Domingo, Setembro 25, 2005

Atenção Judeus


Por Carlos Quevedo e Nuno Miguel Guedes


"...O rei de Portugal D. José I tinha ordenado que todo o português que tivesse sangue judeu deveria usar um chapéu amarelo. Alguns dias, mais tarde, o marquês de Pombal apresentou-se na corte com três desses chapéus debaixo do braço. O rei, surpreendido, perguntou-lhe: “O que quereis fazer com tudo isso?” Pombal respondeu que queria obedecer às ordens do rei. “Mas - disse o rei - porque tendes três chapéus? “ “Tenho um para mim - respondeu o marquês - outro para o grande inquisidor e um para o caso de Vossa Majestade desejar cobrir-se”

Cecil Roth, A history of The Marranos.


Este é o povo mais perseguido e paternalizado de todos os tempos. Do ódio gratuito à protecção oficial, conheceram tudo. Em Portugal também. Esta é uma pequena história de como nem sempre fomos de mui brandos costumes.

Não existe nenhum povo tão odiado nem tão protegido como o povo judeu. Consegue dividir a humanidade em extremos que vão do anti-semitismo primário e arreigado até à complacência mais miserabilista.

Como assinalou Leon Poliakov na História ido Anti-semitismo, mesmo as apologias do judaísmo viraram-se muitas vezes contra os seus autores, produzindo o efeito contrário.

Terá sido a arrogância do povo eleito que provocou esta tradição persecutória? Ou, pelo contrário, foi a humildade da vítima que criou o monstro de intolerância que é o anti-semitismo ancestral? A propósito, convém ter em atenção o que Poliakov afirma no livro já citado: "As perseguições que aguçavam o sentido de justiça dos judeus incitavam-nos também a deter-se nelas, às vezes até a deleitarem-se no seu papel de vítimas, coisa que de facto foi o seu papel do ponto de vista histórico; e não há dúvida que um semelhante deleite estimula a tentação dos verdugos." Tudo começou seis séculos antes de Cristo. É durante o primeiro exílio forçado na Babilónia, a primeira e mais antiga das Diásporas, que se formula a essência do judaísmo com a redacção definitiva do Pentateuco - os cinco primeiros livros das escrituras, que funcionam, como código religioso e legal para os judeus -, a lealdade ao Sião, o fim dos vestígios de idolatria; mas, sobretudo, o início da internacionalização do povo judeu.

A tradição internacionalista e cosmopolita do povo hebreu tem o seu verdadeiro início na altura da invasão Babilónica, em 586 a.C. Esta data coincide com o exílio em massa dos israelitas: estava estabelecida a primeira Diáspora. E é aqui que nasce o judaísmo como sistema de ideias. Os judeus integravam-se facilmente nos povos da Ásia Menor, África do Norte e Península Ibérica. Étnica e socialmente, a integração decorria sem problemas. Era o culto que acentuava as diferenças: o monoteísmo impedia-os de se renderem aos deuses romanos e guardar o Sabatt trazia-lhes situações complicadas.

Muitos autores da antiguidade indignavam-se com o proselitismo activo dos hebreus. Para os cépticos, lembramos que o dever de pregar os ensinamentos de Deus já vinha dos Profetas. «Foi dirigida a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amati, a qual dizia: levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e prega nela...» (Jonas, I, 1-2). Outras provas da dispersão ou proselitismo hebraico são a existência de judeus etíopes, que há pouco tempo voltaram a Israel. Na China, encontram-se reminiscências da cultura hebraica na província de Honam - chineses que não comem carne de porco e que eram circuncidados. No Japão, palavras fora de qualquer etimologia tradicional provam a existência remota de judeus e templos abandonados têm inscritas as palavras "David" ou "Israel". Há quem diga que o termo “Samurai” vem de “Samaria”- uma região da Galileia -, interpretação que coincide com a tradição segundo a qual os Samurais descendiam de uma tribo vinda do extremo do continente asiático. Na Índia, ainda hoje existem os Beni Israel ou Shauvar Telis (prensadores de óleo de sábado) nas regiões de Bombaim, os judeus negros em Cochim e Malabar.

Um Judeu chamado Jesus


O aparecimento do cristianismo foi o grande acontecimento na história do judaísmo. Uma religião que reivindicava o mesmo Deus, com uma militância proselitista irredutível e cujos targets eram absolutamente indiscriminados, só podia ser um terremoto para o pacífico povo judeu. Se conseguirmos pensar como os hebreus, os primeiros cristãos eram pura e simplesmente hereges. Sobretudo no início, a evangelização limitava-se ao próprio povo judeu, sendo por isso um problema absolutamente interno. Mesmo os romanos não faziam, até ao século 11, grande distinção entre judeus e cristãos. Mas são as características e idiossincrasia judaicas que sugerem um êxito limitado por parte dos cristãos e que os fez, de facto, dirigirem a mensagem de Cristo para os não-judeus. Do ponto de vista da lógica da sobrevivência religiosa, era mais inteligente por parte dos cristãos responsabilizar os judeus que o tinham renegado do que os romanos que o tinham de facto matado. Os romanos não só eram a polícia, a potência dominante, mas também o território.

Na origem do cristianismo podemos também prever o nascimento não do anti-semitismo mas do antijudaísmo. Com efeito, à medida que avançamos na história, encontramos esta constante negação cristã das suas origens judaicas. Pouco a pouco, tenta-se tudo para apagar da memória do povo cristão o estreito parentesco que os une aos judeus. Até o nome daquele que traíra o Redentor – Judas – é um derivado do patronímico da terra de origem dos judeus.

É com o início da Primeira Cruzada, pregada pelo Papa Urbano II, em 1095, que encontramos registados os primeiros massacres contra os judeus. Se são conhecidos os objectivos comerciais das Cruzadas, também são conhecidos os benefícios espirituais - indulgências - com que eram contemplados os participantes de tais empresas.

O primeiro genocídio data do século XII. Foi na cidade de Rottingen, na Francónia, e por causa de uma hóstia profanada. Um tal Rindfleish amotinou a população que massacrou todos os judeus da cidade, alargando a sua vingança a toda a Francónia e Baviera. Fala-se de 100.000 judeus mortos. Com os massacres de 1096, começou a estação de caça ao judeu que teve o seu auge na Segunda Guerra Mundial.

Perante a legalização: do anti-semitismo com a lnquisição, os judeus, especialmente os judeus ibéricos, tinham poucas alternativas de sobrevivência. Emigrar era uma delas, mas poucos tinham a possibilidade de refazer uma nova vida num país estrangeiro. A conversão era mais acessível, mas nem sempre era uma garantia de salvar a vida. Era muitas vezes a possibilidade de escolha da maneira como se queria morrer. Os que decidiram mudar de confissão deram origem a uma nova categoria de fiéis: os cristãos-novos. É fácil perceber que um cristão converso perante a ameaça da fogueira não podia obviamente dar muitas garantias de fidelidade. "Deixava de ser um mau judeu para se tornar um péssimo cristão", como escreveu Menendez y Pelayo. Podiam acontecer duas coisas: ou o cristão pouco convicto acabava por adquirir essa convicção após uma ou duas gerações, ou fazia de conta que era cristão e praticava secretamente a fé do povo de Israel. Este segundo caso é um dos acontecimentos mais impressionantes da história da humanidade. Marranos: era como se chamavam estes judeus clandestinos. Abdicando exteriormente de tudo que os pudesse desmascarar, confundiam-se com os cristãos: nome, práticas, língua. Mas no fundo dos seus corações continuavam, tal como antes, a adorar apenas o Deus do Antigo Testamento. À ancestral culpa judaica alimentada por um Deus protector mas ciumento, autoritário e vingativo, estes criptojudeus juntaram um novo tormento: negar quem se adora para poder continuar a adorá-lo. Em Portugal, a comunidade de Belmonte tem uma história semelhante.

NÓS, JUDEUS

Desde a sua chegada à Península até aos dias de hoje, os judeus tiveram sempre um papel importantíssimo na vida de Portugal e Espanha. As primeiras provas documentais da existência de judeus no futuro território de Portugal datam do século VI ou VII da nossa era. Mas já trezentos anos antes a Igreja Católica mostrava a sua má-vontade com o povo hebraico ao estabelecer várias restrições aos cristãos no seu relacionamento com os judeus (Concílio de Elvira). No entanto, esta atitude claramente anti-semita nunca foi muito significativa no que diz respeito à convivência da população portuguesa com a comunidade judaica. Quando D. Afonso Henriques conquista Santarém, em 1147, serve-se da comunidade judaica que aí vivia como colonizadora e povoadora do novo reino que se formava. Aliás, quando o nosso primeiro rei entrega a Yahia Aben-Yaisch o controlo total da arrecadação das rendas públicas, inaugura a política proteccionista que continuará, com maior ou menor significado, até ao reinado de D. Manuel I. Os monarcas precisavam dos judeus, sobretudo por razões económicas: estes não só possuíam largas fortunas pessoais que ajudavam a corte a sobreviver, como também estavam obrigados a pagar pesadíssimos impostos e tributos Por isso ocupavam altos cargos públicos (normalmente associados com assuntos do Tesouro), contribuindo para manter baixa tensão entre a população cristã e a comunidade hebraica.

Os reis portugueses viam-se muitas vezes divididos entre as necessidades efectivas das suas cortes e o dever para com a Igreja Católica, que nesses tempos era lobby de respeito. Muitos foram os conflitos com o clero só porque os nossos reis não obrigavam os judeus a usar distintivos ou a pagar dízimos. D. Dinis, por exemplo, embora tenha decretado leis que punham em causa a palavra de um judeu contra a de um cristão, além de ter acatado as disposições do Concílio de Latrão, nunca se desviou da política geral de protecção dos judeus. O filossemitismo é imagem de marca dos soberanos nacionais.

Mas a verdadeira manifestação de anti-semitismo dá-se com a expulsão dos judeus ordenada por D. Manuel I, em 1496. Isto seguiu-se à expulsão dos judeus de Espanha por D. Fernando e D. Isabel, decretada quatro anos antes. Muitos dos judeus espanhóis refugiaram-se em Portugal, o que veio a causar grande instabilidade social. As epidemias do final do século XV levam o povo a atribuir as culpas aos novos refugiados. Estes factores, adicionados às pressões dos Reis Católicos de Espanha (e às da Infanta Isabel, que só aceitaria casar com D. Manuel quando Portugal estivesse purificado de judeus) levam o rei português a decretar a expulsão em Dezembro de 1496.

Só que este decreto não tem o mesmo significado que o espanhol: D. Manuel sabia como os judeus são essenciais para um país em expansão territorial. Dentro da comunidade hebraica, para além de grandes fortunas, existiam grandes intelectos: médicos, matemáticos, cientistas. Por isso, dá ao judeu a possibilidade de ficar em Portugal mediante conversão, ao mesmo tempo que utiliza todos os recursos para forçar essa conversão. O prazo de expulsão é também maior: dez meses para abandonar o país, em contraste com os quatro meses espanhóis. Durante esse tempo, D. Manuel não faz preparativos para o embarque dos judeus; manda retirar as crianças judias às suas famílias e educá-Ias em famílias cristãs; isenta de inquérito ou perseguição religiosa todos os cristãos-novos durante vinte anos, o que na prática significava que mesmo depois de baptizados poderiam continuar a ser judeus; e, finalmente, no momento do embarque, manda baptizar à força os últimos renitentes. Assim, a maior parte dos judeus fica em Portugal como cristãos-novos. A comunidade judaica desaparece, enquanto entidade autónoma. Mas os judeus, as suas fortunas e as suas capacidades de trabalho, permanecem no país, ao serviço do reino. D. Manuel pode proclamar a "limpeza"de Portugal e ao mesmo tempo desfrutar do que sempre possuiu.

Até ao estabelecimento da Inquisição em Portugal, o anti-semitismo viveu em crescendo. A Igreja estimulava o ódio: em 1506, frades dominicanos chefiaram uma das maiores matanças feitas em Portugal contra os judeus. E tudo porque um cristão-novo teve a enorme infelicidade de tentar explicar um reflexo estranho que se via num crucifixo (provocado por um raio de sol, provavelmente) e que o povo via como sinal divino. Resultado: o infeliz foi levado para o adro e ali mesmo queimado. Seguiu-se uma tresloucada caça ao judeu que não poupou nem mulheres nem crianças.

Em 1536 surgiu a lnquisição. Embora tenha sido mais moderada em Portugal do que em Espanha, convém não nos enganarmos porque o anti-semitismo luso não era pouco. E a não ser a lusitana moderação, pouca diferença encontraremos entre a lnquisição portuguesa e a espanhola. Os números mostram bem que os rapazes do Santo Ofício não brincavam em serviço. De 1536 a 1821 existiram 750 autos-de-fé em Lisboa, Coimbra e Elvas; foram julgadas cerca de 40.000 pessoas e mais de 30.000 foram condenadas. Dessas, 1175 seriam executadas por garrote ou queimadas vivas. É evidente que se compararmos estes números com os da Inquisição espanhola, a nossa padecia de uma piedade sem limites. Mas a tragédia está no facto de estes números terem existido. Ainda a propósito, e só como curiosidade, recordemos um estudo interessante de Alexandre Gusmão (irmão de Bartolomeu de Gusmão, o padre da Passarola Voadora), onde provava, através da análise das genealogias dos Grandes Inquisidores, que todos eles tinham uma maior ou menor dose de sangue judeu...

O anti-semitismo conheceu grande popularidade no princípio do século. Em 1924, Mário Saa publica o célebre A Invasão dos Judeus. O título já dizia tudo, mas os nomes dos capítulos reforçam a ira anti-semita: "Invasão do Sangue", "Assalto à Riqueza", "Assalto ao Estado", "Assalto à Religião", "Assalto à Vida Mental". Nesta última parte, Mário Saa chega mesmo a contrapor os intelectuais não judeus (arianos) aos judeus, comparando-os através de sinais físicos. Entre a lista de intelectuais judeus, encontramos Fernando Pessoa, Raul Leal, António Ferro, Almada Negreiros. Com a exaltação dos nacionalismos favorecidos pelo Estado Novo, é fácil encontrar mais radicalismos anti-hebraicos em Portugal. Em 1948 (ano da constituição do Estado de Israel), o jornal A Nação - "semanário da actualidade política e literária" que ostentava um integralismo deturpado e um fascismo ferocíssimo - publicava na sua edição de 17 de Julho um artigo com o título "Os judeus... são judeus". Para bom entendedor, eis alguns excertos iluminados: "A guerra da Palestina, a proclamação do Estado judaico e a agitação que se apoderou de todo o mundo, acentuaram, com mais vigor que cinquenta discursos de Hitler, a realidade do problema judaico e a gravidade do mal." Assina o artigo Christianus...

Terá a sociedade ocidental necessidade de um povo a quem odiar? Quer dizer, foram os judeus como poderiam ter sido os ciganos ou os loiros? Sem dúvida que não. O anti-semitismo não pode reduzir-se a uma mera questão racista. Porém, podemos pensar que um primeiro ódio religioso deu lugar a outro, este racista. Embora ainda não se tenha dito a última palavra sobre a hereditariedade genética, não acreditamos na transmissão de uma mentalidade ou característica hebraica. É ridículo. Mas acreditamos numa identidade ou personalidade judaica intrínseca a um povo que através dos séculos se habituou a ser o bode expiatório das comunidades em que vivia sem conviver. Infelizmente, é claro que os estereótipos anti-semitas transmitidos de geração em geração nos hão-de sobreviver. Shylock de Shakespeare continuará a ser O judeu. Também Horácio, Tácito, S. Tomás de Aquino, Maquiavel, Cervantes (este muito provavelmente um cristão-novo), Voltaire,. Dickens, Nietzsche, Pound e muitos mais, - contribuíram para a cultura anti-semita dando mais elementos para formar o judeu a abater. De Abraão até Marx, Freud e Einstein ou da Babilónia até Auschwitz este povo guarda muitas respostas. Mas nós não podemos deixar de procurar as razões da barbárie cometida através dos séculos. O judeu continuará a ter de demonstrar a sua inocência numa cultura que já o declarou culpado.


in K nº 5, Fevereiro de 1991

Segunda-feira, Setembro 19, 2005

A capa da K


Uma Capa Memorável...

Sr. Professor Vergílio Ferreira


Por: Pedro Rolo Duarte

Sentado no seu cadeirão castanho, Vergílio Ferreira esperava um entrevistador. Apareceu-lhe um antigo aluno do Liceu de Camões. O professor voltou a falar-lhe no caderno diário, nas faltas, nos exercícios escritos. E voltou a dizer, como sempre, que nunca gostou de dar aulas, e que hoje vive apenas para escrever. Mas, por uma hora e meia, regressou ao passado e deu matéria. A matéria toda que o aluno queria ouvir.

O PROFESSOR não sabia, não se lembrava do nº 2ó daquela turma mal comportada do 11º ano do Liceu de Camões. Mas eu lembro-me bem dele: caminhava pelos corredores de mãos atrás das costas, ligeiramente curvado para a frente e era assim que entrava na sala, sem um sorriso, uma palavra, até que todos estivessem sentados e calados. Então começava a correcção do trabalho de casa e mais uma aula densa, fria, chata, cheia de gramática e apontamentos e perguntas a que nunca sabíamos responder. Uma vez por outra, chegava um "ponto". Uma vez por outra, uma aula sem matéria para dar, só com o professor tentando o diálogo, falando das árvores da Praça José Fontana ou de um livro que devíamos conhecer. Naquela turma não gostávamos muito do professor Vergílio Ferreira e comentávamos o facto de ser público - estava escrito na Conta Corrente - que ele detestava dar aulas. Detestei essa ideia e, tendo os seus livros em casa, comprometi-me a jamais lhes tocar.

Até que um dia, há poucos anos, quebrei o compromisso e abri ao acaso um volume da Conta Corrente. Devo ter lido algo deste género: "E agora que fazer? Gostava tanto de levar até ao fim os dois livros começados. O romance. Sei agora mais claramente o que queria. O périplo de uma vida à procura da palavra. Viemos ao mundo para a encontrar. A palavra total, a que nos diga inteiros, a que nos diga a vida toda. Procurei a minha e não a encontrei. E estou a chegar ao fim. Ou encontrei apenas a do silêncio. Ou a palavra enigmática que a mãe do narrador desse meu romance Para Sempre lhe diz ao ouvido à hora da morte e ele tenta entender através da vida inteira."

Comecei a ler os romances, os romances todos, tudo, e escrevi-lhe uma carta, que nunca mandei, a pedir desculpa por não o ter lido antes. E agora estou à frente do escritor a contar-lhe esta história e a pedir-lhe, humildemente, que comente a minha própria atitude. Diz que "mais vale tarde do que nunca" e sorri, como só um professor sorri. Sentado num cadeirão castanho, rodeado de livros por todos os lados, o professor fala:

É talvez a primeira vez que alguém dá essa ideia de mim, enquanto professor. Têm-me referido alguma austeridade, um homem de poucas palavras, mas a isso é contraposto sempre o professor afável e tolerante. Não me lembro de pretender ser rigoroso. Havia, é verdade, uma coisa que me incomodava muito, que era o aluno distraído, a conversar para o lado - mas sempre que o detectava, atribuí a mim a culpa, entendia que era uma deficiência, sentia-me vexado, diminuído. A minha reacção nunca era castigar - mas dizer coisas que interessassem o aluno, tentar segurá-lo e captar-lhe a atenção.

K: Mas era muito rigoroso, por exemplo, com a manutenção do Caderno Diário, coisa que rapazes com 17 e 18 anos já achavam que era exclusivamente da sua conta...

Ah, mas isso eram as regras do jogo. Eu tinha o hábito de, no fim de cada período, folhear os cadernos dos alunos, e acho que estava certo: se um aluno não tem o caderno diário em dia isso significa que está ausente das matérias, que não se interessou. O caderno diário é útil no dia-a-dia. Mas, sinceramente, nunca me julgaram assim tão rigoroso, embora ache natural que, se o senhor antipatizava comigo, não lesse a obra do escritor. Não sei o que hoje pensa do que pensava, mas presumo que, olhando da sua idade adulta para essa idade juvenil, algo se tenha alterado. Eu sempre fui contra o professor mandão, sempre descontente, marcando faltas de castigo, sempre fui contra tudo isso.

K: Embora detestasse dar aulas e assumisse essa opinião publicamente...

Olhe, nunca o ocultei porque cumpri sempre. Conheço professores que diziam gostar imenso de dar aulas - e eram professores que não davam as matérias, não faziam exercícios, nada. Ora, como eu tinha a consciência tranquila de cumprir, de ensinar como podia o que tinha de ensinar, estava à vontade para dizer que não gostava de dar aulas, porque não gostava mesmo! Estou, por outro lado, convencido de que, se me pusessem perante as duas hipóteses - ser apenas escritor ou ser escritor e ter uma segunda actividade, por exemplo, ensinar - eu preferiria sempre a segunda. Dedicar-me apenas à actividade literária significaria afogar-me na escrita, na leitura, perder contraste. Assim, depois de uma manhã de aulas, sentia-me livre para começar outra coisa e a escrita saía mais original, mais virginal. Se vivesse de manhã à noite mergulhado na tarefa literária, aquilo que escrevesse não teria a mesma vitalidade.

K: Então foi importante, para a carreira do escritor, a actividade do professor?

Sem dúvida que sim. Sabe, quando era rapaz era melhor aluno a ciências do que a letras. Fui para letras porque tinha aprendido latim no Seminário e resolvi capitalizá-lo, pô-lo a render, tirando um curso que por outro lado eu presumia dar-me rapidamente uma colocação. Não escolhi mal. Hoje, possivelmente, teria optado por outra secção, talvez filosofia, ou românicas. Mas deixe-me dizer-lhe que tive prazer em algumas aulas, em alguns momentos. Em Évora, por exemplo, dei literatura todos os anos, e escolhia sempre uma aula por semana para aquilo a que chamava paleio, conversa. Nessa aula, eu falava-lhes de literatura contemporânea, arte, levava-lhes álbuns com quadros de Picasso, Matisse, e era estupendo... Já em Bragança, onde tinha estado um ano, na altura em que os americanos estavam na berra - o John dos Passos, o Steinbeck, entre outros - eu dava a conhecer esses nomes, essas obras. A um moço de Bragança, que muitas vezes nem sequer tinha visto o mar, falar-lhe de um autor que ele não conheceria tão depressa de outra forma era uma maravilha. Eu não gostava realmente de dar aulas, mas às vezes agradavam-me esses momentos, sobretudo quando sentia que os alunos estavam a abrir os olhos... isso é comovedor, é emocionante... Agora, ir para uma sala dizer menino, o sujeito, o predicado, o complemento’, é realmente uma chatice! É necessário, mas há coisas absolutamente necessárias que se não gosta de fazer, não é?

K: Tem a noção de que o seu nome, no tempo em que estava no Camões, se confundia com o próprio Liceu?

Não, de maneira nenhuma. De resto, a pensá-lo teria sido já muito antes, quando estava em Évora, numa altura em que o meu nome já era conhecido.

K: Qual era a relação que estabelecia com os seus alunos?

Bom, é outra matéria-prima, a de Lisboa, muito diferente da de Bragança ou até de Évora. A cultura faz-se com o ambiente, o ambiente familiar, um filme que se vê, uma conversa no café, enfim, o mundo exterior. É evidente que um moço de Lisboa é mais desenvolvido, mentalmente, e por isso mais fácil de ensinar.

K: Quando saiu o Até ao Fim, depois do Para Sempre, explicou os seus títulos referindo-se à degradação e perda dos valores por parte da juventude. Não consigo perceber a relação, tanto mais que já tinha deixado de dar aulas, já tinha abandonado esse convívio directo com os alunos...

Bom, deixei de dar aulas mas não deixei de estar atento ao que se vai passando. A verdade é que, quando era miúdo, eu e as pessoas da minha geração tínhamos pais - eu tinha os pais emigrados, mas tinha umas tias... que nos impunham os seus valores - e nós não discutíamos. Um miúdo não discute, é até certo ponto passivo e, no que diz respeito a valores que o transcendem, ainda discute menos. Mandam-no ir à missa e ele vai. A minha geração ainda encontrou determinados valores - por exemplo, políticos. Não podemos esquecer que o comunismo teve extremo peso na mobilização de muitos jovens. Ora, quando se verificou ser o comunismo um logro - o maior do século vinte - todos os mitos se esvaíram. Ele era o eixo central de todos os valores. Em face de quê, hoje, um pai impõe um valor a um filho, se ele os não tem? honesto - mas sê honesto porquê? O rapaz não pergunta mas sente. A juventude de hoje está desarmada de valores que a preparam para a vida. Foi isso que quis dizer.

K: É isso que ainda pensa?

Bom, eu defendo sempre como último valor - porque é o primeiro de todos - o homem e a vida. E pressinto que esse valor, da defesa do homem e da vida, começa a apontar genericamente para o que se chama ecologia e onde se inclui evidentemente a defesa da vida. Pressinto isso até nesse movimento extremamente equívoco que é o pacifismo, a que não adiro (embora, até por preguiça, seja bastante pacífico...).

K: Então já há um valor, uma ideia?

Pergunto: terá o jovem de hoje um ideal que unifique a vida? Não sei, mas este pode ser um movimento... Sabe, eu fui sempre sensível ao problema da arte - é ela a primeira a detectar os movimentos da História (e a História aqui é um termo cómodo, porque não existe. É um nome onde se metem milhares de factores, as guerras, os livros, tudo...).

A História não pára e a arte tem sempre uma palavra a dizer. Hoje, penso que a arte está em grave crise e, para outros, mesmo no fim. Se leu Até ao Fim, há-de lembrar-se da entrevista que o jornalista faz à escultora cuja obra era um monte de pedras. Aquilo não era inventado, aquilo era verdade, eu vi aquilo numa exposição de polacos, que tinha um estendal de sapatos velhos e um monte de pedras.

As pessoas desatentas riem-se, troçam, mas a coisa é grave - não são eles que chamam àquilo escultura, é a História, ao actuar no lado invisível de nós. A História assemelha-se à água que passa debaixo da areia; a gente não a vê e lá à frente ela irrompe outra vez. O erro de Marx foi pensar que podia condicionar a História. Mentira: ela está-se nas tintas para os Marx's, decide sozinha, na consciência ou inconsciência dos homens. Agora, veja bem a ironia da História: pelo uso da praxis científica do marxismo, provou-se que ele próprio era um logro...

K: Facto que deve ter consolado muito o dr., habituado, num país onde a maioria dos intelectuais é de esquerda, a remar contra a maré...

Foi um consolo, sim. Eu tive a sorte de viver o bastante para ver cair os dois fenómenos que mais detestava: o fascismo e o comunismo. Vi a queda de um e de outro e a que realmente me surpreendeu foi a do comunismo. Aquilo era, como agora se diz, um bunker, uma estrutura de cimento armado impenetrável. Mas a História lá se meteu numa fenda, como as plantas se metem por entre as pedras e fazem estalar os passeios, e o bunker estalou. Pude vê-lo, foi bom...

K: Deram-lhe razão...

Ter razão antes do tempo é errar - leva-se de todo o lado, atiram-nos pedras. Mas também é acertar: passei um mau bocado, mas estava certo...

K: Na Conta Corrente e em muitas entrevistas assume sempre o papel de mal amado da literatura portuguesa.

E fui, fui mesmo...

K: Mas agora, desde Para Sempre, é uma unanimidade, toda a gente gosta de si, dos seus livros. Como é que analisa esta mudança?

Então, relembro-lhe o desmoronamento do comunismo...

K: Há relação entre uma coisa e outra?

Então não há? Há uma relação íntima. As pessoas esquecem-se de que, no tempo de Salazar, não havia só a censura oficial, havia também a comunista, que funcionava, como podia, nos jornais, nas editoras, nas revistas. Era aí que se determinava quem era génio (eles não têm medidas, são logo todos génios...) e quem era imbecil. Houve o 25 de Abril, o PC continuou a ter força e depois chegou a perestroika e aí é que começou o problema. Eu lembro-me de um fulano que durante 30 anos me filou a canela e só com a perestroika a apertar-lhe os queixos é que ele abriu as mandíbulas! Costumo dizer que o golpe final foi a queda do muro de Berlim, porque essa gente estava lá dentro - e quando caiu o muro eu fiquei visível, estava do lado de fora...

K: É hoje um homem tranquilo?

Não, não posso, porque sou sempre maior do que eu próprio. Quer dizer: a diferença que vai entre aquilo que se sonha - vagamente, claro, porque quando o sonho se torna nítido, realiza-se - e aquilo que se faz é sempre muito grande. Às vezes, releio os meus livros antigos e de alguns ainda gosto, mas com outros quase cortei relações, não os visito sequer...

K: Quais?

Ah, isso não digo, isso queriam os outros que não me gramam... E não é só isso: sendo certo que todos os pais têm um filho ou outro de que gostam mais, nunca o dizem, não manifestam publicamente a preferência. Eu faço o mesmo, claro.

K: Continua preocupado com o facto de dizerem que se repete, que aborda sempre os mesmos temas?

Bom, isso é o drama de todo o escritor, ser diferente na igualidade. Costumo dizer que o que há de mais diferente na igualidade é o mar - somos capazes de estar a olhar para ele uma hora seguida, é sempre igual mas é sempre diferente: o tamanho de uma onda, o rebentar de outra, a espuma. Ora, se é possível no mar essa diferença, também é possível no escritor...

K: Sabe, dr., ainda hoje penso porque é que uma pessoa com vinte e poucos anos como eu, fica fascinada por livros que falam da morte, como os seus, quando esta é justamente a idade em que a morte não existe, não vai existir...

Nos meus livros há mortos mas não há cadáveres... faz a sua diferença, não é? A verdade é que a morte, a reflexão sobre ela, é para mim uma forma de valorizar a vida - tal como é contra um fundo de escuridão que um fósforo aceso se vê. Essa reflexão não serve para nos afundar, mas para a vida irromper mais forte. Eu sou consciente - e é em função da morte que para mim a vida tem significado. Na sua idade isto não existe, é verdade, mas é bom que através dos meus livros tome consciência da sua existência. Isso significa que fui útil. Porque é que um jovem não há-de pensar nisso? Neste meu último livro, a morte continua a estar muito presente, mas houve quem me dissesse que, depois de o ler, tinha ganho mais amor à vida. Como o doente quando volta a ser saudável - ou o suicida que é salvo a tempo e passa a olhar o mundo com uma atenção extraordinária, como uma revelação.

K: Se juntarmos a sua, reflexão ao facto de anunciar sempre que o seu novo livro é o último que escreve...

Ah, sim, mas eu explico: quando escrevo um romance fico sempre com o poço vazio. A sensação que tenho é de que já não há mais nada para dizer. Só que, inconscientemente, a vida encarrega-se de me encher de novo o poço. E quando está cheio, transbordo para outro livro. Agora, por exemplo, tenho um romance já esquematizado e falta-me um enquadramento que não o aproxime muito de outros que escrevi, como o Para Sempre... O último livro, Em Nome da Terra, foi uma sorte, um acaso: surgiu porque, na sequência ia doença de um cunhado, tivemos de o internar num, como se chama?, sim, um lar de idosos, que é um nome bonito que eles põem a essas casas. Bom, fui despertado para a situação dos velhos - gravíssima, do ponto de vista social - e desses lares. Pronto, tinha o problema do romance. resolvido. Agora, estou na mesma situação: à espera que Deus nosso Senhor me conceda um milagre desses...

K: Na Conta Corrente sente-se que o arranque de um novo romance é, para o escritor, um drama...

Eu não me lembro de começar um romance continuar por aí fora até ao fim. Nunca. O caso extremo que tenho é o de Alegria Breve: ia com o livro a meio quando me disseram: sabes que Melo, que é a minha aldeia, está a ficar desabitada, há ruas inteiras que já não têm ninguém? Dei a clássica palmada na testa e pensei: aqui está o enquadramento para o meu romance. Tinha a ideia base, que é a da História em suspenso, a de que o termo de alguma coisa é sempre o começo de outra. O que aconteceu com a Alegria Breve foi excessivo, mas é normal recomeçar tudo ao fim de dois, três capítulos. Preciso de apanhar o novelo e seguir o fio. A escrita é que revela o romance, o escritor nunca faz ideia do que vai ser o romance - é um pouco como criar uma pessoa, ou como um rio: um rio, quando nasce, só sabe que quer ir para o mar. O trajecto é sinuoso, é definido sem controlo, é a tactear que ele chega ao fim. Como o escritor: sei que quero ir para o mar, mas como vou não sei.

K: Já várias vezes disse que o romance tinha os dias contados, não foi?

É como um saco de pedintes, cabe lá tudo, cabe a filosofia, o jornalismo, cabe tudo. Assim, lá se vai aguentando, como o gato, com sete fôlegos O que o pode salvar é a estrutura e a matéria. Aliás, estou com curiosidade em ver que romances vão escrever agora os nossos escritores. Eles terão de fazer longas reflexões porque isto mudou muito, o mundo mudou todo. É claro que dizer a nossa mágoa é já uma forma de a superar, mas a verdade é que não se podem voltar a escrever livros como o Alves Redol... E rasamente lhe digo que, para o século vinte, não vejo mais do que um Raul Brandão, o romance do Sá-Carneiro e um do Régio. Para este século, ficamos por aqui...

K: Sente-se beirão, naquilo que são as características que geralmente se lhes apontam?

Exteriormente, não tenho aquela rudeza, a pujança física, a agressividade do beirão. Mas é verdade que interiorizei algumas características: a obstinação disseram-me sempre que, era obstinado. Embora fisicamente pouco viável, vou sempre até ao fim quando me meto numa tarefa.

Sou rude, trágico, soturno como a serra da Estrela. E interiorizei a neve, claro, aquele encantamento todo. Sabe que eu sei de cor a Balada da Neve, que é um poema medíocre - e até tem um erro de sintaxe... - mas de que não consigo deixar de gostar?

K: Queixa-se amargamente de Lisboa, confessa-se um beirão. Agora que está reformado podia largar a cidade, não?

Agora não posso. Estou aqui há 31 anos, todas as relações estão aqui, temos aqui o Lúcio, que criámos, o filho e netos, tudo isso. Lisboa nem é uma cidade como Nova Iorque ou Tóquio, aquelas grandes cidades, mas para mim já é excessiva. Eu ficava com um quarto da cidade...

K: Qual quarto?

Olhe, este onde vivo! Ficava com Alvalade e o resto podia ir tudo embora. Às vezes penso nas viagens que fiz em Lisboa, pela marginal, que é perigosíssima, os problemas de trânsito... hoje já não vou

K: Escreveu cinco volumes da Conta Corrente pronunciando-se sobre tudo e todos, diz que é dos escritores mais entrevistados, pedem-lhe opinião sobre tudo, diga-me: expõe-se dessa forma por dever, por prazer, porquê?

Eu não sei o que sou para poder expor o que sou, nem estou interessado. Vou aprendendo o que sou com aquilo que me dizem, só isso e aquilo que sei de mim não o exponho dessa forma. Não há nada que mais ofenda os outros do que as nossas queixas - ficam fulos, está-se a exigir-lhes compreensão e piedade para connosco. Então o que é que eu faço? Digo sem dizer, dou um traço de ironia, brevidade, enfim, utilizo técnicas que visam a aceitação do leitor sem que me chegue a considerar um chato...

K: Tem receio de ser considerado um chato?

Se for na escrita, é mau. Às vezes dizem-me "ah, o dr. é tão melancólico" e eu, para despachar, digo "sou, sou ". Mas acho que não - as pessoas que convivem comigo dizem que sou laracheiro, digo piadas, sou irónico. Agora, quando entro na arte é a sério - e tal como o Picasso dizia que quando ia pintar deixava o corpo lá fora, quando eu escrevo deixo as piadas lá fora... Um pouco como diz a Amália, bem pensado todos temos um fado. Eu tenho este, o de escrever: e cumpro o meu fado. Gosto de escrever e gosto que me leiam. E já agora, que me digam quando gostam. Quanto à vaidade, sou tão vaidoso como os outros, não sou modesto, sou igual a toda a gente. Mas, por exemplo, não gosto de ser reconhecido na rua, sentir aqueles olhos a fitarem-me. É muito desagradável...

K: Perguntam-lhe pelo próximo romance...

Pois, se eu soubesse. Mas eu não sei, não sei o que vai ser...

K: Escreve à mão? Estou a ver ali uma máquina de escrever...

Ah, sim, a máquina, odeio a máquina, é horrível. Mas tem de ser, eu tenho uma letra terrível, somítica. Antigamente tinha os meus dactilógrafos, que a entendiam e que até colaboravam nos livros, metendo palavras deles. Palavras que faziam sentido, claro. Muitas vezes, eu nem dava por elas. Dei comigo, anos mais tarde, a reparar nessas palavras e a pensar "eu não escrevi isto, não era assim ", e depois ia ver o original e realmente não estavam lá... Mas agora tenho de ser eu a passar. Com Em Nome da Terra demorei um mês a copiar o texto, com enorme sacrifício. Sabe, é que escrevendo à mão sou logo eu projectado no papel, enquanto com a máquina há o bater das teclas, dá cabo dos nervos, é preciso estar sempre a puxar o carreto, é um drama, é terrível...

É quando o professor volta a olhar o relógio de bolso, uma cebola grande e antiga, e diz que chegámos ao fim. Falámos hora e meia e está fatigado. Mas, voltando dez anos atrás, ainda me diz: "Pronto, faça lá a redacção disto tudo e espero que o que lhe ensinei no Liceu, apesar do rigor, o ajude a tornar esta conversa legível. Sabe que falar e escrever são duas linguagens diferentes. E a fala é já de si expressiva pelos gestos, tom de voz, o que naturalmente a escrita não tem."

in K, nº 7, Abril de 1991

Segunda-feira, Setembro 12, 2005

O tédio fim-de-século



Onde estão os novos pensadores, os novos pintores; os novos políticos, os novos valores, os novos comportamentos? Onde está a novidade? Em lugar nenhum. Acabou-se. Agora e sempre a mesma coisa. As mesmas caras. Os mesmos nomes. As mesmas modas. Está tudo velho. E não é só em Portugal. O século está a cair de podre.

Há revivalismos retros, classicismos nouveaux, pós-ismos, eclecticismos generosos, pluralismos transdisciplinaridades, novos niilismos e tudo o que se quiser. Toda a tradição existe hoje na sua versão neo. Ate o rococó voltou na sua versão néon. Há neo-tudo. Só não há é novidade. Tudo está por redescobrir, mas nada há pura e simplesmente para descobrir.

Onde está a vanguarda? Onde está a ousadia? Onde está a originalidade? Restam apenas as anedotas. Em Lisboa, por exemplo, anuncia-se a construção de um Museu da «Modernidade».

O mês passado a K foi criticada, bem ou mal, por ter inventado uma nova geração de portugueses. Fizemos abertamente o que é costume fazer inconscientemente. A Imprensa vive da novidade, de caras novas, das coisas desconhecidas. Quando elas não se impõem só por si «inventam-se». Empolam -se. Exageram-se. Da-se-lhes «a volta». É o que mais se faz hoje em dia.

Nos distantes anos 80 havia novos e novidade. Tornaram-se nos cansados clássicos de hoje. Continuam a ser bons, mas cansaram-nos. Os jornais explicaram-nos e espremeram-nos até à última gota. A culpa não é deles. Onde estão os novos para substituir? Onde está a nova musica, a nova escrita, a nova política, o novo jornalismo?

Estamos velhos. Estamos tão velhos que até já chegamos à arrogância de dizer que já está tudo visto e que o novo não existe. Foi sempre assim durante os períodos de grande crise. Nas vésperas das revoluções. Antes do novo mesmo novo, brilhante e assustador, vir

in K, nº 5, Fevereiro de 1991

Quarta-feira, Setembro 07, 2005

Uma Aventura com o Dr. Mário Soares




Texto: Vasco Pulido Valente
Fotografia: Público

1. No princípio de Janeiro de 1985 e estávamos em pleno «Bloco Central», quando pedi ao dr. Mário Soares que me respondesse a um questionário académico sobre o papel do Primeiro-Ministro. Não lhe falava desde 1979. Ele não tinha apreciado a Aliança Democrática e proclamara, em círculos indiscretos, que me achava «telhudo». Para meu espanto, ele disse que sim e, no encontro, foi extravagantemente amável. À saída, chegou mesmo ao excesso e requinte de ir comigo ao elevador do 2° andar de S. Bento e de me oferecer os seus inestimáveis serviços. Estas vénias, eram tanto mais prodigiosas, quanto ele não ignorava que o «telhudo» escrevia semanalmente sobre ele no Diário de Notícias, coisas celeradas e pérfidas, com o objectivo confesso de o remover de Primeiro-Ministro.
Houve outros sinais: um sorriso cúmplice do dr. Almeida Santos que me inquietou; um beijinho público da dra. Maria de Jesus, que me sobressaltou; abraços efusivos de obscuros amigos da família, que me atrapalharam; a remessa de livros com efusivas dedicatórias; e meia dúzia de jantares sem objecto.
Admito que à época, sendo muito ténue a minha percepção da realidade exterior, não dei por eles. Ou, pelo menos, não lhes atribuí especial importância. Tirando o estrito e trôpego cumprimento das minhas obrigações na Universidade Católica e no ICS, passava os dias e as noites na cama a embeber o espírito em espíritos e a reler a obra completa de Ludlum.
Só quando António Barreto voltou de um retiro sabático, o caso se esclareceu. O dr. Mário Soares desejava que a minha ornamental pessoa apoiasse a sua candidatura à Presidência da Republica. António Barreto não forneceu pormenores sabre a natureza desse apoio e devo admitir que o assunto também não me interessou. A especialização em Ludlum não me parecia auspiciosa e achei genericamente que sair de casa, fosse para eleger o dr. Soares ou sr. Justerini Brooks, me fazia bem.
Os trabalhos começaram em Fevereiro ou Março em S. Bento, e consistiam num jantar hebdomadário do presumível candidato com Vítor Constâncio, com Jaime Gama, com António Barreto e comigo, a que intermitentemente assistia um indivíduo denominado Gomes Mota. Nunca percebi as funções desta extraordinária «comissão que, por motivos fáceis de apreciar, e apesar de toda a evidência em contrário, não existia. Vítor Constâncio e Jaime Gama ocupavam preâmbulo com hiperbólicos elogios ao «Mário». Constâncio declarava o ultimo discurso do «Mário» em Aljustrel «magnífico» e, saltando na cadeira, Jaime Gama declarava «magnifico» o ultimo discurso do «Mário» em Aljustrel. Ou Gama declarava «genial» a ultima entrevista do «Mário» e Constâncio ponderadamente explicava que ninguém podia deixar de compreender a «genialidade» da ultima entrevista do «Mário». O «Mário» ouvia estas inanidades com deleite, em parte por elas próprias, em parte porque visivelmente apreciava a competição das duas crianças pelo seu favor. O sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros e o sr. Governador do Banco de Portugal, entretidos um com o outro, não se coibiam. Para nós, para mim e o António Barreto, eles eram o Dupont e o Dupond da lenda e o pretexto de grandes galhofas post-prandiais. Mas nem Dupont do banco, nem o Dupond do ministério se incomodavam com a situação. Em ambos luzia a astuciosa ideia de que em Belém, Soares não tencionava com certeza continuar secretário-geral do PS e ambos visivelmente imaginavam que o chefe os distinguia a bifes e batatas fritas com o secreto intuito de escolher um deles para lhe suceder.
Nunca houve uma conversa útil nesses jantares. Houve especulações ociosas sabre os planos do general Eanes, sabre os presumíveis candidatos da Direita (Firmino Miguel, Lemos Ferreira, Freitas) e sabre as mirabolantes intrigas do PSD. Soares contava firmemente com os votos do PSD. O Dupont e o Dupond concordavam e Gomes Mota sibilava fragmentos de frases subtis sabre a Esquerda. Outra escola de pensamento, representada por Barreto e por mim, exprimia algumas duvidas sabre o amor do PSD ao candidato, cepticismo que o candidato tolerava com dificuldade e por mero respeito pela liberdade de expressão. Tinha um acordo leonino com Mota Pinto, segundo o qual o PSD se comprometia a sustentar o «Bloco Central» até 1987 e não lhe embaraçar as ambições a Belém. Entretanto, vinham a Lisboa «especialistas» alemães e americanos oferecer o benefício da sua experiência. Apareciam com zelo e desapareciam com angústia. Ninguém sabia quem era a oposição. Ninguém sabia se Mota Pinto se aguentava na presidência do PSD. Ninguém sabia se Eanes, invocando eventuais desordens no «Bloco Central», inteiramente prováveis, não acabava por dissolver a Assembleia da Republica. Ninguém sabia nada sobre coisa nenhuma. E Soares menos do que todos.
De repente, em algumas semanas, caiu o tecto. Mota Pinto, humilhado num Conselho Nacional, abandonou o governo e, para o lugar dele, foi interinamente Rui Machete. Depois, Mota Pinto morreu. E o Congresso do PSD, marcado para a Figueira da Foz, ficou, por assim dizer, sem dona. Que chefe iria produzir aquela desvairada congregação? O enérgico Salgueiro? O coleante Marcello? Pior ainda? Em S. Bento, o candidato berrava como um possesso. Numa tarde qualquer de Maio, recebi um recado para comparecer urgentemente no futuro «espaço Valbom», um prédio em carcaça com meia dúzia de quartos alcatifados. Lá dentro, rodeado por uma corte fúnebre, Soares tentava não aliviar a raiva, partindo cadeiras na cabeça dos dignitários. Logo que entrei mandou calar a canzoada. Precisava de me fazer uma pergunta, uma pergunta fatídica: «Quem é esse Cavaco?».
Pulidamente, inquiri a razão do interesse. A minha vida, oscilando entre a baixa literatura e um alto sentimento, não me permitia seguir com minúcia as peripécias da política partidária. Soares respondeu, atirando-me um jornal por cima da mesa. O jornal informava o público que o Prof. Cavaco Silva fora eleito presidente do PSD. Coube-me, pois, a honra de ser o primeiro a instruir o dr. Mário Soares sobre a natureza da criatura. Registo o profético sumo das minhas palavras: «Não se aproxime dele, não lhe fale, não lhe toque. Não se convença que negoceia com ele. Ele não gosta de negócios, só gosta de contas, e desconfia de si (para pôr as coisas com brandura). Demita-se imediatamente. Informe o país que se fartou das loucuras do PSD e que o PSD quer subverter a ordem e matar os portugueses à fome. Exija eleições. Mas não se meta com o homem».
O candidato sorriu com estes exageros. Pretendia que Eanes não dissolvesse a Assembleia da República e, depois de 15 de Julho, Eanes ficava constitucionalmente impedido de a dissolver. Cavaco («É Cavaco que ele se chama, não é?») percebia com certeza as óbvias vantagens de evitar o «eanismo» Ou não? Por cinco ou seis semanas, que diabo? Ou não? Asseverei-lhe que não, contemplando a capa dos «Pára-quedas e beijos»., de Erica de Jong, adquirido pouco antes numa tabacaria. Ele não se convenceu.
Quase no fim dos «Pára-quedas e beijos», o telejornal mostrou o dr. Mário Soares recebendo na sede do PS o Prof. Cavaco Silva. Os jantares de S. Bento foram definitivamente interrompidos e as conferências no «espaço Valbom» também. O Prof. Cavaco levou dez dias a desfazer o «Bloco Central» e o general Eanes mais cinco ou seis a desfazer a Assembleia. Marcaram-se eleições para Outubro e a Fundação Gulbenkian deu-me um subsídio para passar três meses em Oxford. O candidato sem dúvida ruminava vinganças em Nafarros.
Descansei. Mas, na véspera de me ir embora, através de uns «serviços» anónimos o dr. Mário Soares mandou-me de novo apresentar no «espaço Valbom», «espaço» esse em que por um triz não caí do quarto andar pelo buraco do elevador. Na sala para onde me levaram, algumas notabilidades do PS cochichavam em pequenos grupos. Escondi-me atrás de António Barreto e, com serenidade, esperei os acontecimentos. Passados dez minutos, o candidato, seguido pela sombra submissa do dr. Almeida Santos, abriu a porta e designando a assistência com um dedo irritado, anunciou: «Vocês são todos da minha comissão politica». Estabelecido isto e extintos os murmúrios de gozo, começou benevolentemente a expor os seus planos.
A essência desses planos era que ele tinha resolvido dedicar-se sem reservas a sua candidatura. Isto pareceu animar de sobremaneira um considerável número dos presentes. Houve mais murmúrios de gozo, sorrisos e meneios aprovadores. Por insondáveis caminhos, a salvação chegara. Chegara, todavia, sob a forma equívoca do dr. Almeida Santos. Como o candidato, se apressou a elucidar os hereges, cabia a essa formidável figura, e seu querido amigo, substituí-lo no partido e no governo, enquanto ele tratava de se alçar a Belém. A gente do PS, já obviamente informada desta extraordinária escolha, não exibiu surpresa. Reparei então na ausência gritante dos gémeos Dupont e Dupond, cujo nariz não se tornou a ver durante a campanha. E reparei também na aura de glória e modéstia que descera sobre o crânio pontiagudo do eleito e na solicitude com que o sindicalista Torres Couto lhe servia um copo de água. Foi um momento de grande emoção.
Almeida Santos bebeu um golo de água, aconchegou a sua fulgurante gravata ao peito e dirigiu-se gravemente aos «comissionados». Ele, Almeida Santos, aceitara sacrificar-se pelo «Mário» e pelo partido. Não ocultava, no entanto, o seu embaraço. Tomava a responsabilidade de conduzir o PS às eleições legislativas, mas, se as ganhasse, quem de facto as ganhava era o «Mário», ao passo que, se as perdesse, as perderia sozinho. Numa palavra, ele, ele próprio, perderia sempre. O tom em que revelou este doloroso dilema, subentendia uma sábia resignação à injustiça humana e o estóico desejo de ajudar «o Mário».
Considerando o episódio encerrado, «o Mário» mudou prestamente de assunto. As coisas estavam um bocado complicadas, admitiu. «Tinha-lhe morrido o Mota Pinto» e, agora, à Direita, aparecia o Freitas (em vez de um general) e «esse Cavaco», que apoiava o Freitas. Os comunistas, claro, não contavam. Por conseguinte, ele precisava do eleitorado do «centro». Ou seja, o PS precisava de atrair para uso posterior o eleitorado do «centro», com uma campanha moderada e um bom resultado nas legislativas. Quanto ao PSD, ele conhecia o peso: era quase tudo também gente do «centro», gente moderada, que detestava o CDS e o Freitas. Apesar de Cavaco, aliás uma aberração temporária, o PSD votaria nele. Em resumo, a soma era simples: 32 ou 33 por cento do PS mais 22 ou 23 por cento do PSD igual a 55 ou 56 por cento à primeira volta.
A «comissão», maravilhada com a subtileza do candidato e a luminosa argúcia dos seus cálculos, sobrou num silêncio reverente. António Barreto, gelado de espanto, examinava o infinito. O meu avião partia para Inglaterra dali a umas horas. Pus o braço no ar. O candidato resignou-se a ouvir as minhas desconcertadas opiniões. Ofereci duas. A de que, tirando talvez o dr. Rui Machete, não existiam PSD's, «moderados» ou «do centro»; e a de que o dr. Almeida Santos, sendo uma patente emanação do dr. Mário Soares, não podia nem ganhar nem perder eleições. Sobretudo, ao contrário do que ele supunha, não as podia perder. O candidato não se comoveu. Agarrou num molho de papelada, levantou-se e disse vagamente na minha direcção: «Isso é o que você pensa». Depois deste irrespondível argumento não valia a pena continuar o debate e a assembleia desfez-se. Despedi-me de António Barreto à porta do «espaço Valbom», com muita pena dele e ainda mais pena de mim. Mas, não me lembro porquê, à noite decidi telefonar ao dr. Mário Soares para repetir o sermão e acrescentar que o dr. Almeida Santos, sem desprimor, representava para a generalidade dos portugueses o pior do PS. O dr. Mário Soares bufava. «Vai ser um desastre», avisei-o. «Não se rale», respondeu ele quase a estoirar, «se for, a culpa é minha».

2. No domingo, 6 de Outubro de 1985,o PS foi reduzido a metade pelo PRD. Terça-feira, o meu avião aterrou em Lisboa por volta das quarto da tarde e, às cinco em ponto, entrei com malas e sacos de plástico, contendo garrafas, na sede do MASP. A reunião da «comissão política», convocada na véspera, destinava-se a discutir «a conjuntura». O candidato ficou assaz surpreendido quando me viu aparecer e houve uma pequena comoção na assistência, que aliviou o seu estado de profundo estupor. Sentei-me ao lado de Alfredo Barroso que me resumiu eloquentemente a situação, mostrando o branco do olho. Do outro lado da mesa, António Barreto riu-se por debaixo das barbas.
Em três meses e meio, a «comissão política» adquirira mais nove ou dez membros, entre os quais distintas inteligências como Manuel José Homem de Mello, Joaquim da Silva Pinto, Clara Junqueiro e «o nosso jovem», vulgo José Apolinário. A conversa consistia em uivos, lamúrias e frases protocolares de confiança. Pairava um ódio especial à «santinha da Ladeira», Manuela Eanes, e os espíritos sofisticados autorizavam-se algumas lucubrações sobre os propósitos dela e do marido. O candidato, de bochecha pendente, meditava ou berrava com os subordinados que entreabriam a porta, sussurrando coisas.
Quando chegou a minha vez, pretendeu saber a opinião fresca de um viajante. «A culpa é sua», declarei com a máxima humildade. Isto surpreendeu-o e fê-lo arrebitar a orelha. Para ele, a culpa era manifestamente de Almeida Santos. «O senhor é que me disse», insisti muito melífluo. «Não se lembra? O senhor disse: você não se rale, se for um desastre, a culpa é minha». Aqui o candidato percebeu o pendor geral da conversa e acabou com ela: «As culpas não interessam. Não interessam nada. Se quer dar a sua opinião, dê. Mas não se ponha com essa história das culpas».
Obedeci. Dali em diante, guardei as minhas opiniões para o Monte Carlo e para a Colombo, onde me consolava com vodka e com António Barreto (e, a seguir, com Alfredo Barroso e António-Pedro de Vasconcellos), enquanto as sondagens vagueavam entre os 8 e os 10 porcento. Introduziu-se, por essa altura, na cabeça do dr. Soares a extraordinária noção de que, estando os portugueses «zangados» com ele, o caso se resolvia se ele escrevesse aos portugueses uma carta simpática, aplicando-lhes metaforicamente umas palmadas nas costas. E aplicou-as num artigo ilegível de duas ou três páginas, que saiu em letra pequena num semanário sem leitores. Desde aí achou-se reconciliado com a nação e genuinamente não compreendia por que obscuras razões ela se obstinava a rejeitá-lo.
Com o aprazimento dos peritos e das notabilidades, mesmo depois de Zenha e Pintasilgo se candidatarem, não deixou de vigorar a ortodoxia do «centro». De acordo com a lunática lógica do candidato e dos seus amigos, a Esquerda votaria em Pintasilgo, a Direita votaria Freitas e o «centro» votaria Soares. Não ocorreu a ninguém que o «centro» talvez não existisse ou não excedesse os 8 a 10 por cento das sondagens.
Tratava-se apenas de persistir, de meter a «mensagem» a bem ou a mal no cérebro, excessivamente mole ou excessivamente duro, do país. Cada vez mais furioso, o candidato persistia. Os papéis e os copos de água voavam pelo MASP. Os berros (e agora os insultos) não paravam. E os apelos ao «centro» também não. O dr.. Mário Soares, em excursões pelas beiras, proclamava-se socialista democrático ou social-democrata ou as duas coisas ou as que fossem necessárias e até um belo dia na Madeira revelou ao povo atónito a sua irresistível propensão para o «centro democrático e social», propriamente dito. Era PS, era PSD, era CDS. Era tudo. Era ele. O incidente da Madeira encheu-me as medidas, de resto já a transbordar de vodka ordinário, ingerido em doses fenomenais, a título de refri- gerio, no Monte Carlo. Preparei-me para o pior e, a meio de uma comissão política, garanti-lhe a pés juntos que a Direita o execrava. Esta pura verdade de 1985 exaltou-o. Com sua célebre delicadeza retorquiu que, nunca tendo sido colonialista, nunca sentira qualquer necessidade de bajular os pretos. Aludia assim discretamente ao facto da minha passagem pela Aliança Democrática e pelo governo de Sá Carneiro e qualificava de «bajulação» a minha defesa de uma candidatura de Esquerda. Não neguei os factos: nem os crimes cometidos com a Aliança Democrática e Sá Carneiro, nem o crime de «bajular» a Esquerda desde o princípio. Notei, no entanto, que o meu saber era de experiência feito: não se aprendia no PS que o PSD e o CDS o execravam, em compensação na Aliança Democrática aprendia-se logo. Apopléctico e pouco presidencial, o candidato apertava a mesa com as mãos.
O ambiente não ficou particularmente recreativo. Vários patriotas juraram ao dr. Soares que a Direita o adorava e louvaram a sapiência da política do «centro». António Barreto e Jorge Sampaio, em termos civis, propuseram, como de costume, uma política de Esquerda. Clara Junqueiro falou do mar, da rosa dos ventos, do universo e de Portugal. Costumava falar muito destes assuntos. A sessão acabou com suavidade. Excepto no Monte Carlo, onde António Barreto substituiu o dr. Mário Soares como alvo das minhas gritarias. Não tinha evidentemente qualquer justificação para gritar a António Barreto. Mas tinha de gritar e não podia gritar ao outro. A vítima sofreu o alarido com paciência. Infelizmente, uma noite ao jantar confessou-me que o dr. Mário Soares lhe pedira para ele escrever um manifesto e cometeu o erro trágico de me pedir a mim que o ajudasse. Fui atrás dele pelo Saldanha fora, inquietando o público e a polícia. Que não escrevia manifestos para mentecaptos, nem para serem emendados por mentecaptos. Que só escrevia por dinheiro. Que, mesmo por dinheiro, não escrevia manifesto nenhum e mais aleivosias do género. Finalmente farto, Barreto enxotou-me e, largado como um cão no passeio do Monumental, extraí a consequência óbvia dos acontecimentos. Meti-me no carro e apontei o carro para Almansil, concelho de Loulé, Algarve.
Em casa do meu amigo João Paulo Amorim come-se indecentemente bem e bebe-se melhor. O MASP e o dr. Soares diluíram-se em robalos grelhados e costeletas de borrego. Ate o consumo de literatura se aperfeiçoou. A beatitude não andava longe, quando um sábado, o telefone tocou. Estendido no sofá em frente da lareira e abastecido de vodka russo, não me importei. O dr. Soares com certeza não queria nada de mim. Queria: queria-me em Nafarros, domingo (com António Barreto), para almoçar. Ameacei que não ia. João Paulo Amorim, delegado do MASP nas paragens, não consentiu. Marcou-se o avião, às 8 da manhã, e ele acompanhou-me ao sacrifício às 7, num buggy aberto, pelo frio desumano de Novembro, depois de uma noite em branco em que se discutiram as virtudes teologais e se esgotaram as reservas de vodka.
Em Nafarros, as minhas mãos tremiam e a colher batia com estrondo na tigela de caldo verde. António Barreto estava melancólico. O candidato exuberante e a dra. Maria de Jesus docemente sibilante. Após o repasto, os homens marcharam para o escritório do candidato e aí, entre fotografias autografadas dos donos deste mundo, o dr. Mário Soares declarou o manifesto de Barreto excelente e, ainda por cima, «muito bonito». Ele sempre pensara aquelas coisas e sempre defendera aquela política. Dito isto, combinaram-se alguns pormenores sem importância e distribuíram-se algumas tarefas. A dra. Maria de Jesus trouxe amavelmente café.
O manifesto de Barreto condenava as ambiguidades do «centrismo» (e, por implicação, o «Bloco Central») e definia a candidatura de Soares como a candidatura da Esquerda contra a Direita. Na comissão política de segunda-feira, as minhas mãos já não tremiam. Tremiam de fúria as do dr. Almeida Santos. O candidato, no entanto, indicou a assembleia que tudo aquilo era fruto das suas meditações. De velhas meditações, aliás. Por exemplo, há meses que ele sentia a urgência de um sério aggiornamento do PS. As notabilidades aclamaram a nobreza e a oportunidade da ideia. O dr. Almeida Santos emagreceu dez quilos. E, como uma rapsódia da dra. Clara Junqueiro sobre as navegações lusitanas, a comissão política, para efeitos práticos faleceu.
Durante o resto da campanha, nem uma nuvem perturbou o meu idílio com o dr. Mário Soares. Queríamos os dois a mesma coisa: ele queria ganhar e eu queria que ele ganhasse.
in K, 14 - Novembro de 1991