Quinta-feira, Outubro 23, 2003

Rua dos Cardais de Jesus


Pintura de Ilda David



ESTANDO nesta minha morada sazonal, num sábado lento, como são os da cidade, fui surpreendida pela harmónica do amola-tesouras e cujo emblema era um guarda-chuva desmantelado. Daí que o pusessem na lista dos maus presságios anunciador de borranca. E a verdade, é que ela chegava sempre. A nitidez com que soava a gaita de beiços era já prenúncio de ser coada pela humidade do ar. Lisboa é ainda um paraíso de usos e costumes. A par do grande mercado, abundante de queijos franceses e melões de Murcia, há ainda a venda miudinha de bairro que é tão central como o Patriarcado e aonde chegam de todos os clientes: meninos de escola que mascam pastilha elástica e velhas reformadas que discutem o drama dos Kurdos, entre um pacote de margarina e uma caixa de fósforo.

Lisboa tem tudo o que tinha há cem anos e algumas novidades de computador e electrodomésticos entre os quais reina o micro-ondas. O lixo é hoje mais sofisticado e não existe já o guarda-mor dos Lastros que proibia deitar imundícies no rio e entulhos fora do lugar próprio. Não cheira a lamas amontoadas na ribeira de Lisboa, mas as condições dela não é das melhores. Já não há cavalariças para limpar como no tempo do tirano Angias, sendo o Tejo o lava-pés da cidade e a praia de Remolares um escoadouro de bosta e palha traçada. Todavia havia espectáculos de que o lisboeta se aproveitava como de uma cartilha de maneiras. A chegada das noivas dos príncipes era um deles. Imitava-se o penteado de estrangeiras, como quando chegou Maria Pia e a sua cabeleira ruiva deslumbrou as mulheres. Ainda hoje se sente essa fina maneira de copiar o cone e os rapazinhos de dez anos são precavidos de réplicas e sentimentos áulicos. Isto faz de Lisboa um parador engastado no Tejo que parece ter inventado a cidade a partir da sua enseada.

Não sei se há lugar mais belo na face da Terra. Tem um ar descansado e um viver sem riscos que é civilidade sem compromissos. O que noutros lugares são vestígios de outras eras (como em Roma, aonde o monumento é uma forma de tratar a História por tu), aqui ninguém se humilha às suas riquezas. O valor das coisas está em elas serem estáveis e não surpreendentes. Diz-se mesmo que o Mago Ruffiamonte de que fala Hoffman, foi em Lisboa que se inspirou para produzir versos encantadores: «A cidade onde a livre fantasia se desprende como no pequeno mundo do teatro» e onde, como ele diz, «a humildade se transforma em nobreza». Bendito Hoffman, se alguma vez conheceste Lisboa, aí percebeste que aí existe um "EU" que faz nascer o seu duplo, e dividir o próprio coração mantendo, no entanto, a sua expansão própria.

Difícil é encontrar melhor acorde com o paraíso, onde todos os perfumes celestes seriam percebidos se não andasse no ar o cheiro dos escapes e do lixo que transborda dos baldes. Agora mesmo ouço um arrulhar de pombos, nascidos nas cornijas por Obra do Santo Espírito e que combinam com a distante música do amolador, que sobe a rua dos Cardais de Jesus.

Ah, esta linguagem, ó jovens dos quatro costados, é-nos dedicada. Duvidai da luz do Sol, e da luz das estrelas; podeis pensar se a verdade pode mentir. Mas não duvideis dos magos e do seu poder sobre a Tetra. Ou então, o cheiro que percebo daqui, das cozinhas da Misericórdia, é o do vosso coração temperado com pimenta negra, da que o diabo usa para lhe fazer brilhar os olhos. Parece-me a rua, onde soa a música do compõe - loiça - e - guarda-chuvas, uma rua onde apareciam fósseis do mar. Conchas e pedras onde ficou impresso o esqueleto de peixes pré-históricos. E um vento quente arrasta a capa do Marquês por cima dos telhados. Dizem que esteve aqui, na noite do terramoto. O Mago Ruffiamonte encontrou-o ao virar a esquina; e disse: «as cidades celestes conhecem-se porque têm amigos até no inferno».

in K, nº 10, Rua dos Cardais de Jesus, Agustina Bessa-Luís, Julho 1991

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