Terça-feira, Janeiro 30, 2007

Está na cara


Texto: Miguel Esteves Cardoso

Em bom português, a expressão “Estás com boa cara" significa exactamente: "Ultimamente tens andado com má cara." A partir de uma certa idade, a cara י muito importante. De nada interessa uma pessoa sentir-se bem, ou estar bem, ou mesmo ser bem. Em Portugal, todos os check-ups do mundo não valem o olhinho arguto de um transeunte que diz "Estás com má cara".


A nossa civilização baseia-se numa ideia tripla:
1.Tudo está na cara.
2.A palavra "cara" é feminina.
3. A mim não me enganas tu.

As pessoas podem fazer o que quiserem, mas ninguém liga ao que elas fazem. Para os portugueses só interessa a cara que têm. Pode ser-se arquitecto mas se calha ter "cara de quem nunca fez um desenho na vida" está lixado. Pode nunca ter provado uma pinga de vinho na vida mas se alguém afirma que é alcoólico e há outro que diz "Tem cara disso ... " pode considerar-se bêbado para todos os efeitos. Pode ser a pessoa mais amistosa e gregária do mundo, mas se tem "cara de poucos amigos" toda a gente foge dele.


A cara mais interessante é a "cara de caso", que não tem tradução possível nas outras línguas. Trata-se da cara de quem acaba de passar por certa experiência sem se querer, pelo menos à partida, descoser. Em português, a exclamação “Estás com cara de caso... " significa a interrogação "O que é que se passou?"


No Brasil, que é Portugal levado às últimas consequências, sem complexos nem mariquices de qualquer género, chega-se ao ponto de reduzir um indivíduo ao semblante, usando-se "cara" para dizer "pessoa". O mais engraçado é que, sendo "cara" do género feminino, se diz "o cara". Imagine-se que se dissesse "o bochechas". Não, porque "o bochechas" até se diz. De qualquer forma, é estranho que se diga “o cara", referindo-se um homem, mas não se diga “a cara" quando se fala de uma mulher. Não? Em Portugal limitamo-nos a dizer "Minha cara amiga", que poderá não querer dizer, ao contrário do que se pensa, “Minha querida amiga", mas sim "Minha carinha amiga", como quem diz "Minha carinha laroca". Também não? Então pronto.


A confusão sexual à volta da cara é característica. Uma das coisas que mais me preocupa e encanta é a questão dos géneros na língua portuguesa. No corpo humano é encantador como masculino e feminino se complementam. Os olhos estão com as sobrancelhas, o nariz está com as narinas, a boca está com os lábios, as orelhas estão com os ouvidos, o queixo está com as mandíbulas e o cabelo está com a cabeça. Para cada coisa arrapazada há uma coisa arraparigada.
Esta sintonia prolonga-se no resto do corpo. As pernas são claramente femininas, mas são interrompidas pela solidez masculina dos joelhos. As belinhas barrigas das pernas, todas curvilíneas e insinuantes, encontram de bom grado a robustez machista dos tornozelos. As mãos, espalmadas e bonitas, não passam sem os dedunchos decididos e meninos. Aliás, é engraçado como tudo o que é ossudo e rijo tende a ser masculino (tornozelos, pulsos, joelhos, cotovelos, pescoço, ombros, dedos, quadris) e tudo o que é arredondado e fofinho tende a ser feminino (bochechas, nádegas, maminhas, ancas, pernas, barriguinha). Em tudo se encontra um equilíbrio yin-yang, facilmente explicável com filosofias da treta. Excepto numa coisa. Por que carga de água é que os órgãos internos mais importantes são todos do género masculino? Que lição há aqui para aprender? O coração, o fígado, os rins, o cérebro, os nervos, os intestinos ... até o sacana do útero é masculino! A representação feminina ou é superficial (a pele), trivial (laringe, faringe, vesícula) ou óbvia (vulva, vagina, trompas). O que é que isto quererá dizer? Que são os homens que trabalham, lá nas profundidades da casa das máquinas, enquanto as mulheres se limitam a dar a cara? Tudo isto é muito complicado e sabe-se lá se levará a algum lado. Os estrangeiros ficam fascinados. O Sol é masculino mas as estrelas são femininas. A Lua é feminina mas os planetas são masculinos. O mar é masculino mas a água é feminina. O fogo é masculino mas a chama é feminina. A terra é feminina mas o solo é masculino. Se há uma lógica interna na atribuição sexual das coisas é a seguinte: a matéria e o fundamento das coisas tendem a ser masculinos, mas a ideia, a aparência e a coisa em si tendem a ser femininas. Por outras palavras, os homens estão, mas as mulheres são.


É um exercício fabuloso. A casa é feminina mas o lar é masculino. O sexo e o amor são masculinos mas a paixão é feminina. O ciúme é masculino mas a inveja é feminina. A Pátria e a Nação são femininas mas o Estado e o Povo são masculinos. Os órgãos de soberania são masculinos (Governo, Presidente, Parlamento, Tribunais) mas os conceitos em que assentam são femininos (Democracia, Representação, Política, Filosofia). Aliás, quanto mais se persiste mais se percebe que tudo o que é masculino tende a ser um tanto ou quanto mais foleiro e mais básico do que o feminino. Não há nada a fazer. A diferença entre as mulheres e os homens continua infelizmente a ser a diferença entre o que importa e o que parece importar. Os homens dão a cara, mas são as mulheres as mais descaradas.


Está na cara. É tudo muito complexo. Com que cara se fica quando se explica a um estrangeiro que "ter má cara" não é o mesmo que ser "mal encarado", e que nem uma coisa nem outra tem a ver com o conselho "Encara bem os teus problemas" ?


Aliás, não é por acaso que as mulheres não podem ter “boa cara". Não é que não gostassem de ter. Mas é feio uma senhora "Ó Clotilde, estás com boa cara, pá! Faz quase tanto sentido como dizer que estão rijas ou para dar e durar. Às mulheres diz-se apenas que estão “bonitas” mesmo quando é mentira: De qualquer modo, mesmo que não seja, ficam sem saber se estão com boa cara, que é o que interessa.


À medida que se envelhece, vai-se percebendo que a grande divisória da humanidade não é entre os ricos e os pobres, não é entre os sábios e os analfabetos, não é entre os pretos e os brancos, não é entre os crentes e os infiéis, não é entre os antigos e os modernos, não é entre os esquerda e os de direita, não é entre os novos e os velhos, não é entre os rurais e os citadinos, não é entre os trabalhadores e os patrões, não é entre os compatriotas e os estrangeiros. Não. Não é. É entre as mulheres e os homens. Porque é que Deus fez um mundo. com dois sexos, se se estava mesmo a ver que não ia funcionar?


E porque é que tantas línguas agravaram o problema? A vantagem da língua inglesa é óbvia. É verdade: como é que se explica a um inglês a frase portuguesa "Ele há cada uma !"?


in K, nº 7, Abril de 1991

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007

Instituições: O Bilhar

Fotografia: Mariana Viegas


Chegou o tempo de agir. Espalhados por esse mundo, grupos de homens adultos, liderados pelo neogrunho Robert Bly, dançam ao som de batuques, erguem falos de madeira, perdem-se na floresta, discutem o yin e o yang e o conceito do Novo Homem. Deste hippiesmo mal assumido e recauchutado dizem ser o futuro do sexo masculino. É preciso pensar. A male-bondage ideal é a que primeiro é feita de pai para filho, e depois em instituições saudavelmente criadas para o efeito. Para o verdadeiro equilíbrio masculino encontramos por exemplo os bares, o barbeiro, o alfaiate ou as salas de bilhar. O bilhar é o mais nobre dos jogos. Notem, par favor, como digo jogo e não desporto. No bilhar não há competição gratuita nem fatos de treino. É um concurso de perícia e inteligência e pode-se (deve-se) jogar de smoking, é uma actividade palaciana que dá tanto prazer a quem o joga como a quem vê jogar. Permite conversar, beber e fumar. É perfeito.


Pode-se não gostar muito da França, mas é preciso agradecer-lhe a invenção deste jogo. As primeiras carambolas foram dadas no chão, com bolas bastante maiores do que as utilizadas actualmente. As mesas e as primeiras regras surgiram por altura do reinado de Luís XIV, e a partir daí ganharam grande popularidade nos meios aristocráticos. Mas os grandes praticantes surgiram nas salas de bilhar situadas em cafés e outros lugares públicos, onde os verdadeiros grupos masculinos se reuniam sem preocupações de identidade.


O jogo de bilhar tem diversas modalidades: a partida livre, o jogo de quadro (de 47 ou 71 centímetros, a 1 ou 2 golpes) e os espectaculares jogos por tabelas. Observar um bom jogador de bilhar a três tabelas é ver poesia em movimento.


A mesa de bilhar e uma peça lindíssima. Os puristas jogam sobre uma superfície de ardósia (espessura mínima de 45 mm), coberta pelo pano verde. As tabelas laterais são feitas de caotchouc e têm uma altura de 36 a 37 mm. A madeira que as cerca deverá possuir incrustações de embutido (diamante), colocados em intervalos regulares. Admite-se que a marca do construtor da mesa possa aparecer nessa superfície, mas longe das incrustações. A mesa de bilhar ideal devera possuir um termóstato que elimine a humidade das ardósias e dos panos, mantendo-os a uma temperatura constante de 25°c. As bolas são preferencialmente de marfim, com um diâmetro de 61 mm. São três: duas brancas e uma vermelha. O objectivo do jogo é efectuar o maior número de cara bolas possível. Isso acontece quando a bola do jogador toca nas outras duas, e devera ser feito de acordo com a modalidade que se está a jogar.


Os homens portugueses não têm desculpa para não jogarem mais bilhar, a não ser a escassez de salas em condições. Mesmo assim, Portugal tem boas tradições bilharistas, e actualmente o dr. Jorge Theriaga é o 8º no ranking europeu e 18º no mundial, é um exemplo a seguir.


O bilhar (com as suas variantes snooker e pool ou eight bal) é um jogo masculino. Não é misoginia, é verdade. As mulheres, infinitamente superiores a nós em outras coisas bastante mais importantes, não sabem pegar num taco. Ficam feias, desajeitadas. Sujam-se de giz e aborrecem-se de morte. Rasgam panos e acham graça. As salas de bilhar são dos pouco universos sérios que ainda nos restam, para desabafarmos angústias e alegrias entre carambolas.


por Nuno Miguel Guedes (Agradece-se a colaboração da Federação Portuguesa de Bilhar)

SALAS DE BILHAR LISBOETAS

AS MELHORES:
Ateneu Comercial de Lisboa
Sport Lisboa e Benfica
Snooker Clube (variante snooker e eight ball)
Associação Lisbonense dos Amadores de Bilhar

EM DECLÍNIO:
Jardim Cinema
Emecê
Rialto

MORTAS, MAS NÃO ESQUECIDAS
Café Monte Carlo
Café Gelo
Café Palladium
Café Chave d'Ouro
Café Colonial
Café Império
Cervejaria Portugália