Quarta-feira, Outubro 03, 2007

O Lápis do Lopes


Por Graça Lobo

Fotografia Inês Gonçalves

Pedro Santana Lopes é uma daquelas figuras que andam sempre por perto. E quando menos se espera, emerge para dar largas à sua grande ambição. Este texto reflecte bastante da sua forma de pensar, da sua forma de agir, e como se relciona com alguns dos actores políticos mais proeminentes. Pedro Santana Lopes a frio...

Não é uma entrevista. É um duelo. Santana Lopes disse o que pôde. Está tudo aqui. Sem tirar nem pôr.
K: Como se sente nas suas novas fun­ções?
PEDRO SANTANA LOPES: Sinto-me bastante bem, mas ando muito cansado. Neste momento dá-me muito mais traba­lho do que eu julgava. A cultura é um departamento tão grande como os outros e só tem um membro do governo para tomar conta, enquanto os outros departamentos têm três e quatro... Eu nunca fui do género de funcionar a dizer “Ai, sabem, passo as noites no gabinete”, como às vezes os membros do governo dizem “Chego às sete da manhã e saio às onze da noite”. Detesto essa imagem porque acho que é uma imagem de falta de organiza­ção, mas de facto não consigo sair de lá cedo. Sei que a minha antecessora saía de lá às sete da tarde, pelo que me dizem e ela própria me dizia; quando aceitei o lugar pensei: “Bem, isto não deve ser... deve ser algo não muito exigente”. Mas estou absolutamente submerso, absolu­tamente submerso!
K: Eu já lhe vou perguntar, obvia­mente, sobre as linhas gerais da sua política cultural, ou da política cultu­ral do professor Cavaco Silva - não sei de quem é a política cultural deste governo, se é sua, se é dele. E iria talvez fazer-lhe outras perguntas, como por exemplo: acha que é um homem importante?
P.S.L. ...
K: P6r ser Secretário de Estado. Por ser Secretário de Estado tout court.
P.S.L. Depende do conceito de importân­cia. Julgo que sim, no sentido em que tenho responsabilidades importantes, que me estão atribuídas: as decisões que tomo mexem com a vida de muitas pessoas.
K: Acha que é mais importante do que, por exemplo, um actor? Para o seu país?
P.S.L. Para o meu país? Julgo que não. Do que um actor, julgo que não. Para mim a dimensão do contacto com o público, com muitas pessoas é que mede o sentido da importância.
K: Entre aspas.
P.S.L. ... entre aspas, daquilo que fazemos. O sentido em que se diz normal­mente que a pessoa é importante ... eu julgo que depende disso: depende do modo, do grau em que mexemos com a vida de outras pessoas e não só com a nossa. Um actor, um leitor, um escritor, um membro do governo, um cantor lírico, alguém que faça bem ao espírito, que mexe com o quotidiano - material ou não -, com a educação, com os locais de trabalho das pessoas, é certamente alguém importante para os outros.
K: Então porque é que tem tanto desprezo e mostra tanto desprezo - desprezo, dá­-me a ideia que o termo é esse - por certos criadores ... pelos criadores portu­gueses, pelos artistas portugueses que eu considero que são as pessoas mais impor­tantes, muito mais importantes que os políticos?
P.S.L. Mas porque é que acha que eu tenho desprezo, ou mostro desprezo?
K: A sua atitude é uma atitude de pro fundo desprezo, o seu ar é um ar arrogante e não citarei factos ocorridos comigo. Mas posso, por exemplo, perguntar porque é que teve a grande ousadia de não responder a uma carta que lhe foi enviada pelo poeta Mário Cesariny. Por acaso foi sobre o Centro Cultural de Belém, mas podia ser sobre a tasca da esquina; só que foi uma carta enviada pelo poeta Mário Cesariny, que é só o maior poeta português vivo, com o Herberto Helder. Porque é que Vossa Excelência teve a ousadia de não lhe responder?
P.S.L. Eu julgo, enfim, eu procuro tratar as pessoas sem estabelecer diferenças entre elas ... Eu procuro ... Devo dizer-lhe que tenho uma preocupação extrema em responder a toda a correspondência que me dirigem, e até costumam dizer - as galerias, as entidades que promovem as mais variadas iniciativas - que nunca houve um responsável pela cultura que telefonasse todos os dias a dizer se vai ou se não vai, a agradecer o convite. Agora há cartas, quando as pessoas me comuni­cam certos factos ... Entendo por vezes que as pessoas não querem respostas. E lembro-me dessa carta, foi quase no prin­cípio do exercício destas funções. Lem­bro-me que a registei devidamente, como já recebi outras cartas de grandes vultos da cultura portuguesa. A algumas cartas respondi, outras entendi que eram alertas que me eram dirigidos e agradeci ... Eu não sou ... Eu sei que tenho essa imagem, é algo que os meus amigos todos dizem, e que me surpreende imenso: tenho uma imagem de enorme antipatia - dizem até que em termos políticos é algo a que eu devo ter atenção -, de arrogância, de sobranceria, e de facto não sou nada assim. Procuro ser agradável, correcto com as pessoas. Não gosto de ser antipá­tico. Agora, sou uma pessoa muito fechada ao princípio e as pessoas depois quando me conhecem vêem que sou uma pessoa completamente diferente da imagem que acho que passa na televisão ou nos jornais. Todas as pes­soas que estão comigo me dizem: “Eu não podia consigo!”
Essa carta, lembro-me que a tomei como um alerta em relação à acção cultural. Li-a duas, três vezes, mas achei que era uma pretensão da minha parte pôr-me a escrever cartas a um grande vulto.
K: Sabia que era um grande vulto?
P.S.L. Sei. O Mário Cesariny sei que é um grande vulto ...
K: Conhece a poesia dele?
P.S.L. Conheço. Eu gosto muito de poesia, sabe? Mas ... não ... é por… cos­tumo ler o que ele escreve e às vezes ele não escreve só poesia. Costumo, não: leio, já li, mas ... não é por isso, não é por pensar. .. Por exemplo, recebi aqui há tempos uma carta do Manoel de Oliveira - não estou a fazer comparações - mas não tive a preocupação de lhe responder.
K: Diga lá o que vai fazer ao Museu de Etnologia.
P.S.L. O Museu de Etnologia, devo dizer para já que não gosto do nome. Acho que é um nome carregadíssimo, que ninguém ... é um nome excessivamente científico ­entre aspas - e que não é atractivo para as pessoas o irem visitar. Eu vou manter o diploma que o meu gabinete fez, revo­gando a integração do Museu de Arte Popular enquanto tal, como julgo que devo manter o Museu de Etnologia, embora talvez com outro nome. Eu não quero acabar com o Museu de Etnologia.
K: A quem é que quer agradar?
P.S.L. A quem é que quero agradar? Não tenho uma preocupação muito ...
K: Como Vossa Excelência disse uma vez que não queria agradar a Gregos e Troianos, quer agradar aos Gregos ou aos Troianos?
P.S.L. Os Gregos ...
K: Quem são os Gregos e quem são os Troianos?
P.S.L. Eu não os defino. Eles definir­-se-ão no fim da minha actuação como Secretário de Estado da Cultura.
K: É o que se verá em 1991.
P.S.L. Se ganharmos as eleições, se o senhor Primeiro-Ministro me quiser man­ter neste cargo, eu terei todo o gosto em continuar. Posso lhe garantir: é ... é um commitment, é um compromisso que tenho comigo próprio. Eu acho que são fasci­nantes os anos que aí vêm e vou enqua­drá-los como tal. E em todas as áreas: na cultura, no cinema, no teatro - o teatro é para mim um desafio enorme; já lhe disse isto no Dia Mundial do Teatro e você na altura não acreditou ...
K: O senhor não disse nada; quem disse tudo foi o Primeiro-Ministro. E disse tudo muito mal dito.
P.S.L. O senhor Primeiro-Ministro era a estrela do dia. A minha função era chegar-me para trás, como nos filmes ...
K: Desculpe, não estou nada de acordo! No que respeita à Cultura, a estrela - se é de estrelas que se trata - é o senhor! O senhor é que é o Secretário de Estado da Cultura. O senhor Primeiro-Ministro devia estar calado e não falar de coisas que não sabe. Estou convencida que Vossa Excelência talvez ache que sabe tudo; e está convencido que sabe, que tem ideias e soluções para os problemas enormes que existem. Agora de certeza que o senhor Primeiro-Ministro não só não sabe como não se sabe expri­mir. O que é grave!
P.S.L. Talvez o Primeiro-Ministro não tenha o mesmo grau de concentração e formação nessa área que cada um dos responsáveis desses departamentos. Eu ...
K: Porque é que está sempre calado? Desculpe interrompê-lo, mas tenho de o fazer.
P.S.L. Interrompa à vontade.
K: Porque é que está sempre calado ao pé do Primeiro-Ministro? Porque é que quando foi para o Parlamento Europeu estava sempre calado, com ar de menino bem comportado atrás do professor Cavaco Silva? Porque é que quando está o Primeiro-Ministro se cala, sendo o Secretário de Estado da Cultura? Porque é que deixou, porque é que admitiu que fosse o Primeiro-Ministro a dizer aquelas coisas no Dia do Teatro? E porque é que não nos disse o que pensa, porque é que não falou para nós? Não sabemos nada do que é que pensa! Percebe? Não o conhecemos de parte nenhuma. O senhor não faz parte do nosso universo. Caiu, apareceu-nos aqui e ficámos todos, quer no teatro quer nas outras áreas, a dizer “mas o que é isto que agora nos apareceu?” E pronto. Tem 33 anos, pão é nenhum velhadas horroroso, tem até bom aspecto, já é bom ...
P.S.L. Mas não pertenço ao universo ...
K: Não. Não tem nada a ver connosco.
P.S.L. Em relação a pertencer ao uni­verso, eu isso já tive a oportunidade de conferir e estudar... Nenhum dos meus colegas da cultura, nas Comunidades Europeias ... Eu não sou sempre uno, per­tenço ao que chama o universo ...
K: Mas não me respondeu: como é que caiu aqui?
P.S.L. Não sei, não é cair: foi o Primeiro­-Ministro que se lembrou, que me convi­dou. E eu devo dizer: a cultura ... Vamos lá ver. .. aliás o doutor Lucas Pires, na sua opinião um Ministro da Cultura exce­lente ...
K: Na minha opinião.
P.S.L. Pronto, na sua opinião. Ele é originário até das mesmas áreas do que eu; é um homem da Universidade, da Faculdade de Direito, da ciência política exactamente de onde eu sou.
K: Que curso é que tirou?
P.S.L. Direito.
K: E com que nota?
P.S.L. Acabei com 15, na Clássica de Lisboa. Fui sempre um dos melhores alunos do meu curso. Tenho quase pronta a minha dissertação de mestrado, para depois seguir para o doutoramento. Quando fui para o Governo da primeira vez tinha 29 anos; depois fui para o Parlamento Europeu.
K: É natural: tinha por trás o maior partido português ...
P.S.L. Eu sei. E foi como sabe: não falei na campanha porque o meu partido assim o entendeu - e eu achei bem, embora tenha sido um papel custoso, que eu fiz com todo o sacrifício. Mas eu acho que nos devemos sacrificar por causas colec­tivas, projectos colectivos. Trabalhei muito com o doutor Sá Carneiro. Eu era o seu assessor jurídico quando ele era Primeiro-Ministro. Era um gaiato, como se diz em certas zonas do país. O doutor Sá Carneiro, lembro-me, na altura dispensou a segurança e zangou -se com a polícia. E eu andei a fazer de guarda-costas dele; ele não aguentava, por causa da coluna, levar pancada nas costas quando estava no meio das pes­soas e eu, como era mais alto, lá andava sempre com os braços à volta, e adorava fazer o que ele me pedisse. Lembro-me que à noite - nunca escrevi isto; um dia hei-de escrever, tenho já muita história para contar, com quase 34 anos -, à noite ia ver o colchão dele, se ele tinha a tábua para as costas, e ia pôr-lhe um bocadinho de whisky que ele gostava e nunca me cairam os parentes na lama, pelo contrário. Com o professor Cavaco Silva (e para a maioria das pessoas era também um personagem caído do céu ou de outro sítio qualquer), andei a correr o país com ele, de ténis e calças de ganga, dentro do carro, escon­dido, a escrevinhar-lhe discursos e inter­venções de terra para terra, quando ainda não havia mais ninguém... Porque pouco depois passaram a ser milhares à sua volta e foi nessa altura que eu pedi para sair para o Parlamento Europeu. Estávamos a caminhar para ganhar e eu, quando vejo aparecer muita gente, gosto de me pôr de lado, gosto de fugir, de desaparecer. Detesto multidões; não é multidões, detesto é... ver chegar muitos, quando eles chegam com as malas, sabe qual é a sensação? Por isso fui para o Parlamento Europeu. E para pela primeira vez poder estar à vontade, pedi para sair do governo, que é coisa que ninguém sabe.
K: Acha que tem vocação para ser Secretário de Estado da Cultura?
P.S.L. Acho... acho. Acho que um político não deve pensar que é capaz de executar todo e qualquer cargo, embora eu entenda a política ou tenha uma visão que muitas vezes os inte­lectuais não gostam. Eu julgo que um político tem de ser alguém com uma formação razoá­vel ... uma formação e informação razoável e, depois deve ter uma capacidade de decisão e sentido político.
K: Acha que é um homem culto?
P.S.L. Considero-me um homem culto. Não... não... enfim. Não vou repetir afirmações incor­rectas que algumas pessoas fizeram quando eu tomei posse, mas não me considero um intelectual, nem o pretendo ser. Ainda no outro dia dizia por graça ao Primeiro-Ministro, “Não pense que me tornei num intelectual que nunca fui”. E ele olhou para mim com uma cara tipo “Agora, também este!”... Mas enfim... é o lugar que eu mais gostei de ocupar até hoje. É um lugar fascinante.
K: Desculpe interrompê-lo: que esperança nova é que Vossa Excelência veio trazer ao teatro ?
P.S.L. Não sei. Mas quanto mais não seja, eu defini e vou concretizá-lo, duas prioridades muito fortes na minha actuação: o património, a defesa do património...
K: E o teatro.
P.S.L. E o teatro. E até expliquei porquê. Você é que se calhar não lê o que eu digo. Aliás não tem obrigação nenhuma de ler...
K: Leio, leio! Quando vejo, leio. Não ando à procura, mas...
P.S.L. Eu disse-o já em entrevista, disse até em mais do que uma... mas talvez só em uma tenha vindo a público. Disse “O teatro é a área em que eu senti mais mágoa” - e já o disse ao Primeiro-Ministro, que aceitou a minha formula­ção -, eu comparo o estado em que está o teatro ao estado em que estão alguns dos nossos monumentos: estão a desagregar-se. No caso do teatro, é por falta de ânimo, que é o principal. As pessoas estão muito magoadas com os vários revezes que sucederam, segundo me têm dito, principalmente desde o 25 de Abril; olhe, mesmo o Raul Solnado dizia, no outro dia, ao Rui de Carvalho: “Temos mais saudades no que respeita à maneira como éramos tratados no antes 25 de Abril do que no pós-25 de Abril, porque de facto no pós-25 de Abril só fomos aproveitados, utilizados e espezinhados”.
K: Esses não têm nada de que se queixar.
P.S.L. Talvez não tenham, não sei, mas...
K: Esses, esses dois.
P.S.L. Pronto, esses dois. Mas eu sinto isto em todo o lado: sinto no teatro de revista, sinto no chamado teatro comercial...
K: Não há teatro comercial em Portugal. Era bom que houvesse.
P.S.L. Praticamente não há. É aquela área que eu julgo que tem mais do próprio povo. Eu julgo que o teatro, enquanto expressão artística oralmente transmitida também, julgo que é aquela que tem uma relação mais directa com a identidade cultural de cada povo e que é impossível a forma de expressão teatral... é difícil, é por isso que eu julgo que quando há uma grande diferença de tipo cultural de civili­zações, as representações teatrais não têm grande sucesso de uma civilização para outra. Isso ainda aconteceu na Europália, por exem­plo, com o teatro japonês em 1989. Era difícil. As pessoas têm uma maneira de se exprimir, de se falar, essa arte de representar tem de corresponder a quem... - enfim, estou a falar com quem sabe -, mas o representar é tradu­zir de facto a maneira de estar, de ser, de falar dos cidadãos, das pessoas, dos membros com­ponentes de uma comunidade, de um povo; isso não se transplanta de um sítio para o outro. E o teatro é o que está mais dependente, de facto, do modo como se mexe cada país em relação a cada área artística, e eu senti-o completamente abandonado e julgo que é uma constatação de facto: são os espaços, são os equipamentos, são as pessoas, está tudo num estado a precisar de intervenção, atenção e cuidado urgente.
Agora, vim encontrar um estado de coisas com que eu não concordava nada e demorei alguns meses a tomar algumas decisões porque tive imensos problemas de consciência, e continuo a ter, em pôr a minha assinatura em coisas com que não concordo e que vêm preparadas de há muitos anos mas que eu acho que não podem nem devem continuar a ser...
K: Quais, se não é indiscrição? Em relação ao teatro, que é onde estamos agora.
P.S.L. Em relação ao teatro, posso dizer-lhe desde já que acho que não faz sentido o modo como está articulado o Teatro Nacional D. Maria e a Direcção-Geral de Acção Cultu­ral. Foi algo que já senti, acho que não faz sentido termos um teatro nacional que funciona por si, para um lado, e termos uma entidade que toma conta ou lida com o resto das compa­nhias, completamente por outro lado.
K: Então como é que havia de ser?
P.S.L. Eu julgo que tem de haver uma enti­dade... O Teatro D. Maria II deve estar inte­grado no Teatro Nacional numa... entidade.
K: Isso é perigosíssimo, sabe?
P .S.L. O que é que é perigosíssimo?
K: É perigosíssimo em relação a um Teatro Nacional, que seja uma directora geral ou um director geral a ter a responsabilidade do que se possa passar. Não acha que os teatros, nacionais ou não, devem ter à frente, como principais responsáveis, as pessoas do teatro?
P.S.L. Não, eu não ponho isso... Acho que o director geral pode ser uma pessoa do teatro. A minha ideia é que haja uma combinação de pessoas com os dois tipos de perfis: pessoas que sejam do meio e - acho que fazem sempre falta - pessoas que não sejam do meio. Porque estão mais à vontade para decidir face aos grupos que existem. Porque é como em tudo, na Cultura é como em tudo: também no meio da engenharia, no meio dos advogados, há os seus grupos, há as suas listas, cada um tem os seus amigos que cristalizam ao longo dos anos. E se cada um deles é chamado por vezes a decidir, a justiça não é tão grande como a que se pode obter de outra maneira. O que não faz sentido O director do Teatro Nacional hoje em dia… O Teatro Nacional pode e deve ser um teatro com um elenco permanente, como é o nosso Teatro Nacional, o que não acontece em todos os teatros nacionais... sendo um teatro com um elenco permanente, procurando que seja um pólo dinamizador de uma actividade que está quase morta. E está quase morta porque os espaços estão quase mortos, os equipamentos podres, não existem. Eu julgo que este ano vamos ter, de uma vez por todas, de canalizar muita verba para o investimento em espaços e equipamentos.
K: Então e depois o que é que acontece aos actores, aos encenadores, aos cenógrafos por­tugueses - que ainda há alguns bons, não somos todos péssimos - se o senhor vai investir o dinheiro a arranjar os teatros todos? O que é que a gente vai fazer, para onde é que nos manda?
P.S.L. Mas não acha... Para já responda: não acha que se tem de investir nos espaços?
K: Acho que o senhor tem de ir buscar mais dinheiro.
P.S.L. Ah! Pois, o problema é esse! Pudera eu... Estou-lhe a dizer... se eu tivesse...
K: Acho que tem de ser mais bem aconse­lhado!
P.S.L. Se eu tivesse o orçamento... Se tivesse o orçamento que tinha este ano, não tinha hipótese de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não sou muito aconselhado, sabe"
K: Sei.
P.S.L. Não é que não ouça muito as pessoas.
K: Eu sei que não é nada aconselhado. Eu sei que não gosta que o aconselhem.
P.S.L. Tenho ouvido muito as pessoas, mas tenho a mania de decidir sozinho. Não quer dizer que não procure ouvir. Não parto nada do princípio que eu sei. Não parto nada desse estado de espírito, parto de contrário: eu não sei
K: Então se não sabe, quem é que o informa?
P.S.L. Não... Eu peço os documentos, peço estudos e depois leio; leio, estudo, analiso, vou aos sítios. É o que as pessoas me dizem.
K: Eu, de facto, já percebi que a sua cabeça anda muito depressa. Podemos fazer aqui uma pausa. Estou a maçá-lo"?
P.S.L. Não está a maçar nada. Eu gosto muito de conversar.
K: Gosta?
P.S.L. Eu? Até às tantas da manhã, todas as noites. Largo daqui...
K: Nos Stones?
P.S.L. Mas não só. Também...
K: Sobretudo nos Stones?
P.S.L. Sobretudo nos Stones, porque eu gosto muito de música romântica.
K: Quando é que lê?
P.S.L. Leio normalmente quando me deito. Leio muito já deitado e leio... Depende; olhe, hoje em dia leio muito no carro, quando ando com motorista, que é algo que eu tenho desde a primeira vez que fui para o governo. Não é por vaidosice, acho que é dos investimentos mais rentáveis que existem na civilização actual: poder ter alguém que conduza o carro, porque poupa imenso tempo.
K: Pois, pois.
P.S.L. Pois é, mas leio muitas coisas ao mesmo tempo. Sou incapaz de estar a ler só um livro. Leio muitas coisas ao mesmo tempo e não as leio de seguida.
K: Já me vai dizer o que é que lê, que eu gostava de saber. Mas o que é que me disse que vai escrever?
P.S.L. Eu não disse nada.
K: Disse, disse.
P.S.L. ...
K: Você escreveu um livro.
P.S.L. Publiquei dois, embora tenha escrito um. Eu não quero nem escrever livros muito depressa nem plantar uma árvore muito depressa, sou um bocado ...
K: O que é que quer, então?
P.S.L. Tenho 33 anos, quero ir fazendo aquilo que gosto, acho que deve ser a nossa procura na vida. Já começo a sentir a necessidade de escrever... não quero chamar memórias, mas de pôr no papel... porque acho que nesta altura entramos noutra fase da vida.
K: O que é que acha que faz de si um homem perigoso, de quem, politicamente, se tem medo, de quem o professor Cavaco Silva tem medo?
P.S.L. Sou muito detestado, não tenho dúvida nenhuma sobre isso; sente-se em sectores da Imprensa.
K: Importa-se com o que diz a imprensa?
P.S.L. Importo-me.
K: Acha que é injusto? Acha que está a ser maltratado nos jornais?
P.S.L. Até agora acho que a imprensa está a ser muito simpática comigo e com o Secretário de Estado da Cultura. A generalidade das pessoas, o que me tem dito é que eu - pode não ser assim - dei um pouco a volta às coisas desde que entrei. As pessoas, em entrevistas e con­versas, têm-me dito que dei um pouco a volta no ambiente quando entrei na Cultura. O ambiente hoje é completamente diferente. As pessoas vinham à espera que eu viesse fazer não sei que acções de selvajaria política e a pouco e pouco estão agradavelmente surpreendidas com o modo como tenho exercido as minhas funções.
K: Volto à minha pergunta: porque é que é um homem politicamente perigoso para o professor Cavaco Silva?
P.S.L. Não, para ele acho que não sou.
K: O que é que quer? Quer ser Primeiro­-Ministro? Acha que vai ser Primeiro-Ministro?
P.S.L. Ah, não sei, não faço ideia.
K: É rico?
P.S.L. Não, não sou. O bem que tenho, o único, é esta casa que vê e a propriedade em que está.
K: Mas vive bem, relativamente?
P.S.L. Olhe, tenho encargos. Basta ter esta propriedade no Alentejo para ter vários encargos. Posso dizer-lhe, as minhas contas bancárias - que tenho em dois ou três bancos - ou estão a zero ou estão negativas. Não tenho dinheiro hoje em dia para as responsabi­lidades que tenho por mês. Pago uma renda de casa de 100 contos - não arranjei mais barato - mas tenho uma casa razoável no Areeiro, num prédio de 30 ou 40 anos.
K: Onde é que vivia antes? Vivia em Lisboa?
P.S.L. Vivi na Costa de Caparica, vivi em Carcavelos, vivi na Quinta da Luz, porque como adoro o mar, sempre que posso estou ao pé do mar. Não tenho mais bem nenhum. Não tenho mais conta nenhuma. Detesto ter contas a prazo, nunca tive dinheiro para isso. Só ganhei dinheiro uma vez: foi no Parlamento europeu. De facto, aí ganha-se muito bem.
K: E um social-democrata convicto?
P.S.L. Sou um social-democrata de profunda inspiração liberal, profunda inspiração liberal. Mas devo dizer-lhe que sou muito relativista em matéria de ideologias e acho que elas não acabaram mas estão todas em substituição. Neste momento, considero-me em fase de interlúdio, em matéria de ideologia. Também acho que todas elas... por exemplo: esta moda do liberalismo, eu acho que é uma moda.
K: Qual o actor ou actriz com quem o senhor almoça, ou tem alguma relação de amizade?
P.S.L. Almoçar ou jantar não costumo fazer muito, mas aquele com quem tenho uma rela­ção mais próxima e há mais tempo, embora hoje não muito frequente, é o Herman José.
K: Ah! E pintor?
P.S.L. Pintor... Relação próxima, que me lembre, com nenhum. Há o Saramago da pin­tura, o Rui Manso.
K: E escritor?
P.S.L. Tenho ali um quadro dele de que gosto muito.
K: E escritor?
P.S.L. Escritor com que me dê? Nenhum.
K: E músico?
P.S.L. Estou a pensar nos meus amigos... se algum deles é músico ou escritor...
K: Não, um músico português com quem o senhor almoce ou jante, com quem goste de conversar, que seja das suas relações.
P.S.L. É um músico controverso, mas é uma pessoa que é mais das minhas relações (embora isto levante especulações com os pro­blemas que há na música hoje em dia); é o Adriano Jordão. É com ele que tenho uma relação mais próxima.
K: Quer dizer, não tem relações nenhumas de amizade?
P.S.L. Hum...
K: ...ou de intimidade ou de ...nada, com ninguém que faz parte do universo do qual o senhor é Secretário de Estado. Estou a dizer bem ou não? Está de acordo comigo?
P.S.L. Estou... está a dizer bem, mas pense no seguinte: eu tenho a minha maneira de ser e sempre foi... como não tenho nenhum amigo na política a não ser o Durão Barroso que andou comigo na Faculdade e que foi para a política.
K: E o Antóno Pinto Leite e o Marcelo.
P.S.L. O Marcelo Rebelo de Sousa. Sim, mas o Marcelo, como sabe, é um caso de amizade muito especial. Com toda a gente, não é comigo. Eu acho que ele sabe ser amigo das pessoas, mas não é um amigo de todos os dias
K: Mas onde eu quero chegar é que o senhor não tem nenhuma relação particular de amizade com ninguém que faz parte do universo do qual é Secretário de Estado, percebe?
P.S.L. Sim... Eu não faço tenções de mudar nunca, nunca fiz. Dizia-lhe há pouco, não mudei minhas amizades por causa da política, nem pelos cargos que exerço. É pelas circunstâncias da vida. Jogo futebol aos sábados de manhã com as mesmas pessoas com que jogo há vinte anos... Não frequento os meios... houve uma época, em que me atribuíam um excessiva preocupação porque eu apareci muito... O meu amigo Marcelo Rebelo de Sousa punha-me constantemente na Olá! Então, as pessoas tinham a ideia que eu adorava festas sociais, que adorava jantares, cocktails ou recepções, que é uma coisa a que vou tão pouco quanto possível. Gosto muito de dançar e gosto muito da noite. Gosto imenso de estar acordado quando ninguém está. De andar em Lisboa, quando Lisboa está a dormir.
K: O senhor é Secretário de Estado da Cultura está em contacto com um universo mais interessante, mais rico, com as pessoas mais fascinantes que o seu país tem. Como é que não aproveita isso? Mesmo para si, pessoalmente
P.S.L. Eu detesto que as pessoas tenham o sentimento que estou a utilizá-Ias ou às funções em que estou. Quero continuar exactamente a mesma pessoa e a fazer o que fazia. Só tenho uma obrigação: é procurar ler muito mais, estudar muito mais, informar-me muito mais sobre aquelas que são as minhas áreas de preocupação. É a única mudança. Detesto que as pessoas pensem “agora este aparece ou telefona. É Secretário de Estado da Cultura aproveita para aparecer em meios que nunca frequentou ou para se dar com pessoas que nunca lhe ligaram.” Detesto que pensem isso.
K: Acha que as pessoas são assim tão más?
P.S.L. Sim. Acho que as pessoas são más.
K: Acha que as pessoas são más?
P.S.L. Acho. O Português diz sempre mal. É maldizente por natureza. Dou-lhe um exemplo, a outro título: quando o doutor Sá Carneiro ­que foi a pessoa com quem tive uma relação humana das mais interessantes da minha vida - me convidou a trabalhar com ele, era a pessoa com quem eu mais queria trabalhar. Tinha vinte e dois ou vinte e três anos na altura, mas nunca... Porque isso é uma coisa que imponho a mim mesmo, interiormente... e lutei por ele, lutei na altura contra os Inadiá­veis, fui ao congresso do partido fazer um discurso... Mas lembro-me que quando passava por ele - e apesar de ter uma admiração louca por ele, já eu era presidente da Associação Académica de Direito -, nunca olhei para ele. Detestava que ele pensasse que me estava insinuar ou a fazer-me engraçado, ou a aproxi­mar-me para tentar. .. Nunca! Nem sequer - ­tenho a consciência tranquila - dirigi os olhos para ele. Até o dia em que me chamou e disse: “Gostei muito do que você disse e gostava que a partir de hoje trabalhasse sempre comigo. E pronto, aí sim, fiquei a trabalhar com ele. Portanto funciono assim com as pessoas. Se têm a gentileza de me convidar, eu normal­mente vou sempre. Agora, não convidam, não apareço. Sigo muito o ditado português “À boda e baptizado, não vás sem ser convidado”.
K: E casado?
P.S.L. Sou.
K: Fala inglês e francês?
P.S.L. Inglês, francês e alemão.
K: Ah. E leu Proust?
P.S.L. Já li há muitos anos, já não me lembro: É como se não tivesse lido.
K: Foi os Ensaios que leu?
P.S.L. Já não me lembro. Lembro-me que lia muito essas empreitadas quando andava no liceu e estudava filosofia. Dedicava-me a elas de alma e coração.
K: E Joyce? Leu o Finnegan’s Wake e o Ulisses?
K: Não?! O Secretário de Estado da Cultura não leu o Ulisses nem o Finnegan’s Wake?
P.S.L. Não, não li.
K: Qual foi o último livro que leu?
P.S.L. Não há último.
K: Português?
P.S.L. Ah, o último português? O último português é impróprio que se diga, mas foi uma releitura das Memórias de Salazar do Franco Nogueira. E estou a ler também... li o do, como é que se chama... do Miguel Fernandes Jorge...
K: Qual foi a última peça que viu em Portugal, sem ser o What Happened... ?
P.S.L. Sem ser essa, além do Renaissance Theater...
K: Gostou do Renaissance?
P.S.L. Gostei, gostei ...
K: Gostou do Rei Lear e não gostou do Midsum­mer’s night ...
P.S.L. Gostei, gostei. Infelizmente só fui à estreia, depois perdi o Rei Lear, que foi uma estupidez.
K: Que é que pensa do teatro independente? Qual é o grupo que acha mais eficaz, mais profissional?
P.S.L. Isso acho que não devo dizer, nem fazer comparações nas funções em que estou, nem dizer qual é o pintor de que mais gosto ... gosto bastante de pintura, mais do que es­cultura, devo confessar. Embora haja escul­tores de quem sou fã. O Rodin fascina-me, mas...
K: João Cutileiro, gosta?
P.S.L. Gosto, gosto do Cutileiro, embora ...
K: Pessoas de esquerda, tem algum precon­ceito contra elas?
P.S.L. Não, não tenho nenhum.
K: Gosta que apareçam com iniciativas ou gosta de ter as suas próprias iniciativas?
P.S.L. As duas coisas. Têm-me impressio­nado imenso o número de iniciativas... Nunca pensei que houvesse tantas. Isso tem si­do a maior surpresa para mim nestas fun­ções
in K, nº1, Outubro de 1990

Terça-feira, Janeiro 30, 2007

Está na cara


Texto: Miguel Esteves Cardoso

Em bom português, a expressão “Estás com boa cara" significa exactamente: "Ultimamente tens andado com má cara." A partir de uma certa idade, a cara י muito importante. De nada interessa uma pessoa sentir-se bem, ou estar bem, ou mesmo ser bem. Em Portugal, todos os check-ups do mundo não valem o olhinho arguto de um transeunte que diz "Estás com má cara".


A nossa civilização baseia-se numa ideia tripla:
1.Tudo está na cara.
2.A palavra "cara" é feminina.
3. A mim não me enganas tu.

As pessoas podem fazer o que quiserem, mas ninguém liga ao que elas fazem. Para os portugueses só interessa a cara que têm. Pode ser-se arquitecto mas se calha ter "cara de quem nunca fez um desenho na vida" está lixado. Pode nunca ter provado uma pinga de vinho na vida mas se alguém afirma que é alcoólico e há outro que diz "Tem cara disso ... " pode considerar-se bêbado para todos os efeitos. Pode ser a pessoa mais amistosa e gregária do mundo, mas se tem "cara de poucos amigos" toda a gente foge dele.


A cara mais interessante é a "cara de caso", que não tem tradução possível nas outras línguas. Trata-se da cara de quem acaba de passar por certa experiência sem se querer, pelo menos à partida, descoser. Em português, a exclamação “Estás com cara de caso... " significa a interrogação "O que é que se passou?"


No Brasil, que é Portugal levado às últimas consequências, sem complexos nem mariquices de qualquer género, chega-se ao ponto de reduzir um indivíduo ao semblante, usando-se "cara" para dizer "pessoa". O mais engraçado é que, sendo "cara" do género feminino, se diz "o cara". Imagine-se que se dissesse "o bochechas". Não, porque "o bochechas" até se diz. De qualquer forma, é estranho que se diga “o cara", referindo-se um homem, mas não se diga “a cara" quando se fala de uma mulher. Não? Em Portugal limitamo-nos a dizer "Minha cara amiga", que poderá não querer dizer, ao contrário do que se pensa, “Minha querida amiga", mas sim "Minha carinha amiga", como quem diz "Minha carinha laroca". Também não? Então pronto.


A confusão sexual à volta da cara é característica. Uma das coisas que mais me preocupa e encanta é a questão dos géneros na língua portuguesa. No corpo humano é encantador como masculino e feminino se complementam. Os olhos estão com as sobrancelhas, o nariz está com as narinas, a boca está com os lábios, as orelhas estão com os ouvidos, o queixo está com as mandíbulas e o cabelo está com a cabeça. Para cada coisa arrapazada há uma coisa arraparigada.
Esta sintonia prolonga-se no resto do corpo. As pernas são claramente femininas, mas são interrompidas pela solidez masculina dos joelhos. As belinhas barrigas das pernas, todas curvilíneas e insinuantes, encontram de bom grado a robustez machista dos tornozelos. As mãos, espalmadas e bonitas, não passam sem os dedunchos decididos e meninos. Aliás, é engraçado como tudo o que é ossudo e rijo tende a ser masculino (tornozelos, pulsos, joelhos, cotovelos, pescoço, ombros, dedos, quadris) e tudo o que é arredondado e fofinho tende a ser feminino (bochechas, nádegas, maminhas, ancas, pernas, barriguinha). Em tudo se encontra um equilíbrio yin-yang, facilmente explicável com filosofias da treta. Excepto numa coisa. Por que carga de água é que os órgãos internos mais importantes são todos do género masculino? Que lição há aqui para aprender? O coração, o fígado, os rins, o cérebro, os nervos, os intestinos ... até o sacana do útero é masculino! A representação feminina ou é superficial (a pele), trivial (laringe, faringe, vesícula) ou óbvia (vulva, vagina, trompas). O que é que isto quererá dizer? Que são os homens que trabalham, lá nas profundidades da casa das máquinas, enquanto as mulheres se limitam a dar a cara? Tudo isto é muito complicado e sabe-se lá se levará a algum lado. Os estrangeiros ficam fascinados. O Sol é masculino mas as estrelas são femininas. A Lua é feminina mas os planetas são masculinos. O mar é masculino mas a água é feminina. O fogo é masculino mas a chama é feminina. A terra é feminina mas o solo é masculino. Se há uma lógica interna na atribuição sexual das coisas é a seguinte: a matéria e o fundamento das coisas tendem a ser masculinos, mas a ideia, a aparência e a coisa em si tendem a ser femininas. Por outras palavras, os homens estão, mas as mulheres são.


É um exercício fabuloso. A casa é feminina mas o lar é masculino. O sexo e o amor são masculinos mas a paixão é feminina. O ciúme é masculino mas a inveja é feminina. A Pátria e a Nação são femininas mas o Estado e o Povo são masculinos. Os órgãos de soberania são masculinos (Governo, Presidente, Parlamento, Tribunais) mas os conceitos em que assentam são femininos (Democracia, Representação, Política, Filosofia). Aliás, quanto mais se persiste mais se percebe que tudo o que é masculino tende a ser um tanto ou quanto mais foleiro e mais básico do que o feminino. Não há nada a fazer. A diferença entre as mulheres e os homens continua infelizmente a ser a diferença entre o que importa e o que parece importar. Os homens dão a cara, mas são as mulheres as mais descaradas.


Está na cara. É tudo muito complexo. Com que cara se fica quando se explica a um estrangeiro que "ter má cara" não é o mesmo que ser "mal encarado", e que nem uma coisa nem outra tem a ver com o conselho "Encara bem os teus problemas" ?


Aliás, não é por acaso que as mulheres não podem ter “boa cara". Não é que não gostassem de ter. Mas é feio uma senhora "Ó Clotilde, estás com boa cara, pá! Faz quase tanto sentido como dizer que estão rijas ou para dar e durar. Às mulheres diz-se apenas que estão “bonitas” mesmo quando é mentira: De qualquer modo, mesmo que não seja, ficam sem saber se estão com boa cara, que é o que interessa.


À medida que se envelhece, vai-se percebendo que a grande divisória da humanidade não é entre os ricos e os pobres, não é entre os sábios e os analfabetos, não é entre os pretos e os brancos, não é entre os crentes e os infiéis, não é entre os antigos e os modernos, não é entre os esquerda e os de direita, não é entre os novos e os velhos, não é entre os rurais e os citadinos, não é entre os trabalhadores e os patrões, não é entre os compatriotas e os estrangeiros. Não. Não é. É entre as mulheres e os homens. Porque é que Deus fez um mundo. com dois sexos, se se estava mesmo a ver que não ia funcionar?


E porque é que tantas línguas agravaram o problema? A vantagem da língua inglesa é óbvia. É verdade: como é que se explica a um inglês a frase portuguesa "Ele há cada uma !"?


in K, nº 7, Abril de 1991

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007

Instituições: O Bilhar

Fotografia: Mariana Viegas


Chegou o tempo de agir. Espalhados por esse mundo, grupos de homens adultos, liderados pelo neogrunho Robert Bly, dançam ao som de batuques, erguem falos de madeira, perdem-se na floresta, discutem o yin e o yang e o conceito do Novo Homem. Deste hippiesmo mal assumido e recauchutado dizem ser o futuro do sexo masculino. É preciso pensar. A male-bondage ideal é a que primeiro é feita de pai para filho, e depois em instituições saudavelmente criadas para o efeito. Para o verdadeiro equilíbrio masculino encontramos por exemplo os bares, o barbeiro, o alfaiate ou as salas de bilhar. O bilhar é o mais nobre dos jogos. Notem, par favor, como digo jogo e não desporto. No bilhar não há competição gratuita nem fatos de treino. É um concurso de perícia e inteligência e pode-se (deve-se) jogar de smoking, é uma actividade palaciana que dá tanto prazer a quem o joga como a quem vê jogar. Permite conversar, beber e fumar. É perfeito.


Pode-se não gostar muito da França, mas é preciso agradecer-lhe a invenção deste jogo. As primeiras carambolas foram dadas no chão, com bolas bastante maiores do que as utilizadas actualmente. As mesas e as primeiras regras surgiram por altura do reinado de Luís XIV, e a partir daí ganharam grande popularidade nos meios aristocráticos. Mas os grandes praticantes surgiram nas salas de bilhar situadas em cafés e outros lugares públicos, onde os verdadeiros grupos masculinos se reuniam sem preocupações de identidade.


O jogo de bilhar tem diversas modalidades: a partida livre, o jogo de quadro (de 47 ou 71 centímetros, a 1 ou 2 golpes) e os espectaculares jogos por tabelas. Observar um bom jogador de bilhar a três tabelas é ver poesia em movimento.


A mesa de bilhar e uma peça lindíssima. Os puristas jogam sobre uma superfície de ardósia (espessura mínima de 45 mm), coberta pelo pano verde. As tabelas laterais são feitas de caotchouc e têm uma altura de 36 a 37 mm. A madeira que as cerca deverá possuir incrustações de embutido (diamante), colocados em intervalos regulares. Admite-se que a marca do construtor da mesa possa aparecer nessa superfície, mas longe das incrustações. A mesa de bilhar ideal devera possuir um termóstato que elimine a humidade das ardósias e dos panos, mantendo-os a uma temperatura constante de 25°c. As bolas são preferencialmente de marfim, com um diâmetro de 61 mm. São três: duas brancas e uma vermelha. O objectivo do jogo é efectuar o maior número de cara bolas possível. Isso acontece quando a bola do jogador toca nas outras duas, e devera ser feito de acordo com a modalidade que se está a jogar.


Os homens portugueses não têm desculpa para não jogarem mais bilhar, a não ser a escassez de salas em condições. Mesmo assim, Portugal tem boas tradições bilharistas, e actualmente o dr. Jorge Theriaga é o 8º no ranking europeu e 18º no mundial, é um exemplo a seguir.


O bilhar (com as suas variantes snooker e pool ou eight bal) é um jogo masculino. Não é misoginia, é verdade. As mulheres, infinitamente superiores a nós em outras coisas bastante mais importantes, não sabem pegar num taco. Ficam feias, desajeitadas. Sujam-se de giz e aborrecem-se de morte. Rasgam panos e acham graça. As salas de bilhar são dos pouco universos sérios que ainda nos restam, para desabafarmos angústias e alegrias entre carambolas.


por Nuno Miguel Guedes (Agradece-se a colaboração da Federação Portuguesa de Bilhar)

SALAS DE BILHAR LISBOETAS

AS MELHORES:
Ateneu Comercial de Lisboa
Sport Lisboa e Benfica
Snooker Clube (variante snooker e eight ball)
Associação Lisbonense dos Amadores de Bilhar

EM DECLÍNIO:
Jardim Cinema
Emecê
Rialto

MORTAS, MAS NÃO ESQUECIDAS
Café Monte Carlo
Café Gelo
Café Palladium
Café Chave d'Ouro
Café Colonial
Café Império
Cervejaria Portugália

Sexta-feira, Abril 14, 2006

Consumo

in K nº 18, Março de 1992

Sábado, Dezembro 31, 2005

Norte Nome de Portugal


Fotografia: Inês Gonçalves
Texto: Miguel Esteves Cardoso

Primeiro, as verdades. O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.

Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas. Mais verdades. No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior. É que o Norte existe. O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.

Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. É esta a verdade. Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte.

Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade. Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito.

Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos. O Norte é a nossa verdade. Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.

Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte". Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo.

Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente. No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima.

Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita. O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?

in K, Nº 2, Novembro de 1990

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

Aníbal Cavaco Silva

Por Vasco Pulido Valente

Finalmente. O Grande Criador da Democracia de Sucesso. O Líder Incontestado da maioria dos portugueses, o modelo do Novo Homem Português fala à K. São confissões, revelações, soluções e provocações várias. Vasco Pulido Valente foi conversar com o nosso Primeiro-Ministro. O resultado são nove páginas para guardar.
1.

K: Nestes seis anos, o que é que aprendeu?
Aprendi muito e mudei muito. Ganhei uma grande resistência psicológica, que, aliás, julgava que não tinha.

K: Resistência a quê?
À crítica, aos ataques, à pressão.

K: E à ansiedade?
Sobretudo à ansiedade.. Senão, vivia permanente atormentado. Se não conseguisse separar as coisas e dizer «Acabou aqui o trabalho, começa aqui o descanso», continuava na cama a pensar nos problemas do governo. E nos fins-de-semana. Sempre. Mas, com o tempo, ganhei resistência psicológica. Ajuda muito ter a consciência tranquila.

K: Não o incomoda a condescendência da burguesia portuguesa consigo?
Sei o que a burguesia portuguesa pensa de mim. Não venho da «cultura de cocktail», como toda a gente sabe. Depois da Figueira da Foz, percebi que tinha entrado, de uma forma inesperada e radical, num novo universo e que, se não me adaptasse depressa e não surpreendesse, era crucificado.

K: Gosta da burguesia portuguesa?
Respeito as diferenças; respeito o direito à diferença.

K: Gosta ou não gosta?
Depende das pessoas. De algumas gosto.

K: E os ares de superioridade dos «intelectuais>,? Não o afectam?
Alguns julgam-se uma vanguarda esclarecida. O pior, para eles, é que se enganaram.

K: Em quê?
Fizeram, por exemplo, previsões catastróficas sobre o que ia suceder ao País e a mim, pessoalmente.

K: E as insinuações sobre a sua cultura?
Sou especialista de determinados assuntos, não sou de outros: e não pretendo fingir que sou aquilo que não sou.

K: E não se irrita?
Não. Acho algumas dessas pessoas bastante azedas e um bocado frustradas. Mas não me irrito. Continuo a minha vida com toda a normalidade.

K: Considera ainda a política «a pirueta, o floreado, a retórica»? Palavras suas.
Da campanha eleitoral, com certeza?

K: Da pré-campanha.
De um período de luta, portanto. Repare, quando fui eleito presidente do PSD, em 1985, os portugueses estavam cansados de um excessivo verbalismo, de promessas vãs, de políticos muito hábeis em jogadas palacianas. Procurei, de facto, tirar benefícios desse estado de espírito, do desejo de outro estilo e de outros métodos. Hoje é diferente.

K: Não concordo. Nomeia constantemente ministros sem experiência política.
Há quem não aceite os meus critérios de escolha dos ministros. Para mim, a capacidade de análise política ou, por exemplo, de falar muito bem não chega para fazer um bom governante. Acima disso, valorizo a capacidade de executar um programa, de realizar uma obra.

K: Uma obra política, em todo o caso: o que implica estabelecer prioridades, gerir conflitos...
..gerir expectativas...

K: ...e por aí fora, coisas que a competência profissional não inclui. Caso contrário, qualquer economista competente e sensato podia acabar em Primeiro-Ministro.
Bem, em Portugal, até aconteceu. Mas não. Com certeza que não. Não é assim. O papel político do Primeiro-Ministro, e dos ministros, é evidentemente essencial. Claro que tenho ministros, por assim dizer, «mais políticos» e outros menos.

K: Gosta de mandar? Não de «mandar para fazer», pura e simplesmente de mandar.
Nem por isso...

K: A sério?
Nem por isso... De resto, existe a ideia errada que o Primeiro-Ministro «manda», que «manda» em tudo. Não manda: as instituições tornaram-se muito mais independentes e o poder tornou-se muito mais difuso. Não está centralizado nesta sala. Os autarcas mandam, os reitores das universidades mandam, os chefes de empresa mandam, os chefes sindicais mandam... imensa gente manda...

K: E o Primeiro-Ministro manda.
Um pouco. O Primeiro-Ministro é um coordenador. Fornece orientações. Normalmente não declara: «quero isto» ou «não quero aquilo», leva a que se faça isto ou a que não se faça aquilo. Por mim, tento que as decisões não resultem apenas da minha convicção pessoal. Procuro munir-me de informações para que as decisões sejam as mais correctas.

K: E esse trabalho dá-lhe prazer?
Dá-me prazer fazer coisas. Ser Primeiro-Ministro às vezes cansa-me. Cansa-me viver muito fechado entre estas quatro paredes. Não pode imaginar como é.
2.

K: Criou o «novo homem português»?
Isso são expressões que se usam. Mas vejo nos portugueses de hoje, ou pelo menos em muitos portugueses de hoje, diferenças significativas em relação ao passado.

K: Quais?
São mais autónomos, menos dependentes. O grau de dependência do Estado, por exemplo, diminuiu muito comparado com o que era em 1985. As pessoas já não olham o Estado como uma espécie de apólice de seguro que protege de tudo. A sociedade civil tem uma forra extraordinariamente maior do que há cinco ou sei anos, embora não tão grande como noutros países, claro. Apesar disso, agora existem verdadeiras instituições da sociedade civil. Poucas e fracas? Talvez. O facto é que existem: e que reivindicam e apresentam propostas com autonomia crescente. Com autonomia crescente, sem dúvida nenhuma. Dantes falava-se da «libertação da sociedade civil». Neste momento, prefiro falar do «fortalecimento da sociedade civil». Acho mais apropriado.

K: Desconfio bastante desse fortalecimento.
Não conhece bem o País. O espírito do País é de reivindicação, de exigência. Não suponha que os empresários ou os professores ou os portugueses em geral se inibem comigo. Um dia destes fui a uma escola primária, levanta-se um aluno e grita: «O Cavaco». Quem pensaria. Um aluno.

K: Um inconsciente.
Não. Um sintoma.

K: Segunda diferença do «novo português».
O cepticismo crónico, a apatia, a falta de confiança das pessoas nas suas capacidades passaram. Ou começam a passar. As pessoas acreditam que podem vencer e que vale a pena lutar, não partem já derrotadas como antigamente. Há outro ânimo. Em 1985, dizia-se que as nossas empresas iam ser esmagadas pelas empresas espanholas. Não foram. Isso contribuiu muito para mudar a atitude dos empresários. Os jovens empresários e os jovens agricultores estão mais abertos a enfrentar uma concorrência muito difícil. Mas não desistem. Querem ganhar e acham que de facto vão ganhar.

K: Não está a projectar os seus desejos na sociedade portuguesa?
Em parte, evidentemente. O meu discurso é um discurso político: um discurso de esperança e de ambição. Tento estabelecer uma meta, dar um certo impulso à sociedade, porque as sociedades tendem a mudar lentamente. Se o Primeiro-Ministro aparecesse com um ar miserabilista, triste, acabrunhado, desiludido, vencido, seria um desastre: a desmoralização geral.

K: E com um excessivo optimismo não corre o mesmo perigo?
O optimismo não me parece excessivo. Reconheço as dificuldades que existem. O perigo era permitir que o País se desmoralizasse por causa delas.

K: Terceira diferença do «novo português»?
Tornou-se exigente. Exige qualidade. Nos políticos. Nos bens culturais e materiais. Nos serviços. Em tudo. Mas também podia acrescentar que o «novo português» é descomplexado, liberto de preconceitos, valoriza a diferença, etc.
3.

K: Que é o pior defeitos dos portugueses?
Acho difícil responder a essa pergunta...

K: São indisciplinados? Reivindicativos?
Não; nem indisciplinados, nem reivindicativos de mais.

K: Conservadores?
Obviamente, gostaria que fossem muito mais abertos à inovação. Admito que sou confrontado com um certo conservadorismo, no sentido de resistência à mudança. Embora as coisas tenham melhorado, para mim não melhoraram tanto quanto deviam. Há ainda uma excessiva «acomodação às situações», E uma certa carência de iniciativa, de agressividade, de gosto em «fazer bem». Que se nota até em pormenores triviais. A casa de banho do aeroporto de Zurique está limpa; a do aeroporto de Lisboa, não. Porquê? Não é possível? Questões de cultura, provavelmente. Em Portugal não se reconhece o mérito, a sanção não funciona...

K: Em Portugal, não se pune o fracasso.
A impunidade caracterizou este país durante anos e anos. O que ajuda a explicar a tendência para a «acomodação». Uma das minhas grandes preocupações consiste precisamente em reduzir o grau de impunidade. Mas não se reduz a impunidade por decreto. Tem de se combater na política, na economia, no trabalho, em todos os domínios. Durante imenso tempo, por exemplo, Uma pessoa competente e uma pessoa incompetente recebiam o mesmo ordenado e, às vezes, a incompetente era mesmo promovida com mais facilidade. Espero que, a pouco e pouco, isso acabe e que a sanção seja efectiva: a sanção política, moral, profissional, económica...

K: O Primeiro-Ministro Cavaco Silva não pune os ministros que falham.
Não puno? Essa é a sua ideia, não é a minha. Nunca revelei, e não posso, nem tenciono revelar, o critério que uso para escolher e julgar os meus colaboradores, incluindo os ministros. O que não significa que não siga um critério estrito, desde 1985.

K: Trata muito bem os ministros que demite.
Não se sai do governo necessariamente por incompetência. Existem razões políticas, que às vezes só por si obrigam a mudanças. E, de resto, quem não é bom ministro pode ser óptimo administrador ou outra coisa qualquer.
4.

K: Onde está a Direita e onde está a Esquerda em Portugal?
Foram desaparecendo... foram desaparecendo. Hoje é difícil identificar claramente uma Esquerda e uma Direita em Portugal. As transformações do mundo arrasaram as barreiras ideológicas. E em Portugal, desculpe que lhe diga, também contribuí um pouco para isso. O eleitorado tornou-se fluido e move-se com uma facilidade inconcebível há meia dúzia de anos. Quem imaginava que milhares de eleitores comunistas pudessem vir a votar em mim, ao mesmo tempo que milhares de eleitores do CDS?

K: No essencial, o que o separa do CDS e do PS?
Custa-me a responder a essa pergunta. Não sei bem o que são hoje esses partidos e mesmo o que é o próprio PSD. Não há conjuntos coerentes de ideias identificáveis como a ideologia do CDS, ou do PS, ou do PSD. Há uma interpenetração. O PSD defende algumas políticas que o CDS defende e políticas que o PS também defende. Parte das minhas políticas passa por ser de Esquerda e outra parte por ser de Direita. E, para não ir mais longe, olhe que até o PS do Dr. Jorge Sampaio propõe pontes privadas. Hoje, na prática, prevalece o pragmatismo e a credibilidade pessoal dos governantes.

K: Então, nada o separa do CDS e do PS?
Se quiser, posso dizer que não aprovo o liberalismo do CDS e que não sacralizo o mercado, ou que não aprovo o «intervencionismo económico» do PS, nem a ideia de que a justiça social se consegue só através da redistribuição. Mas confesso que seria um pouco forçado...

K: Nestes seis anos de governo, enganou-se nas grandes orientações políticas.
Enganei-me várias vezes...

K: Nas grandes orientações políticas.
Nas grandes orientações, acho que não.

K: Vê alternativas a essas orientações?
Marginais. A interdependência na Comunidade Europeia é muito forte e a liberdade de escolha muito menor do que geralmente se supõe.

K: E os limites do País?
São o ponto de onde se parte e também condicionam fortemente a liberdade de escolha.

K: Não existe, portanto, uma estratégia viável diferente da sua?
Em princípio, a de aperfeiçoar o sector público, em vez de tentar diminuí-lo. Não penso que desse bom resultado. Mas prefiro não tentar comparar a situação actual com uma situação hipotética, no caso de ter sido seguida outra orientação. Pessoalmente, acredito que seria pior. Outros acreditam que seria melhor: é uma opção sustentável.

K: Descendo à terra, admite que o PS no governo fizesse uma política diferente da sua?
Não durante muito tempo, embora os resultados fossem diferentes. Se tentasse, sucedia-lhe o que sucedeu ao presidente Mitterrand no primeiro mandato. O PS talvez começasse com uma política diferente, mal, passados doze, quinze, dezoito meses, teria de abandoná-Ia. A realidade não o deixava continuar. Mas os custos que daí resultariam seriam elevados.

K: Nesse caso para que servem os partidos? Bastava o PSD.
São precisas alternativas credíveis.

K: De pessoas?
De pessoas, de métodos e de programa, pelo menos no embrulho. Repare que, no fundo, a oposição promete que vai executar as políticas do governo Cavaco Silva, ou políticas extremamente parecidas, só que diz muito melhor. Hoje ninguém tenta ganhar votos a vender o ideal da sociedade equalitária. Hoje não vale de nada repetir os velhos estribilhos: que os comunistas defendem os trabalhadores, que o socialismo traz a justiça social, que a cultura é de Esquerda. As coisas tornaram-se mais complicadas.

K: Dois políticos deste século que admire. Não diga Sá Carneiro.
De facto, diria logo Sã Carneiro. Conheço mal a história da I República e, como economista, as minhas referências não foram naturalmente políticos.

K: Mais nenhum?
Se lhe dissesse Duarte Pacheco, dizia porque ele também nasceu em Loulé e porque, pelo pouco que sei, era um homem com uma vontade de ferro, enérgico, aberto. Mas só por isso. Não estudei a obra dele.

K: Em política, não tem família.
Há políticos que respeito - admirar não é a palavra - do meu partido e de outros. O Dr. Vítor Constâncio, por exemplo, ainda um jovem. O Dr.. Cunhal, mais velho.
5.

K: O dr. Mário Soares começou a fazer-lhe uma espécie de fronda.
Não. Isso é uma injustiça dos jornalistas em relação ao Presidente da República.

K: A sério?
Quem ler os jornais fica convencido que o Presidente da República não pára de pensar nas maneiras de criar problemas ao governo. Acho uma injustiça.

K: Ele não subiu o tom das críticas ao govemo?
Até agora não, pelo menos às c/aras.

K: Não?
Não. Como Primeiro-Ministro, considero que a atitude do Presidente da República não justifica reparos significativos. De resto, não me pronuncio sobre o assunto. O Presidente da República e o Primeiro-Ministro têm de dar uma imagem de estabilidade ao País.

K: O que não impede que o Dr. Mário Soares seja cada vez mais o centro da oposição.
Quando o Governo e o Primeiro-Ministro entenderem que o Presidente da República se está a substituir à oposição devem tratar do caso com ele próprio e nunca, nunca, na praça pública.

K: O Prof. Adriano Moreira disse, em 1987, que a sua maioria tinha transformado o regime num presidencialismo do Primeiro-Ministro. Se for eleito Presidente da República e essa maioria continuar, passamos ao presidencialismo puro. Ou não? Não. A Constituição não permite.

K: Suponha que é Presidente da República, que nomeia o Primeiro-Ministro, que assiste aos Conselhos de Ministros...
Só por convite do Primeiro-Ministro.

K: Um Primeiro-Ministro do PSD, nomeado por si, certamente que o convidaria...
Não acredito. De maneira nenhuma. Defendo o espírito e a letra da Instituição. Não se pode torcer a Constituição ao sabor das conjunturas eleitorais.

K: Mas, nesta hipótese, a letra da lei seria respeitada, a prática é que mudaria;
Com péssimos resultados. Sempre que o Presidente da República, seja ele quem for, membro do partido do poder ou chefe do partido da oposição, interferir nas competências do governo cria inevitavelmente instabilidade no País. O Presidente deve ficar confinado às suas funções. Cabe ao governo conduzir a política geral do País. O Presidente não dispõe dos instrumentos necessários para o fazer e, se o fizer, fá-Io-à por força pela negativa...

K: Excepto na hipótese que lhe pus.
Mesmo nessa hipótese, o Presidente depressa entraria em conflito com o Primeiro-Ministro. Quando sair deste lugar, espero que quem me suceder, do PSD ou não, não prescinda das suas competências.

K: Não acha a eleição directa do Presidente um resíduo do período «revolucionário»? Não preferia que o Presidente fosse eleito pela Assembleia da República?
Não. Optámos por um modelo que funciona relativamente bem. Neste momento, não me atreveria a tocar-lhe. E note: ao contrário do que sucede em Espanha e em Inglaterra, em Portugal o Primeiro-Ministro não determina a data das eleições e a dissolução do Parlamento. Se o Presidente fosse eleito pela Assembleia, o Primeiro-Ministro ficava com certeza com mais poderes e, então, nem quero pensar no que diriam alguns senhores, que continuam com a cabeça povoada por certos fantasmas.

K: A proposta de lei eleitoral do PSD não prevê círculos uninominais.
Tratou-se de conseguir um equilíbrio entre a governabilidade e a representatividade. Os círculos uninominais asseguram facilmente a governabilidade, mas prejudica excessivamente a representatividade. Em Inglaterra, por exemplo, partidos com mais de 20 por cento dos votos, só elegeram 7 ou 8 deputados. Procurámos uma via intermédia, conservando a substância do sistema em vigor e propondo, entre outras coisas, círculos eleitorais mais pequenos, que aproximam os deputados dos eleitores.

K: Esses círculos pequenos são ainda muito grandes.
Nenhum pode exceder dez deputados.

K: Dez são de mais.
Não nos opomos a que sejam menos e estamos preparados para aceitar menos. Propusemos dez porque duvidamos que o PS concorde com o número inferior. De qualquer maneira, penso que era útil e necessário que a maioria absoluta na Assembleia correspondesse a cerca de 38, 39 por cento dos votos. Isso garantia a estabilidade e facilitava a alternância.

K: Tenciona promover a regionalização?
Quanto à regionalização, sou cauteloso. Não sou totalmente contra, mas sou cauteloso. Por causa dos bairrismos exacerbados e das clientelas políticas. Ao longo destes anos no governo, descobri várias vezes que os maiores defensores da regionalização queriam ser presidentes das regiões. Pessoalmente, preocupam-me alguns problemas. Primeiro, o perigo de recusar a fronteira económica para o interior do País. Se criarmos determinadas regiões no interior, é muito provável que o pólo de desenvolvimento económico delas fique em Espanha. Depois, o perigo da regionalização produzir uma nova classe política e uma nova burocracia. E, principalmente, o perigo de que apareçam em Portugal pequenos nacionalismos. A nossa unidade - linguística, religiosa, étnica... - é uma extraordinária vantagem. Precisamos de garantir sempre a coesão nacional.

K: As oposições insistem...
Ainda por cima, hoje a regionalização tem de se ver a uma luz diferente. Vai-se de Lisboa ao Porto ou a Castelo Branco em duas horas e meia. Daqui a pouco tempo, também já não se leva mais de duas horas e meia do Porto a Bragança. As ligações do País não são o que eram há dez anos e não faz sentido tratar a regionalização como há dez anos.

K: O que significa, na prática, «não ser totalmente contra a regionalização»?
Não aprovo o velho modelo, o modelo do tempo em que todos os partidos estavam na oposição. E espero que a sensatez impere. Que seja feita para promover o desenvolvimento regional e não para servir outros interesses.
6.

K: Qual é, para si, o grande obstáculo ao desenvolvimento económico?
Crescemos nos últimos anos a 4 por cento, uma boa taxa de crescimento. Mas reconheço: a Iniciativa e capacidade empresarial são escassas.

K: Em quê?
Sobretudo em matéria de internacionalização da economia. Muitos empresários pensam só no mercado português e deviam pensar no mercado europeu. E, para actuar no mercado europeu, não basta mandar daqui um telex a anunciar que se vendem sapatos ou outra coisa qualquer. Nada dispensa a presença efectiva no exterior e uma estratégia de internacionalização, visando principalmente a criação de circuitos de distribuição.

K: Quanto a si, donde vem a fraqueza dos empresários portugueses?
Da economia um pouco fechada à competição com um forte paternalismo estatal anterior ao 25 de Abril, e também posterior ao 25 de Abril; talvez da tradição.

K: O mercado obrigacionista está razoavelmente bem e o de acções está razoavelmente mal.
A apetência pelo risco não é muito forte. Nunca foi. A Bolsa só teve uns picos em 1973 e em 1987. Apesar de sermos um dos países do mundo com maior taxa de poupança. Porquê? Porque basicamente os portugueses aplicam a poupança em depósitos a prazo. Entre 1974 e 1984, os únicos instrumentos financeiros que existiam eram, aliás, os depósitos a prazo e os títulos do Tesouro.

K: Não me parece uma tendência muito animadora.
Neste momento há muitos instrumentos financeiros à discrição e há sinais positivos. Por exemplo: 250.000 pessoas compraram acções das empresas reprivatizadas. Mas não se recupera de anos de atraso e desconfiança do dia para a noite.

K: A modernização da economia não implica um aumento considerável do desemprego?
Os economistas dizem que é praticamente impossível obter simultaneamente emprego, desinflação, crescimento e controlo das contas externas. Acredito que seja difícil, mas também acredito que hei-de conseguir realizar uma combinação bastante razoável.

K: Como?
A taxa de desemprego anda à volta dos 4 por cento. Se subir para 5 ou 6 ainda será a mais baixa da Europa. Em Espanha está a 15 por cento e não provoca traumatismos sociais graves. Claro que, em Portugal, muitas empresas vão fechar mas outras vão abrir. O que importa é os trabalhadores arranjarem novo emprego a curto prazo. No Vale do Ave, tem acontecido isso: o número de pessoas inscritas no desemprego é reduzido.

K: Não sobrestima a capacidade da iniciativa privada, que aliás lhe parece «escassa», e a mobilidade dos trabalhadores?
Não. Com um forte investimento em infra-estruturas (que favorece investimentos de outra natureza), com um forte investimento estrangeiro (3 biliões de dólares por ano, dez vezes mais do que em 1985) com o investimento privado, que gostaria que fosse inovador e agressivo e com programas para promover a adaptabilidade dos trabalhadores, acho que se fará a modernização sem custos excessivos.

K: E os 18 por cento da população activa que continuam na agricultura?
Uma percentagem muito alta, sem dúvida. E uma população sobretudo de idosos e de analfabetos que não encontrarão emprego na indústria e nos serviços. Existe para alguns deles a possibilidade de um programa de reformas antecipadas. E durante muitos anos ainda a agricultura terá um desemprego oculto e, por consequência, baixa produtividade. Mas não prevejo saídas em massa e desemprego em massa no sector.

K: Um notável optimismo.?
Não, não sou é um profeta da desgraça. Já preveni a oposição: «se os senhores esperam para os próximos anos a grande recessão, o grande desemprego, a grande crise, acabam com um grande desgosto. Não contem com sapatos de defunto».

K: Como vê a economia portuguesa do futuro?
Uma economia ecléctica. Com uma indústria sólida, que em vez de fundar a competitividade nos salários baratos e nos produtos de massa, a funde em «nichos» de produção tecnologicamente avançada. Com serviços diversificados - turísticos, financeiros, de seguros, de engenharia... Talvez com mais de 50 por cento da população activa nos serviços. Mas não uma pura economia de serviços.
7.

K: Cometeu erros?
Cometi.

K: Por exemplo...
Por exemplo, a forma como introduzi a reforma fiscal, não antecipei a violência das reacções... injustas e de má fé muitas. Em todas as reformas principais julguei que a sociedade podia digerir a mudança mais fácil e rapidamente.

K: Não podia digerir a reforma do Estado?
Recusei a filosofia da reforma global da administração. Sei onde leva: cria-se um grupo de trabalho, o grupo de trabalho transforma-se em direcção-geral, a direcção-geral em secretaria de estado e a secretaria de estado em ministério. E, no fim, não se avançou nada. Prefiro que se descubram e se extingam um a um os organismos inúteis.

K: Extinguiu o mês passado alguns organismos inexistentes.
A Direcção-Geral da Comunicação Social, inexistente? O INIC, inexistente?

K: Não. Mas não me Custava citar-lhe já mais umas dezenas, ou centenas, de organismos inúteis.
E as pedras da calçada a levantarem-se? Cada vez que se quer fechar qualquer coisa - um serviço, um quartel - que devia ter fechado há anos, levantam-se as pedras da calçada.

K: Com a sua fama de autoritarismo, tende a conciliar muito mais do que se supõe.
O autoritarismo não passa de um rótulo. Confunde-se autoritarismo com determinação, com vontade de fazer, com desejo de assumir as responsabilidades. Como não viro a cara e não mudo de agulha ao primeiro obstáculo, chamam-me autoritário.

K: Recua, pelo menos. Em certas áreas e: em certas alturas recuou. Ou não?
Não sou um obstinado. Há vários caminhos e vários momentos para se chegar ao mesmo objectivo. Ao longo destes anos, claro que fui obrigado a esperar e a ajustar muitas politicas às circunstâncias, mas no essencial não desisti dos objectivos.

K: No caso das propinas vai recuar?
Não.

K: Por causa das propinas caíram na CE Vários ministros e governos.
Não vou recuar, porque a situação actual é profundamente injusta e é contra os interesses dos estudantes.

K: Como apura o efeito das medidas que o governo toma?
O acompanhamento da execução das medidas e o apuramento dos efeitos ou resultados está longe da perfeição: não me importo de admitir. Insisto muito com os ministros neste ponto. Não basta aprovar decretos. Existem milhares de decretos, vindos do passado, que ninguém sabe se foram aplicados ou não.

K: E além dos ministros?
Tenho assistentes que me ajudam a questionar os ministros. A imprensa ajuda um pouco. A minha experiência directa também, porque ouço muitas pessoas de fora. Tomo notas constantemente e pergunto constantemente como as coisas estão a correr. Agora mandei preparar «livros brancos»: um sobre o sector financeiro, outro sobre a privatização dos serviços públicos…

K: Por que não sobre a saúde e a educação
Com certeza. O pior é encontrar pessoas para fazer os «livros brancos». Falo de pessoas independentes.

K: Que nota daria ao governo neste capítulo?
Dou uma nota, mas com uma observação. Dou 10, mas acrescento que antes de 1985 dava 4.
8.

K: Portugal está na moda?
A frase não é minha, é do Financial Times e do The Economist.

K: E significa?
Significa que em Portugal existe estabilidade confiança, que vale a pena viver e trabalhar aqui, que vale a pena poupar e criar empresas. Usei essa frase porque neste nosso país às vezes valem mais as palavras que vêm do estrangeiro do que as ideias dos santos da casa.

K: «Estar na moda» significa que começamos a ser normais?
No fundo, sim. Em comparação com um período recente da nossa história, em que éramos vistos como um pouco extravagantes, um pouco loucos irresponsáveis; em que andávamos pela mão do FMI, nacionalizávamos, subsidiávamos empresas falidas, fixávamos administrativamente as taxas de juro.

K: Que mais o preocupa no mundo?
Como toda a gente, que se perca o controlo das armas nucleares tácticas e estratégicas da antiga URSS.

K: Que riscos corre Portugal, em particular?
Principalmente, riscos externos: um novo choque petrolífero seria terrível, ou uma recessão profunda dos nossos parceiros económicos da CEE.

K: Riscos internos?
A desarmonia institucional.

K: Não falou da oposição.
Precisamos de uma oposição mais forte. Se ela não existir, aumentam as peregrinações ao Palácio de Belém para pedir ao Presidente da República que faça o que não lhe compete; ou aumentam as manifestações de rua. Prefiro a oposição partidária no seu lugar próprio: na Assembleia.

K: Conta com o PS?
Conto. A crise do PS não vai durar sempre.

K: Se deixasse agora de ser Primeiro-Ministro, o que é que deixava?
Deixava um país muito mais bem preparado para enfrentar os desafios do futuro e as complexidades da economia moderna: um paí mais sólido, mais confiante em si, mais decidido a avançar e em condições de continuar a avançar.

K: Já tivemos outras épocas de desenvolvimento e de optimismo e, no fim, falhámos. E se falharmos outra vez?
Não ultrapassámos ainda o ponto crítico; não estamos ainda a coberto de situações imprevisíveis, de percalços. Como a Espanha, por exemplo. Para atingir a segurança dos países da frente, da Bélgica, da Holanda, falta ainda «um golpe de asa». Foi essa a razão por que continuei.

K: Pensou em retirar-se?
Pensei, muito seriamente, e resolvi continuar. Claro que em todas as pessoas há um pouco a ideia de que são insubstituíveis. No meu caso, não acho que fosse isso que me decidiu. Pensei: «esta luta é minha e tenho de fazê-Ia por mais quatro anos». Em 1995, Portugal já estará no SME e, portanto, qualquer governo fica perante duas alternativas: ou se porta sensatamente ou é expulso para a terceira divisão. Não acredito que alguém corra o risco de ser expulso.

K: Por outras palavras, Portugal não é capaz de se governar bem sozinho?
Já ouvi dizer que os Estados Unidos precisavam de um acordo com o FMI...

K: Não me respondeu: a nossa ausência de disciplina interna, exige uma disciplina externa?
A Europa Comunitária limita a tentação de adiar as medidas incómodas, atenua a tendência para a facilidade e a demagogia. Não acho mau. Nós hoje, na CEE, co-gerimos parcelas de soberania; conduzimos políticas interdependentes. Nenhum país conduz as políticas que lhe dá na real gana conduzir.

K: E os políticos portugueses inclinam-se excessivamente para a asneira?
Se olhasse para o passado, diria que sim; se olhasse para depois de 1985, diria que não. Afinal os políticos também aprenderam...
in K 12, Setembro 1991

Domingo, Outubro 02, 2005

O Regresso da Amante


Por M S Tavares

(por lapso, foi publicitado que este texto seria da autoria de Miguel Sousa Tavares, o que tal não corresponde à verdade. Este texto é da autoria de M S Tavares que nega totalmente qualquer ligação com o actual escritor/comentador. Desta forma, gostaríamos de apresentar as nossas mais sinceras desculpas a M S Tavares)
A redacção do blog K


Estávamos todos sossegados a usufruir os direitos da liberdade sexual quando apareceu a SIDA para pôr termo à nossa condição. Reagimos mal e não ligámos nenhuma. Agora, que nos apercebemos de que o caso é sério e grave, demos a volta ao contrário e recuperamos um hábito ancestral: a amante. Ter uma amante. Que prazer renovado, esse…

Il y a des femmes qui que leur bon naturel et la sincérité de leur cœur empêchent d'avoir deux amants à la fois.

Alfred de Musset, La Confession d'un enfant du siècle

O pânico causado pelo aparecimento da SIDA inflacionou os salários dos afortunados investigadores, dignificou o preservativo e fez renascer das cinzas dos promíscuos anos sessenta os prazeres da conjugalidade. Não há nada como o medo para pôr as pessoas no seu lugar.

Contudo, poucos são os matrimónios em que, com o passar dos anos, um ou dois cônjuges não tenham dado pelo menos uma escapadela, vivido um caso, arranjado um caldinho, dado uma voltinha e até - aqui chegamos ao que interessa - tido uma amante à moda clássica. A SIDA terá assustado muitos, mas felizmente ainda há mulheres e homens que não arredam pé dos seus desejos.

Ter uma amante é não só manter o respeito pelos laços matrimoniais como também a maneira de não se deixar a si próprio na prateleira. Dito de outro modo, não é o pecado da infidelidade que predomina, mas a renarcisação, na forma mais completa, que é voltar a começar com alguém o que ainda não se acabou com quem tudo tinha começado.

Só quem não quer perder quem tem é que vive com naturalidade a vida dupla que ter uma amante requer. Conservar quem se ame sem abdicar de poder amar mais.

Sem fazer pouco das juras de fidelidade, acontece que as razões que nos levam a desejar, gostar ou amar alguém além daquela a quem jurámos amor eterno, não são as mesmas que nos levam a mentir ou trair.

Esconder uma relação da outra não é o que dá prazer. É o preço para poder tudo guardar.

Desejar, querer ou amar outra não significa necessariamente deixar de desejar, querer ou amar a nossa. Esta espécie de «quero tudo» (difícil de explicar e de ser compreendido pelas mulheres) é que provoca a perversão do engano. Infelizmente, para nós parece que não tem solução.

Há sempre alguém que nos pede uma mentira para a sua felicidade e a nossa culpabilidade.

Esconder um caso ou o facto de ter dado uma voltinha não é tarefa particularmente difícil. Só é preciso ser rápido na sedução e não se deixar afeiçoar ao novo conhecimento. Qualquer libertino sabe isso.

Manter uma relação paralela é uma coisa completamente distinta. São necessárias algumas qualidades (ou defeitos, depende do ponto de vista), além de um sentido de responsabilidade particular.

Não achamos, como muita gente acha, que a qualidade principal seja a capacidade de mentir. Ter sinceramente duas mulheres que amamos e dividirmo-nos com dedicação não é coisa que se faça com base na mentira, é necessário carinho, dedicação e muitíssima atenção. Ser capaz de mentir só é útil nos casos, cada vez menos frequentes, em que ninguém sabe nada de nada. Aliás, sempre foram poucas as situações em que ninguém sabe nada de nada. Difícil em Portugal, impossível em Lisboa ou Porto, impensável em Braga ou Cascais.

É possível que a mulher legítima - por interesses pessoais, compreensão ou simplesmente amor - aceite a situação triangular sem levantar a perdiz e que apenas peça discrição. Mas é raro.

O lado maçador da infidelidade é a importância que a enganada (deixemos pelo momento a tradicional pouca capacidade de encaixe masculina, e continuemos a falar de um só ponto de vista) pode dar a esse facto.

Mas aqui tocamos o centro do problema.

Poder-se-á amar duas mulheres simultaneamente ou, mesmo sem querer, estaremos a ser uns grandes filhos das nossas santas mãezinhas?

Isto é um falso problema, quando pelo menos uma sabe a verdade. Normalmente estamos obrigados a contar a verdade à mulher que menos amamos ou que chega em último lugar.

Diga-se de passagem que nunca se conta toda a verdade a ninguém. (Este conselho vale mais que os 400 escudos que pagaram pela revista). Às vezes, nem a nós próprios. Raros são os casos onde a cumplicidade marital não é abalada por um ataque de sinceridade estupidamente confiante.

Se não dizemos a nenhuma das duas a pouca verdade contável, muito provavelmente estamos um pouco apaixonados e muito indecisos. Também existe, dentro desta alternativa, a variante de ser um grandessíssimo sacana, mas isso é mais natural em relacionamentos do tipo «escapadelas» ou «dar voltinhas». Raras vezes isso acontece dentro do sério vínculo que se estabelece com uma amante.

Se contamos alguma coisinha à nossa legítima, por mais inofensiva que possa parecer, estamos claramente a pedir-lhe por linhas tortas uma grande barraca direita.

Se informamos as duas da situação, é porque queremos que elas escolham. Prova irrefutável de cobardia ou de se querer ver livre das duas.

Ficou claro, portanto, que o controlo da informação defende o verdadeiro objectivo. Ou seja: um esquecimento, um bufo, ou um estúpido podem estragar coisas que tinham dimensões inofensivas ou, pior ainda, fazer com que alguém fique magoado. Mas esse é o pesadelo típico dos homens que tentam ter o que não lhes deixam que tenham.

Temos a certeza que uma mulher nunca poderá compreender a psicologia sexual masculina. Aliás, é sabido que o homem também não percebe lá muito bem a da mulher. Mas sabemos que a uma mulher apaixonada não lhe interessa especialmente envolver-se com um outro homem. E sabemos que curiosamente um homem pode, apesar de apaixonado, ter um desejo doido por uma segunda, terceira, quarta, etc., sem pôr em causa o amor pela primeira. Se por algum azar há uma mulher horrorizada com este conceito, pedimos desculpa, mas as coisas são como são. Voltemos ao tema.

As amantes, graças a Deus, voltaram a ser uma alternativa. Terminaram as orgias, a promiscuidade do engate indiscriminado. Agora podemos amar a nossa mulher e ter outro amor. Não maior, que isso é difícil - mas talvez, com um pouco de sorte, não muito menor.

Caro leitor, sabemos que se pergunta: «E uma vida desse tipo é coisa para quanto mais ou menos?". Caro amigo, há uma variedade quase ilimitada de modalidades. Se o seu sonho é «protegê-la» totalmente, é claro que isso lhe pode custar caro. Mas também existe o estilo independente, semi-dependente, antes pelo contrário, etc.

É evidente que o desafogo financeiro ajuda muito. Mas o que é que não se pode fazer quando se tem cacau? Algumas coisas, claro, mas nada que seja grave se se tiver um pouco de saúde e imaginação.

O que de facto acontece é que as amantes existem novamente e em força, seja qual for a classe social. Aliás, dentro das classes mais conservadoras, a alta e a baixa, nunca deixaram de existir. Só a classe média perde o prazer do clássico na sua procura de parecer alta ou ao tentar snobar as baixas. Sem esquecer o facto de que uma grande forretice abortará com certeza mais de uma potencial história de amor. Ficam na alegria efémera e auto-suficiente da escapadela ou da voltinha. Dificilmente encontraremos neles a intuição da amante, a vida paralela democraticamente partilhada, responsavelmente devota e regularmente erótica.

Aceitamos que o ponto fraco deste raciocínio é o que acontece se for ao contrário. Por exemplo: ela, a nossa, tem um amante mas continua a amar-nos apaixonadamente. Ele, o outro, é um bom amigo dela, um companheiro desinteressado e bem intencionado. Que é que se faz? Tentar perceber a relação? Ver se essa situação nos favorece? Pedir um certificado médico ao novo? '

Não. Eu mato-o e a ela dou-lhe uma sova que nunca mais se irá esquecer na vida. Estão a brincar comigo ou quê? Foda-se!


A
AMANTE NA INFÂNCIA

(Dos 0 aos 10 anos)

É A MELHOR amante, a mais segura, a menos comprometida e exigente, e anima qualquer família moderna. Acima de tudo, porque ninguém acredita que uma criança com 6 anos tenha já a sua namorada de pleno direito e uma amante com quem brinca aos pais e às mães.

No entanto, sabe-se - e em alguns países, nomeadamente nos EUA, há estudos sobre a matéria - que é entre os O e os 10 anos que o conceito de «segunda mulher» se adquire se interioriza. Nessa altura, a criança não tem necessidade de mentir, uma vez que a legítima não percebe o que se passa e «a outra» ainda menos. Ele, o pequeno macho, aproveita a confusão e diverte-se.

LOCAIS DE ENCONTRO: Creches, autocarros do colégio, pátio da escola, festas de anos dos amigos.

O QUE FAZEM: Brincam.

POSSIBILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 1

A AMANTE COM BORBULHAS

(Dos 10 aos 20 anos)

ESTA é a fase crítica: em princípio, são dez anos de fidelidade canina e total ausência de imaginação (atenção, referimo-nos aos homens. Quanto a elas, esta fase etária é das mais perigosas...). Os problemas do jovem - seja a borbulha, a fase, dos poemas e diários, ou a mania do desporto - impedem-no de se dedicar a mais do que uma namorada de cada vez. Geralmente, a partir dos 15 anos começam a conversar, nos cafés e no Loucuras, sobre a matéria, mas sem consequências. É só garganta.

Têm-se verificado casos raros de contra-indicações, normalmente associadas ao uso concomitante de drogas, baldas às aulas e interesses de carácter menos ortodoxo (do ponto de vista sexual, claro).

LOCAIS DE ENCONTRO: Pátios dos Liceus, PGA, Zona Mais, Sudoeste, Indústria (Braga).

O QUE FAZEM: Nada. Dançam e bebem.

PROBABILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 9. Dá sempre. Causa directa: inexperiência.

O PRINCÍPIO DA AMANTE

(Dos 20 aos 30 anos)

ATÉ aos 30 anos, ter uma amante é não só uma excepção como uma grande aventura, rodeada de todos os perigos. É como fugir de casa aos 15 anos, tem o sabor de um fruto proibido (esta podia vir na Grande Reportagem…), e por isso mesmo tem um valor, numa escala de zero a dez, praticamente dez. A amante antes dos 30 é aquela com quem, na maioria dos casos, se chega à cama só no momento em que já se viu que está a acabar a história - ou, nos casos mais precoces, quando se descobre a tempo e horas que o primeiro casamento não é, geralmente, o último.

O resultado, na maioria dos casos estudados, é trágico: uma vez confundidos os cérebros e os corações com a chegada da nova aquisição, diz-se à legítima o que se devia dizer à amante e vice-versa, trocam-se os nomes nos mais românticos jantares e chega-se mesmo ao ponto de convidar a amante a ser amiga da amada. Catástrofe à vista.

LOCAIS DE ENCONTRO: Plateau, Kremlin, Swing, emprego de um ou de outro, bares indiscretos (Lisboa: Frágil, 3 Pastorinhos, Targus, enfim, os melhores).

O QUE FAZEM: bebem sem moderação. Pontualmente têm-se registado casos de sexo. É frequente discutirem toda a noite.

PROBABILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 8.


A
AMANTE ADULTA

(Dos 30 aos 40)

Aqui é que a coisa começa a dar certa: crescidos, já com um ou dois casamentos em cima, os homens aperfeiçoam uma técnica perfeita de acompanhamento de amantes e amadas. O processo mais escrupuloso - e aquele que aconselhamos - é esclarecer de imediato tudo com a amante: explicar que somos casados, que gostamos da nossa mulher, que não desejamos deixá-la, mas que temos um coração do tamanho do Empire State Building, onde cabem mais moças interessantes e bonitas. Se ela quer, óptimo. Se não quer, há mais quem queira.

Nesta idade, ter uma amante já não é uma aventura mas um dos primeiros sinais de maturidade, imediatamente a seguir à barriga (nessa altura ainda chamada de barriguinha), ao automóvel de cilindrada superior a 1400 C.C., e ao cartão de crédito cheio de contas de restaurante.

LOCAIS DE ENCONTRO: dentro do carro, hotéis discretos, bares que abrem muito cedo (por exemplo, O Pavilhão Chinês).

O QUE FAZEM: almoçam e jantam, sexo.

PROBABILIDADE DE DAR BRONCA (0/10): 4.


A AMANTE
MADURA

(Dos 40 aos 50)

É a idade de ouro da amante 'agora recuperada para a moda sexual do universo pós-SIDA. Momento de profissionalismo de fino recorte, a amante depois dos 40 tem a serenidade e a maturidade que falta às restantes faixas etárias. É geralmente uma mulher feliz com a sua vida dupla, que cultiva com prazer as virtudes do seu segundo homem. Ele, pelo seu lado, tem na amante a última prova de uma virilidade que a barriga, já proeminente, põe em causa. É o casal feliz. Ninguém tem já paciência, nesta idade, para chatear o outro.

No fundo, os amantes desta era são bons amigos que se entendem para lá do relacionamento profissional ou, muitas vezes, de amizade entre casais. A amante perfeita chega aos 40, não tenham dúvidas.

LOCAIS DE ENCONTRO: em todo o lado.

O QUE FAZEM: o que têm a fazer.

PROBABILIDADE DE DAR BROCNA (0/10): O.


AMANTE ATÉ À MORTE

(Dos 50 para a frente)

São mais frequentes os deslizes, as faltas de memória, a factura do hotel que vai no bolso da camisa para casa e a legítima amada descobre. Mesmo assim, é uma idade de bronze dos amantes: sem a preocupação fundamental do sexo, esta fase permite--nos recuperar o gosto pela conversa, pelo presente de charme, até pela surpresa de uma virilidade masculina que tem o seu encanto.

Depois dos 50, ter uma amante é como ter um carro de corrida: convém pôr o motor a trabalhar de vez em quando, é preciso cuidar deste valor, mas pelo prazer de o manter, jamais pela vontade de acelerar. Esta é a idade do luxo e do prazer, na vida como no sexo.

LOCAIS DE ENCONTRO: Restaurantes de luxo, bares de hotel.

O QUE FAZEM: recordam, conversam e surpreendem--se mutuamente.

PROBABILIDADE DE DAR BRONCA: (0/10): 3 (às vezes, a memória falha...).


in K, nº17, Fevereiro de 1992