. Ou continue a ver a namorada às escondidas do marido. Só mais um comentário: não percebo a relevância, para o seu problema, do facto, admissivelmente desolador, de morar em Almada.

(...) Desde os dez anos que me masturbo acariciando-me e ocasionalmente atingia o orgasmo. Quando me casei, descobri que o meu marido não me podia dar orgasmos pela penetração e continuei a masturbar-me Agora sou divorciada. Uma amiga ensinou-me a usar um massajador eléctrico, com o qual consigo orgasmos violentos sempre que quero, mas quando me acaricio com a mão já não consigo excitar-me como antes.
Diga-me: fiz mal em usar o massajador? Prejudiquei ou posso prejudicar a minha saúde? Gosto tanto dele que o uso cada vez mais e não queria deixar de o fazer.
Anónima de Lisboa

4. Da mão ao massajador eléctrico, o progresso tecnológico é óbvio. Pelo caminho, ficou o massajador tradicional, com um homem à volta, difícil de limpar, de guardar e de pôr a trabalhar como e quando se quer. Além disso, o massajador eléctrico fica praticamente de graça e a manutenção do homem está cada vez mais cara, já sem falar nos sarilhos, nas preocupações, no tempo perdido e no desgaste do material.
Quanto à saúde vá ao médico. De resto, os meus parabéns. Só tenho pena que a ciência ainda não me permita a mim jantar beatamente no Gambrinus, com um "orgasmo violento" na carteira (ou no armário do quarto). Deve ser uma sensação inefável.

Cara revista Kapa, tenho um grave problema e não sei como o resolver. Nos últimos tempos, apaixonei-me por um homem que não consigo satisfazer. Por mais que o acaricie ele não tem erecção. Já tentei todos os métodos que um antigo número da revista Maria descreve, mas ele fica sempre na mesma, murcho e triste e eu também, porque assim não consigo gozar. Da última vez que tentei, meti-lhe o dedo no cu como me tinham dito e, em vez de se excitar, ele bateu-me com toda a força e gritou: "Julgas que eu sou paneleiro ou quê?"
Por favor, expliquem-me como fazer para conquistar o membro do meu homem!

5. Alguns conselhos parecem oportunos. Olhe bem para si, com muita atenção e em muito pormenor. Não esqueça nada. Se isso não der resultado, reveja urgentemente a bibliografia. Se nem com a nova bibliografia a coisa for, esqueça "o membro do seu homem" e dê provas de imaginação. Se não tiver imaginação, troque de homem
E, por favor, daqui em diante, não se introduza em parte nenhuma, sem sinais evidentes de que a querem lá.

Quando decidi escrever esta carta, percebi logo que não valia a pena enviá-la a quem quer que fosse. Tem valor por ter sido escrita e pronto. É só esse o seu valor. Fala da mentira. Vivo há seis anos com um homem de quem gosto muito. Quando um dia destes lhe menti, pensei em todas as outras vezes anteriores em que lhe tinha também mentido. Fiquei obviamente escandalizada mas sem conseguir explicar exactamente porquê. Parto sempre do princípio de que não se deve nunca mentir. As minhas mentiras não são mentiras terríveis. Desde coisas muito triviais até encontros que mantive com outros homens, sobre tudo isso eu descobri que podia mentir. E, escandalosamente, percebi que tal mentira pode ser muito mais benéfica do que maléfica, inclusivamente para a própria relação que quero absolutamente manter com o meu marido. É com ele que eu quero viver e é comigo que eu desejo que ele queira viver. Sempre pensei que quando mentimos secretamente a alguém acabamos, mais tarde ou mais cedo, por desconsiderar publicamente essa pessoa. Mas já não posso pensar assim. Não deixei nunca de sentir pelo meu marido a consideração que sempre senti. Pensei que a mentira era a desgraça da nossa vida; afinal, penso agora que pode ser uma maneira genuína de viver. Percebem agora porque vale tão pouco esta carta. Não vos escrevo a pedir conselhos, mas confiante apenas na vossa curiosidade e, se posso exigir tal coisa, na vossa honestidade. É pois por isso que vos envio esta carta.
M.H.M.

6. Esta sua carta devia ser distribuída a toda a população casada. Os casamentos acabam sempre quando se diz a verdade ou, pelo menos, "as verdades". Dizer a "verdade", ou as "verdades", a outra pessoa é o exercício mais cruel que jamais se inventou, com a possível excepção da tortura da pinça. Para muito boa teologia, o inferno é a verdade. A expressão conjugal "isto é um inferno" confirma a teologia e proclama que os esposos já não se amam o suficiente para se mentirem. Na mentira está a virtude suprema e salvífica da misericórdia.
Continue a mentir, minha querida amiga. E, sobretudo, nunca se esqueça que ele sendo um bom marido, também lhe mente a si.

in Revista K, nº8, Sexo e Sentimento, Vasco Pulido Valente, Maio de 1991

Ler hoje os clássicos



O Expresso editou no último fim-de-semana, uma nova versão d'Os Lusíadas, comentada por José Hermano Saraiva, e acho que não haveria melhor maneira de comemorar esta nova edição da grande epopeia Lusitana, do que publicando um artigo que figurava na revista K nº5, de Fevereiro de 1991, com alguns excertos comentados dos Lusíadas.


A QUESTÃO CAMONIANA

O abismo cada vez mais profundo que se instalou entre os autores clássicos e os leitores levou-nos a dar início a esta rubrica que pretende ser uma simples janela para esse universo maravilhoso e inexpIorado. Eis as versões actualizadas das mais belas páginas da nossa Literatura acompanhadas por uma explicação imparcial feita pelos maiores vultos da crítica literária.

Versão original
Matéria é de coturno, e não de soco,
A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;
Qual Iopas não soube, ou Demodoco,
Entre os Feaces um, outro em Cartago.
(Canto X, 8)

Versão actualizada

É assunto para dividir em turnos, senão há porrada. O que a gaja aprendeu na barragem; qual o rapaz que não sabe, de modo que pode entrar um dos Feios, mais outro do Cartaxo.

Explicação
O poeta apela à prudência. É do conhecimento geral que a senhora teve vários amantes durante a sua estadia em Castelo de Vide(?). Entretanto ter-se-á casado e fixado naquela localidade. É visitada frequentemente por grupos de antigos namorados, uns mais bonitos do que outros, vindos de todo o país em busca dos seus favores. É muito claro que o poeta se identifica com a figura do velho marido que se cansa de barrar o caminho aos inúmeros pretendentes da esposa. Farto de cenas de pancadaria à porta de casa, resigna-se à sua sorte. A beleza do poema está na forma como o marido, para reduzir o sentimento de ciúme que lhe provoca o porte dos mais garbosos e cosmopolitas, manda entrar um dos mais feios e um do rancho do Cartaxo.

Não será a culpa abominoso incesto
Nem violento estupro, em virgem pura
Nem meuos adultério desonesto,
Mais Cua escrava vil, lasciva e escura.
Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,
Ou de usado a crueza fera e dura,
Cos seus hua ira iusaua não refreia,
Poe, na fama alva, noda negra e feia.


Desculpem, mas a culpa não é do incesto, por muito abominável que seja, nem mesmo quando se viola uma virgem pura, quanto menos tratando-se apenas de uma voltinha bem disfarçada, a culpa é das criadas negras, que são más e lascivas. Tenham elas peitos imponentes ou pequenos, seja qual for o grau de violência e dureza que se use, os gemidos delas põem-nos malucos e nunca mais se pára. A verdade é que é o homem branco que fica com a reputação manchada por causa das pretas feias.

Escrito no Cabo da Boa Esperança, o poeta, indignado com o racismo dos colonos sul-africanos, denuncia a moral hipócrita da época. Adoptando a voz de quem procura justificar os actos infames de luxúria que na altura se praticavam com as escravas negras, o poeta, através da hipérbole e da onamatopeia ("hua", "cua", "cos"), revela as contradições em que cai todo o cristão que busca o sexo inter-racial sem o consentimento da moça.
Não é tanto a expressiva violência dos versos que impressiona o leitor desprevenido como a actualidade de que - infelizmente - ainda se revestem nos dias de hoje. Por muito que alguns dirigentes prometam desmantelar o sistema de apartheid, a verdade é que ainda há muitos abusos.

Almas divinas gozam, que não anda,
Outro corre, tão leve e tão ligeiro,
Que não se enxerga: é o Mobile primeiro
(Canto X, 85).

Há muita gente armada em boa que goza e diz que não anda, mas há outro que anda tão depressa que nem se vê: com Mobil, é sempre o primeiro.

Mais uma vez, o poeta ridiculariza os espíritos retrógrados que se opunham à importação de lubrificantes estrangeiros, alegando que não eram compatíveis com as rodas dos coches portugueses. A imagem de um coche a passar velozmente diante dos olhos dos descrentes é bela. Admiremos também a coragem de um homem que não teve medo de desafiar os tribunais da época, utilizando uma referência a uma grande marca americana para reforçar o cariz crítico do seu poema.


In K, nº5, Ler hoje os clássicos, Fevereiro de 1991